Vivemos uma época de incertezas, de medos, de ameaças, de mudanças rápidas em relação às sociedades em que vivemos.
Já lá vai o tempo em que as crianças eram poupadas a estas questões sociais, políticas e religiosas, para o bem e para o mal.
Mas a velocidade com que as mudanças surgem, quase que ainda não tivemos tempo para conhecer, pensar sobre o porquê dessas mudanças e suas consequências, e logo aparece mais uma novidade que tem confundido e amedrontado os mais céticos.
Dos telefones de manivela aos telemóveis, que para além de fazerem e de receberem mensagens também transmitem a imagem de quem está a conversar vai um pequeno passo na História.
Mas mesmo nas sociedades, já viradas para a Inteligência Artificial, há algo que não se modificou, o crescimento das crianças que “nascem a saber mexer nos telemóveis” como dizem os pais e as mães enternecidos a ver o seu pimpolho com os dedinhos esticados para chegar às teclas.
As suas fases de crescimento são as mesmas estudadas por Piaget e outros, nenhuma criança corre sem ter primeiro aprendido a andar, nenhuma criança começa a ler e a escrever de repente. Todas as crianças gostam de ouvir histórias de encantar, de contos de fadas.
Os contos de fadas têm sido contados ao longo dos tempos desde as primitivas comunidades de caçadores, com as variações e adaptações necessárias à época numa tentativa de reconstruir o universo total.
Multiplicam-se as suas variantes, readaptam-se e repetindo sempre algo das primeiras formas de contar o conto tradicional, nascido em tempos que já lá vão, em que os animais falavam, pelo que, em todas as histórias que tiverem um sentido, se pode reconhecer a primeira história alguma vez contada e a última, após a qual o mundo nunca mais deixará de se contar numa história, qual rizoma que cria conexões, linhas de fuga e multiplicidades com a realidade exterior, que por sua vez incorpora os contos de fada escolhendo a melhor adaptação para que se crie empatia entre os receios das crianças e a esperança num mundo melhor.
O pensamento unifica o mundo real com o mundo dos contos de fadas, com a vontade e com a representação.
A realidade reconhece-se no conto de fadas como se fosse ela própria.
O conto repetido de geração em geração, cada uma imitando e diferindo da anterior, cada uma vagueando pelo sonho e pela memória e, nos contos repetidos, os símbolos a agitarem a vida interior da criança remetendo-a para novos comportamentos e atitudes, de acordo com as suas necessidades, movidas pelo desejo de uma vida boa, é um rizoma que torna o eu não uno, mas múltiplo.
Os contos de fadas podem permitir evitar tensões sociais representando-as, expulsando a violência latente, desempenhando, assim, um papel regulador num espaço de ficção em que se exprimem conflitos e pulsões.
A aprendizagem através dos contos faz-se ouvindo e contando.
O conto age ao mesmo tempo sobre os homens e sobre as culturas talvez um dia, quem sabe, tudo aquilo possa vir a passar-se connosco.
A moral dos contos de fadas é como uma moral que se exerce sobre os acontecimentos e não sobre os comportamentos, uma moral que sofre e rejeita a injustiça dos factos, a tragédia da vida e que constrói um universo em que a cada injustiça corresponde uma reparação, como se fosse uma passagem de funções negativas (afastamento, proibição, dano, carência, obstáculo) a funções que invertem ou superam a negatividade das primeiras.
Os contos de fadas propõem uma conduta que permite enfrentar e afrontar a realidade social. Nos nossos dias o contador de histórias que reunia à lareira adultos e crianças, foi substituído pela mãe, pelo professor, o que permite que o texto possa variar em função da criança, que tem a possibilidade de fazer perguntas, intervir durante a audição da história manifestando os seus medos, as suas alegrias; as crianças, segundo Piaget, acreditam que os seus desejos (egocentrismo) são capazes de transformar o mundo.