Seleção e tradução de Francisco Tavares
12 min de leitura
A China e os “especialistas”
Publicado por Next Recession
em 5 de Março de 2023 (original aqui)
O Congresso Nacional Popular (CNP) anual começou hoje com o primeiro-ministro Li Keqiang a anunciar uma meta de Crescimento Real do PIB de 5%, abaixo dos 5,5% anteriores. A prioridade, disse Li, era a economia, mas mesmo assim as despesas com defesa deveriam aumentar 7,2% em 2023. Li estabeleceu uma meta para o défice orçamental da China este ano em 3% do PIB, ao mesmo tempo que se comprometeu a criar 12 milhões de novos empregos urbanos e a manter a taxa de desemprego em cerca de 5,5%. Ele disse que a China precisa “expandir o acesso ao mercado” para investidores estrangeiros, “sustentar” o consumo e controlar o risco no setor imobiliário.
No afetado setor imobiliário da China, onde muitas empresas deixaram de pagar as suas dívidas, Li comprometeu-se a ajudar “ empresas imobiliárias líderes e de alta qualidade“, e continuar a “impedir a expansão não regulamentada“. Alguns ‘peritos’ ocidentais foram ligeiramente positivos. “Eu acho que, no geral, o relatório está orientado para tranquilizar os investidores estrangeiros de que a China ainda é um bom lugar para fazer negócios e assim por diante“, disse Willy Lam, um ‘especialista’ em política chinesa no centro de Estudos da Fundação Jamestown, em Washington.
O presidente Xi está a assumir um terceiro mandato sem precedentes e substituindo Li por Li Qiang, um associado próximo que presidiu a trapalhada do confinamento em Xangai no ano passado, como chefe do Partido Comunista da cidade. Anteriormente, trabalhou com Xi na província de Zhejiang nos anos 2000. O presidente chinês concluiu uma limpeza no principal órgão de decisão do Partido Comunista, o Comité Permanente do Politburo, de sete membros, em Outubro.
À medida que começa o CNP, mais uma vez, ‘especialistas ocidentais da China’ e mesmo muitos na própria China prevêem estagnação e até mesmo um colapso, à medida que o setor imobiliário endividado implode. O crescimento populacional da China parou e a força de trabalho está em declínio. O crescimento está a abrandar. A China entrou numa ‘armadilha do rendimento médio’. De facto, tendo em conta os enormes níveis de endividamento em todos os sectores, a China vai estagnar como aconteceu com o Japão nas últimas três décadas. A única maneira de evitar a ‘Japonização’, dizem estes peritos, é ‘reequilibrar’ a economia do ‘sobreinvestimento’ e da ‘obsessão pelas exportações’ para uma economia doméstica orientada para o consumidor, como no Ocidente, e também reduzir o controlo estatal da economia para que o sector privado possa florescer.
Ora bem, discuti extensamente a validade destes argumentos em vários textos para os quais remeto os meus leitores, explicando porque é que grande parte desta ‘conversa de peritos’ não está correcta.
Está a China a caminho de um colapso?
Está a China num ponto de viragem?
O desafio de crescimento da China
Mas, tendo em conta a reunião do CNP e as novas orientações que estão a ser definidas pelos dirigentes do PCC, permitam-me que refira alguns dos meus argumentos contra os “especialistas”.
Primeiro, lembremo-nos do desempenho económico passado da China. A taxa de crescimento da China nos últimos 20 anos foi significativamente mais elevada do que qualquer outra no G7 e mesmo nas principais economias emergentes, os chamados BRICS (Brasil, Rússia, Índia e África do Sul). E esta taxa de crescimento mais rápida tem sido no país mais populoso do mundo, não numa pequena cidade-estado, como Singapura, ou mesmo em economias asiáticas ligeiramente maiores, como Taiwan ou a Coreia. Simplesmente não há comparação possível.
Ah, mas está a ver, tudo acabou agora. O crescimento da China irá agora abrandar, como no Japão, porque está sobrecarregada de dívidas excessivas e porque não reequilibrou a economia para o “consumidor”.
Este último argumento é particularmente irritante para mim. Especialistas ocidentais e mesmo economistas chineses defendem este argumento, que vem directamente da economia neoclássica e do que a economista keynesiana Joan Robinson chamou de ‘keynesianismo abastardado’ – abastardado porque o próprio Keynes sublinhou o papel da ‘procura agregada’ que incluía o investimento e não apenas o consumo. E, no entanto, o mainstream argumenta que o que importa numa economia moderna para o crescimento é impulsionar o consumo.
