Tenho muita dificuldade em lidar com normas morais, pelo seu relativismo e por causa das suas, por vezes perversas, contingências. Dentro do multiculturalismo e mesmo dentro da nossa cultura, há comportamentos que parecem moralmente justificados, quando nada têm de ético ou moral, se olhados de um ponto de vista racional. Todos nós estamos cheios de ver a enorme falsidade e hipocrisia de que se faz o tecido de tantas instituições tidas como sacrários da moral. Daí eu pensar que a virtude é a capacidade permanente de fazer bem feito o trabalho da liberdade, e o bem é aquilo que essa virtude elege livremente no seio deste trabalho. De qualquer forma é-me difícil não considerar, desde já, como virtudes, hábitos de diligência, seriedade, sinceridade, lealdade, competência, responsabilidade, coragem, perseverança, altruísmo, disponibilidade e solidariedade. Quero dizer, no entanto, que há virtudes estabelecidas que podem não o ser. A tão propalada tolerância, que parece um termo eticamente atraente, pode ser uma palavra injusta, já que quem tolera se pode sobrepor, verticalmente, ao que é tolerado, em presunção de superioridade. A tolerância não é mais do que uma virtude passiva se não aceitar o outro e a diferença. Na democracia dialógica as relações são ordenadas pelo diálogo e não pela posição. À cultura da tolerância, onde muitas vezes a ética se confunde com egocentrismo disfarçado, penso que devemos contrapor a cultura da diferença e da diversidade, altruísta, policêntrica e horizontal, esta sim, uma virtude activa. A diferença sou eu próprio, a diferença é cada um de nós. Também não sou a favor do consenso pelo consenso, quando este significa o acordo acima de tudo, a subalternização da diferença, o patamar acima das consciências, a posição acomodatícia, a hipocrisia, a cobardia, o marasmo, a desistência, a segurança dos inseguros. Exigir o consenso pode significar não deixar o outro falar, fechar o espaço para o diferente, acabar com o diálogo onde ele devia começar. Nas entranhas do consenso pode a liberdade exalar o seu último suspiro.