Há muito que encaro o conflito judaico-palestiniano como algo demasiado complexo para, no Ocidente, entendê-lo em toda a sua extensão. Ele não é sequer desde 1948, mas milenar. De tal maneira tenho consciência dessa complexidade, que, por vezes, amigos meus que defendem a causa palestiniana, me chamaram reaccionário ou alinhado com o imperialismo! Claro que não é verdade. Mas não tenho a mínima dúvida sobre o carácter terrorista do Hamas: fiquei horrorizado com a barbárie que cometeram a 7 de Outubro.
Compreendo a necessidade de Israel se defender e a legitimidade desse direito. Sei até que não há guerras assépticas e há sempre civis que sofrem consequências. Porém, ontem senti-me envergonhado de estar numa parte do Mundo que sanciona o crime de guerra cometido pelo IDF ao bombardear um Campo de Refugiados. É indecoroso, impróprio da Cultura Judaica e denota um ódio que, de facto, nos obriga a aceitar que está em marcha um plano de genocídio.
O comportamento americano é cúmplice e deita por terra todos os argumentos da sua Civilização, rasga a Carta dos Direitos Humanos e cospe no próprio Cristianismo. Eu, que nem me revejo na Cultura norte-americana, mas tenho respeito por alguns dos valores que conclama, tenho a certeza de que Thomas Jefferson, nestes dias que têm passado, se envergonharia de Biden. E que dizer da União Europeia? Macron é igual a Pétain, não faz jus ao grito de Liberdade, Igualdade e Fraternidade de 1789. E cá por casa? No primeiro país a abolir a pena de morte e a não fazer extradições para países onde há pena de morte, como convive com os palestinianos literalmente condenados à morte, sem processo para se defenderem?
Se não se pode tolerar o que o Hamas fez – e eu não tolero, nem com paliativos -, não se pode, ainda menos, tolerar que um Estado (Israel) se organize e comporte como um grupo de iguais terroristas, mais armados e (objectivamente) mais sanguinário. Onde estão a ONU e as Democracias? Onde está a Carta dos Direitos Humanos? Onde está o Tribunal Penal Internacional? Onde estão as emoções exarcebadas perante o conflito russo-ucraniano? Quem tem moral para dizer que uma Democracia Liberal (onde se inclui Israel) é sempre preferível a uma Autocracia? O governo de Israel e quem o apoia, passou à categoria de taliban ou daesh de sinal contrário. Uma vergonha para os próprios judeus, uma traição às Tábuas da Lei!
Só não vê isto quem tem o cérebro lavado (melhor será dizer ‘embadalhocado’ ou extraído para teclar apenas) e está cego de alma e tem coração de pedra. Ou se revê nas teorias nazis, agora postas ao serviço do sionismo mais xenófobo e cruel que se possa imaginar. Agonia-me. Desde ontem não pode haver a mínima dúvida de que por razões humanitárias básicas se exige um cessar-fogo imediato. E um corredor livre de apoio humanitário para Gaza. Para fechar as torneiras do Zyclon B (o gás usado nas câmaras de morte em Auschwitz) transformado, tão ou mais cinicamente, em corte de energia, água e alimento.
Às pessoas que tal fizeram, o D’eus da sua religião não perdoaria, certamente. Tornaram-se adoradores do Bezerro de Ouro, sem respeito pelas Tábuas da Lei. O nosso, que reconhece Jesus como o Messias, só pode perdoar-lhes na sua infinita Misericórdia. Como humanos, se humanos somos, não o conseguiremos. Ou devo também perdoar ao Hamas? E a Hitler? E a Átila? Não consigo, Senhor, não consigo!
Fala-nos tu também, Francisco! Em nome de Cristo tem de se denunciar tais crimes e sem meias palavras. Basta de barbárie, basta de tanto ódio, basta de tanta crueldade.