Teoria e Política Económica: os grandes confrontos de ontem, hoje e amanhã, também – uma homenagem ao Joaquim Feio — Capítulo 1 — Parte C: Texto 5 – A Teoria Marxiana do Neo-Valor e do Sobretrabalho. Uma Integração das Equações de Preço de Sraffa na Circulação Monetária Capitalista (1/3) , por Stefano Perri e Gianmarco Oro

Reflexos de uma trajetória intelectual conjunta ao longo de décadas – uma homenagem ao Joaquim Feio

 

Capítulo 1 – Dos Clássicos a Sraffa, de Sraffa aos neo-ricardianos

 

Nota de editor: devido à extensão e nível de abstração deste texto, o mesmo será publicado em três partes. Hoje a primeira.

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

16 min de leitura

Parte C: Texto 5 – A Teoria Marxiana do Neo-Valor e do Sobretrabalho. Uma Integração das Equações de Preço de Sraffa na Circulação Monetária Capitalista (1/3)

Por Stefano Perri e  Gianmarco Oro

Publicado por Social Science Research Net em 11 de Dezembro de 2022 (original aqui)

 

 

 

Neste artigo, mostramos que os preços de Sraffa são coerentes com a análise de Marx sobre a forma de circulação do capital (Moeda-Mercadorias-Moeda) e com a sua teoria da criação do valor adicional criado pelo trabalho no processo de produção. De modo contrário, de acordo com muitos estudiosos neo-ricardianos e marxistas, a teoria do valor de Marx e a teoria dos preços de Sraffa são incompatíveis. Neste contexto, desenvolvemos a nossa interpretação da teoria do valor adicional criado de Marx com base na chamada “Nova Interpretação” de Foley, Duménil e Lipietz. Em primeiro lugar, Marx analisa a divisão do trabalho social agregado na produção de várias mercadorias. O trabalho vivo é o único fator que ainda não é um valor e que entra no processo de produção. Cria assim um novo valor. O valor da moeda permite-nos somar os dois fatores que entram no processo de produção, os meios de produção e o trabalho vivo. Em segundo lugar, centrando-se na mais-valia, analisa a relação de classe entre os trabalhadores e os proprietários dos meios de produção na sociedade capitalista.

Relativamente à teoria dos preços de Sraffa, a nossa intenção não é reconstruir uma interpretação exaustiva da teoria de Sraffa. O nosso objetivo é, pelo contrário, retraçar o caminho que o leva a acreditar que o trabalho gasto na produção de rendimentos não é uma unidade de medida arbitrária mas natural dos preços. Este caminho começa por reavaliar a teoria marxiana, com base naquilo a que Sraffa chama a sua hipótese sobre a composição do rendimento e dos meios de produção agregados.

Por fim, desenvolvemos a forma de circulação do capital de Marx, incluindo os preços de Sraffa.

 

Introdução

Neste artigo, mostramos que os preços de Sraffa são consistentes com a análise de Marx sobre a forma de circulação do capital (Dinheiro-Mercadorias-Dinheiro- referida como D-M-D) e com a sua teoria da criação do valor adicional criado pelo trabalho no processo de produção. De modo contrário, de acordo com muitos estudiosos neo-ricardianos e marxistas, a teoria do valor de Marx e a teoria dos preços de Sraffa são incompatíveis.

Por um lado, segundo Ian Steedman, as condições de produção e o salário real são suficientes para determinar os preços e a taxa de lucro. Assim, as quantidades de trabalho incorporadas nas mercadorias não desempenham qualquer papel essencial na determinação da taxa de lucro e, menos importante, dos preços de produção (Steedman 1977, p. 14, ver também pp. 48-49).