Pode demonstrar-se que este argumento não tem sentido. É o investimento produtivo que é o motor do crescimento numa economia e desse investimento flui o consumo – e não o contrário.
A base usual para a visão de ‘reequilíbrio’ é que as taxas de consumo pessoal são demasiado baixas na China, o que impedirá o crescimento liderado pela procura. Por exemplo, veja esta posição de Chen Zhiwu, professor de finanças e economia chinesas na Universidade de Hong Kong. Chen argumenta que, sob Xi, foram postas de lado grandes reformas para um setor privado maior e uma economia liderada pelo consumidor. “As 60 reformas teriam expandido amplamente o papel do consumo e das iniciativas privadas“, diz ele. “No entanto, a agenda de reformas orientada para o mercado foi largamente marginalizada… daí resulta um papel mais importante para o estado e um papel reduzido para o sector privado.” De acordo com Chen, isso significará que a economia da China estagnará a partir daqui.
Outro proeminente e amplamente seguido analista Ocidental, Michael Pettis, sedeado em Xangai, apresenta um argumento semelhante, a saber, que o que empurrará a China para a estagnação de estilo japonês é o fracasso em expandir o consumo pessoal e continuar a expandir o investimento através do aumento da dívida. E o guru keynesiano Paul Krugman junta-se a este coro, falando da economia “descontroladamente desequilibrada” da China, que Krugman afirma: “Por razões que não compreendo totalmente, os decisores políticos têm sido relutantes em permitir que todos os benefícios do crescimento económico passado passem para as famílias, e isso levou a uma baixa procura dos consumidores”. Infelizmente, setores da liderança chinesa, particularmente os seus economistas no setor financeiro, aceitam este argumento irritantemente estúpido dos especialistas ocidentais.
Como pode alguém afirmar que as economias maduras do G7, lideradas pelo consumidor, conseguiram alcançar um crescimento económico estável e rápido, ou que o crescimento dos salários reais e do consumo foram mais fortes nesses países? Com efeito, no G7, o consumo não conseguiu impulsionar o crescimento económico; e os salários estagnaram em termos reais nos últimos dez anos (e estão agora a cair), enquanto os salários reais na China dispararam. Além disso, essas economias lideradas pelo consumidor foram atingidas por quedas regulares e recorrentes na produção que perderam milhões de milhões de produção e rendimento para as suas populações.
Há duas questões aqui. Em primeiro lugar, as economias lideradas pelo investimento proporcionam um crescimento mais rápido do consumo. A China tem o rácio mais elevado entre o investimento bruto e o PIB entre as principais economias (todos os dados do presente documento provêm do Banco Mundial).
E o crescimento do investimento é também o mais rápido.
É certo, o crescimento do investimento está a desacelerar na China, mas a desaceleração é ainda pior em relação a um nível baixo como nas economias do G7. A japonização significa, na realidade, a queda do crescimento real do investimento. A China não está nem perto disso.
O que significa isto para o crescimento do PIB? A sobreinvestida economia da China é mais de quatro vezes mais rápida do que as economias da OCDE lideradas pelo consumidor e 40% mais rápida do que a da Índia.
Muito se falou da política de ‘desastre’ Zero COVID na China. Mas, além de salvar milhões de vidas, a China ainda não entrou em recessão em 2020, ao contrário de todas as economias do G7 em 2020.
Em segundo lugar, isso significa que o consumo das famílias na China é demasiado baixo ou está mesmo a decrescer? Neste ponto, os especialistas da China exibem este gráfico.
Em seguida, vem o argumento: a China precisa de elevar a sua quota de consumo aos níveis ocidentais ou não será capaz de crescer e permanecerá presa numa armadilha de ‘rendimento médio’.
Mas este não é o gráfico que conta a verdadeira história. Este é o gráfico que o faz.
Surpresa! A ‘sobreinvestida’ economia chinesa e ‘descontroladamente desequilibrada’ proporcionou de longe o crescimento mais rápido do consumo para o seu povo – quase quatro vezes mais rápido do que os Estados Unidos liderados pelo consumidor, nove vezes mais rápido do que a Japonização e até 50% mais rápido do que a Índia. O que isto sugere é que, se a China ‘reequilibrar’a sua economia em relação ao consumidor e reduzir o investimento; e também reduzir o sector público e ‘libertar’ o sector privado (o sector que fornece a maior parte dos bens de consumo na China), a taxa de crescimento da China cairia ainda mais do que nos últimos anos!
