Espuma dos dias — “O regresso de um desacreditado neoconservador”, por Caitlin Johnstone

Seleção e tradução de Francisco Tavares

6 min de leitura

O regresso de um desacreditado neoconservador

O facto de os presidentes dos EUA continuarem a contratar alguém tão tirânico, corrupto e assassino diz-nos tudo o que precisamos de saber sobre a natureza da política externa dos EUA.

 Por Caitlin Johnstone

Publicado por  em 7 de Julho de 2023 (ver aqui)

Publicação original por  (ver aqui)

 

Elliott Abrams durante uma discussão com a deputada Ilhan Omar em fevereiro de 2019. (Imagem C-SPAN)

 

A CNN noticia que o Presidente Joe Biden nomeou o neoconservador criminoso Elliott Abrams para um cargo na Comissão Consultiva de Diplomacia Pública dos EUA, que, de acordo com o Departamento de Estado dos EUA, é responsável por “avaliar as actividades destinadas a compreender, informar e influenciar os públicos estrangeiros” e presta “grande atenção” ao braço oficial de propaganda externa do governo dos EUA, a Agência dos Media Globais dos EUA.

Normalmente, quando se ouve alguém ser apelidado de “neoconservador”, não é uma descrição rigorosamente exacta do ponto de vista técnico e é frequentemente utilizada para significar simplesmente “belicista”.

Mas Abrams é, na verdade, um ideólogo neoconservador do Projeto para um Novo Século Americano, com laços profundos com os neoconservadores da velha guarda dos anos 70, e ajudou a promover o imperialismo violento dos EUA na América Latina e no Médio Oriente durante décadas.

Para além de ter servido como representante especial da administração Trump para o Irão e para a Venezuela (duas das nações onde a política externa do antigo Presidente Donald Trump foi mais assassina), Abrams é provavelmente mais conhecido por ter confessado o seu papel no encobrimento criminoso do Irão-Contras durante a administração Reagan.

A CNN – notoriamente relutante em criticar a política externa dos EUA ou as administrações presidenciais democratas – foi surpreendentemente crítica neste ponto no seu relatório sobre a nomeação de Abrams por Biden para o cargo.

Ver aqui

 

Num artigo intitulado “Biden nomeia o controverso ex-nomeado por Trump para a Comissão de Diplomacia Pública“, Jack Forrest, da CNN, escreve:

“Elliott Abrams, que serviu em três administrações republicanas, foi recentemente enviado especial da administração Trump para o Irão e para a Venezuela, onde foi encarregado de dirigir a campanha para substituir o presidente venezuelano Nicolas Maduro.

A longa história do republicano na política externa é marcada por uma declaração de culpa em 1991 por ocultar informações sobre o caso Irão-Contras, que lhe valeu duas acusações de contraordenação, dois anos de liberdade condicional e 100 horas de serviço comunitário – embora os seus crimes tenham sido posteriormente perdoados pelo Presidente George H.W. Bush.

A operação secreta Irão-Contras, que teve lugar durante o tempo em que Abrams foi secretário de Estado adjunto na administração Reagan, envolveu o financiamento de rebeldes anticomunistas na Nicarágua utilizando as receitas da venda de armas ao Irão, apesar da proibição de tal financiamento pelo Congresso.

No seu papel sob o comando do antigo Presidente Ronald Reagan, Abrams foi também criticado por um relatório da Human Rights Watch pelas suas tentativas, num testemunho no Senado em fevereiro de 1982, de minimizar os relatos do massacre de 1000 pessoas por unidades militares treinadas e equipadas pelos EUA na cidade salvadorenha de El Mozote, em dezembro de 1981 – o maior massacre da história recente da América Latina.

[Aqui vídeo sobre o massacre em El Mozote, San Salvador]

Insistiu que o número de vítimas relatadas era “implausível” e “elogiou” o batalhão militar por detrás dos assassínios em massa – posições que reiterou quando foram expostas durante uma audiência da Comissão dos Assuntos Externos da Câmara dos Representantes em 2019, pela deputada Ilhan Omar, democrata do Minnesota, que utilizou a sua história na América Latina para pôr em causa a sua credibilidade”.

 

Video aqui

 

Quando se é tão nojento que até a CNN tem repugnância por si, estamos ante um tipo especial de nojo.

Como Forrest observou, esta será a quarta administração presidencial de que Abrams faz parte, apesar de ser um vigarista confesso e de ter promovido o derramamento de sangue em todas as oportunidades em algumas das acções criminosas mais notórias do império americano.

Abrams é um assassino tão frio que admitiu abertamente, durante uma conferência em 1985, que o objetivo da ajuda aos Contras na Nicarágua era “permitir que as pessoas que lutam do nosso lado usem mais violência”, e promoveu a violência militar dos EUA contra o Iraque, a Síria e o Irão com uma força notável ao longo da sua carreira.

O facto de alguém tão tirânico, tão corrupto e tão sem escrúpulos continuar a ser nomeado para cargos relacionados com a política externa dos EUA diz-nos tudo o que precisamos de saber sobre a natureza da política externa dos EUA.

Na verdade, é uma acusação condenatória de toda a nossa civilização o facto de monstros pantanosos como Elliott Abrams continuarem a ser membros estimados da sociedade, em vez de odiados párias que não podem mostrar a cara em público com segurança.

Deviam ser expulsos de todas as cidades onde tentam entrar e incapazes de assegurar sequer empregos de nível básico a trabalhar pelo salário mínimo, mas, em vez disso, são empregados como especialistas de alto nível, pensadores e funcionários políticos que fornecem conhecimentos sobre alguns dos assuntos mais importantes do mundo.

Parafraseando uma citação frequentemente atribuída a Jiddu Krishnamurti, não é medida de boa saúde ser bem recompensado numa sociedade profundamente doente.

Porque a nossa sociedade está tão profundamente doente, um dos caminhos mais rápidos para a fortuna e a estima é ser tão nojento como Elliott Abrams. É assim tão perturbado interiormente que se deve estar para se chegar à proeminência dentro da estrutura de poder dos EUA: disposto a dizer e a fazer tudo o que é preciso dizer e fazer para garantir o domínio contínuo de um império global que é sustentado à custa de sangue humano.

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A autora: Caitlin Johnstone é uma jornalista independente e rebelde de Melbourne (Austrália), apoiada pelos seus leitores. É a autora do livro de poesia ilustrado “Woke: A Field Guide For Utopia Preppers.”

O seu trabalho é inteiramente apoiado por leitores e o seu sítio é aqui.

 

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