As conclusões de Steedman são substancialmente as mesmas a que Paul Samuelson chegou anteriormente. A teoria do valor do trabalho, enquanto teoria dos preços, é um desvio inútil (Samuelson 1971, p. 400; ver também Samuelson 1974, pp. 63-64). Os neo-ricardianos identificam a macro-teoria do valor de Marx com a micro-teoria dos preços de produção. Como veremos, o pensamento de Marx discorda desta interpretação, identificada com o erro de Ricardo. Além disso, Sraffa sustenta que a determinação por Marx da taxa geral de lucro a partir da taxa de mais-valia é uma boa aproximação no sistema real e é rigorosa no sistema padrão (D3.12.111: 132. 4/2/1961).

Garegnani (1984, 2018) não acredita certamente que a teoria do valor do trabalho tenha sido um desvio. No entanto, foi um passo necessário, ainda que imperfeito, em relação à teoria “aditiva” do valor de Smith, que determinava os preços como a soma de salários, lucros e rendas. No entanto, segundo o autor, a teoria do valor do trabalho é ultrapassada pela teoria rigorosa dos preços de Sraffa. Analiticamente, há uma continuidade entre as teorias de Ricardo, Marx e Sraffa, que abordam os mesmos problemas. No entanto, mesmo Garegnani limita o papel da teoria do valor ao aspeto micro da determinação dos preços relativos e à demonstração da relação inversamente proporcional entre o salário e a taxa de lucro. No entanto, o mesmo conceito de excedente físico só pode ser formulado numa dimensão macro, olhando para a produção agregada em todas as indústrias. A questão é saber se é possível medir o valor do produto líquido agregado, independentemente da sua distribuição.

Por outro lado, segundo Moseley, a teoria de Marx é, antes de mais, uma macro-teoria do circuito do capital monetário. Assim, o capital monetário investido é considerado como dado inicial (Moseley 2016, p. 4). Pelo contrário, “a teoria de Sraffa consiste em equações simultâneas baseadas em […] quantidades entradas (os consumos intermédios no processo de produção) e as quantidades finais produzidas -ditas entradas e saídas ” (ibid., p. 13).

No entanto, na construção do modelo de circulação monetária, é preciso explicar como é que o capital monetário inicial se troca com os meios de produção e a força de trabalho. Moseley considera os preços relativos das mercadorias de entrada como dados no início do circuito, mas determina-os no seu final. No entanto, o raciocínio é circular porque é necessário determinar simultaneamente os preços das entradas e das saídas.

No que se segue, interpretamos ou reformulamos a teoria do valor de Marx como uma teoria do valor adicional criado pelo trabalho vivo empregue no processo de produção. Neste contexto, concordamos com a chamada Nova Interpretação ou Teoria do Valor do Preço do Produto Líquido-Poder de Compra Não Atribuído ao Trabalho (PPL-PCNAT) de Foley e Duménil [1]. A Nova Interpretação, por um lado, e Sraffa, por outro, não seguem o mesmo caminho para chegar às suas conclusões. No entanto, a Nova Interpretação e Sraffa determinam ou medem o valor do produto líquido agregado como o trabalho vivo empregado no sistema económico. Uma vez que a unidade de medida dos preços é o trabalho empregue para produzir o valor acrescentado ou rendimento social, a teoria da circulação monetária capitalista de Marx e a teoria dos preços de Sraffa são compatíveis.

Na segunda parte deste artigo, desenvolvemos a nossa interpretação da teoria do valor acrescentado de Marx, referido como novo valor. Em primeiro lugar, analisamos a divisão do trabalho social agregado na produção de várias mercadorias. Neste contexto, o trabalho social vivo agregado determina o valor do produto líquido. Ao mesmo tempo, numa economia de mercado, as relações de troca de mercadorias medeiam as relações dos produtores. Em segundo lugar, centrando-nos na mais-valia, analisamos a relação de classe entre os trabalhadores e os proprietários dos meios de produção na sociedade capitalista. Neste contexto, Marx assinala a diferença fundamental entre capital constante e capital variável. O capital constante representa os meios de produção que entram no processo de produção com um valor de troca já estabelecido. Pelo contrário, o capital variável representa as mercadorias assalariadas. Os trabalhadores consomem-nas nas suas casas. Não entram no processo de produção. Assim, os “fatores” que entram no processo produtivo são os meios de produção e a atividade laboral. O valor do produto agregado deve refletir estes dois fatores. A quantidade agregada de trabalho vivo empregue mede o novo valor, ou seja, o valor do produto líquido. Ao questionar o “valor da moeda”, a Nova Interpretação mostra que é possível somar os dois fatores de produção.

