Este artigo foi publicado originalmente na AbrilAbril
em 22 de Novembro último
Uma situação que é de hoje, de ontem, de todos os dias se recuarmos até 1947/48. Qualquer fuga em massa de palestinianos resultante de acções militares terroristas do aparelho sionista tem sentido único, o de ida.
A Agência das Nações Unidas para os Refugiados da Palestina (UNRWA) revelou, a 21 de Novembro de 2023, que a mais recente agressão israelita a Gaza provocou 1,7 milhões de deslocados Créditos/ Anadolu
A impunidade de um genocídio
«Estas são as linhas básicas do governo por mim chefiado: o povo judeu tem um direito exclusivo e inquestionável a todas as áreas da terra de Israel»
(Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel no discurso de posse em Janeiro de 2023)
Sob os nossos olhos desenvolve-se a partir da Faixa de Gaza, e também da Cisjordânia e Jerusalém Leste, como temos vindo a verificar, a limpeza étnica de mais de cinco milhões de pessoas executada pelo aparelho político-militar do Estado de Israel, com apoio dos Estados Unidos da América e, no mínimo, a cumplicidade dos governos dos países do chamado Ocidente colectivo. Perante esta realidade ainda não são suficientes, apesar de crescentes, a revolta e a indignação de milhões e milhões de cidadãos do mundo, inconformados com o crime de genocídio em que a fuga e a expulsão de toda a população de um território decorrem da matança de milhares de pessoas, na sua maioria crianças e mulheres.
Sob pretexto das práticas terroristas do Hamas, o Estado sionista colonial de Israel deu asas à sua máquina terrorista, com mais de 75 anos de experiência, para provocar o êxodo da população palestiniana de Gaza, parte dela já refugiada de outros episódios de limpeza étnica praticados pela mesma linhagem hereditária de assassinos em série. Numa primeira fase, os terroristas sionistas criam as condições de pânico e aniquilação indiscriminada, o terror implacável, para que a população de Gaza não tenha outra alternativa que não seja fugir para o território egípcio do deserto e península do Sinai, movimento que é recusado publicamente pelo governo do Cairo – embora, em privado, as coisas talvez não sejam muito bem assim.
«Numa primeira fase, os terroristas sionistas criam as condições de pânico e aniquilação indiscriminada, o terror implacável, para que a população de Gaza não tenha outra alternativa que não seja fugir para o território egípcio do deserto e península do Sinai, movimento que é recusado publicamente pelo governo do Cairo»
Pelo menos tendo em conta uma declaração do presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmmud Abbas, publicada já em 2014 pelo Times of Israel: «Um líder sénior do Egipto disse-me que deve ser encontrado um refúgio para os palestinianos e, para isso, temos todo um vasto território de 1600 quilómetros quadrados adjacente a Gaza». Esta revelação foi feita por Abbas numa reunião do Comité Central da Fatah, a maior organização secular palestiniana, realizada em Ramallah, na Cisjordânia.
Por enquanto, no entanto, a posição oficial do Egipto, declarada pelo presidente Al-Sisi, assume que os acontecimentos de Gaza representam «uma tentativa de forçar os residentes a refugiar-se, a emigrar para o Egipto, o que não pode ser aceite». Tanto mais, acrescenta, que «a ideia de deslocar palestinianos para o Sinai significa arrastar o Egipto para uma guerra com Israel». Motivos fortes. Mas serão suficientes?
Em Gaza, o movimento de «transferência» da população envolve 2,3 milhões de pessoas.
Tragédia alastra à Cisjordânia

Os últimos acontecimentos, como o cerco do hospital da massacrada região de Jenin por 40 tanques e uma turba de militares e colonos e o assalto da tropa ao campo de refugiados de Balata, não muito longe de Ramallah, sede da Autoridade Palestiniana, revelam uma alteração qualitativa da posição israelita na Cisjordânia, assumindo agora as características de uma invasão militar.
Até aqui, embora se tenha registado uma aceleração desde 7 de Outubro, dia da operação do Hamas em Israel, as operações contra as comunidades palestinianas na Cisjordânia e em Jerusalém Leste têm estado principalmente a cargo de grupos de assalto ou mesmo esquadrões da morte formados por colonos, sob protecção da polícia e, esporadicamente, das tropas sionistas.
Esta tem sido, em geral, a metodologia da colonização – actividade ilegal à luz das Convenções de Genebra – e de ocupação gradual do território da Cisjordânia de modo a inviabilizar, por falta de área de implantação e viabilidade, a criação de um Estado palestiniano independente. As acções de agressão têm formas diversificadas mas convergem no objectivo de tornar insuportável a vida de famílias e comunidades, forçando-as a procurar, noutros lados, de preferência no estrangeiro, as condições para sobreviver. A limpeza étnica é gradual, não se processa, para já, em massa, mas nem por isso deixa de ser o que é. A partir do êxodo forçado torna-se impossível para qualquer deslocado regressar às suas origens.
«A limpeza étnica é gradual, não se processa, para já, em massa, mas nem por isso deixa de ser o que é. A partir do êxodo forçado torna-se impossível para qualquer deslocado regressar às suas origens.»
Destruição de residências, de bairros inteiros, estabelecimentos de ensino, comerciais e de saúde, recusa da atribuição de licenças de habitação, expulsão arbitrária de pessoas e de famílias inteiras, divisão de cidades, aldeias, até mesmo de famílias por um muro de separação com centenas de quilómetros, devastação de colheitas, roubo das produções agrícolas são alguns dos crimes quotidianos cometidos por autoridades militares, policiais e por colonos, «limpando» áreas inteiras dos seus habitantes e instalando «postos avançados» de colonização funcionando como núcleos de novos colonatos. A Justiça israelita não actua contra os crimes cometidos por colonos e, se algum destes se «excede» e chega a ser detido, por exemplo na sequência de um assassínio, acaba por ficar rapidamente em liberdade.
A crescente militarização da actividade sionista na Cisjordânia, mesmo em zonas sob a responsabilidade da Autoridade Palestiniana, significa que há uma mudança de atitude de Israel ao humilhar e reduzir à ínfima espécie a autonomia decorrente dos Acordos de Oslo, que todos os governos sionistas desde o assassínio de Isaac Rabin, em 1994, fizeram por inviabilizar.

Leia este artigo de José Goulão no original, na Abrilabril, clicando em:
Uma limpeza étnica sob os nossos olhos – 1 | AbrilAbril
Leia também o segundo artigo desta série Uma limpeza étnica sob os nossos olhos, de José Goulão, clicando em:
Leia também o terceiro artigo desta série de José Goulâo clicando em:



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