Tal como está, o gráfico do consumo em relação ao PIB é enganador. Em primeiro lugar, esta medida de consumo exclui o salário social, em particular a saúde e a educação, a assistência social e os serviços públicos. Em países como os EUA, grande parte deste consumo social tem de ser pago e, por isso, aparece na parte do consumo. Esse não é o caso de grande parte do consumo social na China. A China tem um longo caminho a percorrer em termos de consumo social, mas está muito à frente dos seus pares de mercados emergentes em muitas áreas e não muito atrás das principais economias do G7, que começaram mais de 100 anos antes.
Em segundo lugar, o gráfico mostra o consumo como uma parte do valor acrescentado (PIB), ou seja, para o consumidor final. Nos EUA, o consumo parece constituir 70% do PIB. No entanto, se olharmos para o produto bruto, que inclui todos os produtos intermédios de valor acrescentado não contabilizados no PIB, o consumo representa apenas 36% do produto total; o resto constitui uma procura de capital por peças, materiais, bens intermédios e serviços. É o investimento que é o factor de oscilação e motor da procura, e não o consumo dos trabalhadores.
O que é verdade é que o crescimento do investimento ‘produtivo’ recuou na China. O investimento em novas tecnologias, na indústria transformadora, etc., deu lugar ao investimento em activos improdutivos, nomeadamente no sector imobiliário. Na minha opinião, os sucessivos governos chineses cometeram um grande erro ao tentar satisfazer as necessidades habitacionais da sua crescente população urbana através da criação de um mercado de habitação para venda, com hipotecas e promotores privados entregues a si próprios. Em vez de os governos locais lançarem eles próprios projectos habitacionais para alojar pessoas para alugar, venderam activos estatais (terrenos) a promotores capitalistas que procederam a empréstimos pesados para construir projectos. Logo, a habitação deixou de ser “para viver, mas para especulação ” (citação de Xi). A dívida do sector privado disparou – tal como na bolha imobiliária do Ocidente. Tudo veio à tona na pandemia de COVID quando os promotores e os seus investidores faliram.
A crise imobiliária continua por resolver. É interessante ver o que os peritos ocidentais consideram ser a solução. Isto é o que diz Michael Pettis: “Infelizmente, será necessário um renascimento das compras especulativas para evitar uma maior contracção no sector imobiliário e nos preços dos imóveis, algo que só pioraria as coisas a médio e longo prazo.“(Tuit, 5 De Março). Portanto, a resposta ao colapso imobiliário é mais especulação, mesmo que isso piore as coisas no futuro!
Essa não é a minha solução. O que o governo chinês tem de fazer é assumir estas grandes promotoras e trazê-las de volta à propriedade pública, concluir os projectos e passar a construir para alugar. O governo deve acabar com os pagamentos da dívida aos investidores estrangeiros e apenas cumprir as obrigações para com os pequenos investidores; e transferir a habitação para fora do sistema hipotecário e de financiamento privado.
O sector imobiliário tem uma dimensão tão grande na China em percentagem do investimento e da produção que degradou seriamente o crescimento global. É aqui que a economia necessita de reequilíbrio. O primeiro-ministro Li disse que a China precisa “expandir o acesso ao mercado” para os investidores estrangeiros, “sustentar” o consumo e controlar o risco no setor imobiliário. Li prometeu ajudar “empresas imobiliárias líderes e de alta qualidade“, continuando a “impedir a expansão não regulamentada“.
Realmente, poderá Li fazer a quadratura do círculo? O sector privado da China cresceu rapidamente nas últimas duas décadas. Levou a uma expansão pouco saudável de multimilionários e a uma crescente desigualdade de riqueza e rendimentos. E tal como no Ocidente, à medida que a rentabilidade do capital produtivo caiu, o sector capitalista passou para áreas de investimento improdutivas, como as finanças e o imobiliário. A dívida disparou. Isto aumentou o risco de crises económicas, como no Ocidente.
Contrariamente às opiniões dos especialistas ocidentais e de Li, não é menos investimento e mais consumo; não é menos investimento público e mais privado que a China precisa para sustentar o seu sucesso económico anterior, mas o contrário.
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O autor: Michael Roberts [1938-], economista britânico marxista. Trabalhou durante mais de 30 anos como analista económico na City de Londres. É editor do blog The next recession. Publicou, entre outros ensaios, Marx200: a Review of Marx’s economics 200 years after his birth (2018), The long Depression: Marxism and The Global Crisis of Capitalism (2016), The Great recession: a Marxist view (2009).