Na terceira parte, centramo-nos na “unidade de medida verdadeiramente natural” de Sraffa, que “é a quantidade anual de trabalho, ou o que é o mesmo, o rendimento social” (D3/12/40: 41). O nosso objetivo não é reconstruir uma interpretação exaustiva da teoria de Sraffa. O nosso objetivo é refazer o caminho que o leva a acreditar que o trabalho despendido na produção de rendimentos não é uma unidade de medida arbitrária mas natural dos preços. Este percurso começa por reavaliar a teoria marxiana, com base naquilo a que Sraffa chama a sua hipótese sobre a composição do rendimento e dos meios de produção agregados. Posteriormente, Sraffa concentra-se na construção do sistema padrão. As conclusões analíticas de Sraffa sobre a unidade de medida verdadeiramente natural dos preços são semelhantes às conclusões da Nova Interpretação e permitem-nos inserir os preços de Sraffa no circuito monetário de Marx. A seguir, desenvolvemos um modelo marxiano-sraffiano da circulação monetária capitalista, expandindo a forma de circulação D-M-D ′ (Dinheiro-Mercadoria-Dinheiro). Ao mesmo tempo, o consumo de bens de subsistência pelos trabalhadores tem lugar dentro da forma simples de circulação M-D-M (Mercadoria-Dinheiro-Mercadoria).

 

2. Capital variável, força de trabalho, atividade laboral e a teoria do “neo-valor” de Marx.

Para compreender a interpretação da teoria de Marx aqui desenvolvida, convém começar por uma carta de Marx a Kugelmann [2], datada de 11 de Julho de 1868:

A conversa sobre a necessidade de provar o conceito de valor resulta apenas de uma completa ignorância tanto do assunto em discussão como do método da ciência. Todas as crianças sabem que qualquer nação que deixasse de trabalhar, não durante um ano, mas, digamos, apenas durante algumas semanas, pereceria. E todas as crianças sabem, também, que as quantidades de produtos correspondentes às diferentes quantidades de necessidades exigem quantidades diferentes e quantitativamente determinadas do trabalho agregado da sociedade. É evidente que esta necessidade de distribuição do trabalho social em proporções específicas não é certamente abolida pela forma específica de produção social; apenas pode mudar a sua forma de manifestação. As leis naturais não podem ser abolidas de todo. A única coisa que pode mudar, sob condições historicamente diferentes, é a forma com que essas leis se afirmam. E a forma como esta distribuição proporcional do trabalho se afirma num estado de sociedade em que a interligação do trabalho social se exprime é exatamente como troca privada dos produtos individuais do trabalho, e é aí que a ciência entra para mostrar como a lei do valor se afirma. Assim, se se quisesse “explicar” desde o início todos os fenómenos que aparentemente contradizem a lei, seria necessário fornecer a ciência antes da própria ciência. É precisamente o erro de Ricardo em que, no seu primeiro capítulo, sobre o valor, toda a espécie de categorias a que ainda é preciso chegar são assumidas como dadas, a fim de provar a sua harmonia com a lei do valor (Marx 1988b, p. 68-69).

A “lei natural” afirma que o trabalho social agregado da sociedade deve distribuir-se em proporções específicas na produção dos bens necessários à satisfação das necessidades humanas. A forma como esta lei se manifesta muda nos diferentes modos de produção [3]. Numa economia de mercado capitalista, a interligação necessária entre as várias parcelas do trabalho social exprime-se através da troca dos produtos do trabalho privado e dos valores de troca das mercadorias daí resultantes. Como afirma Marx, a circulação generalizada de mercadorias no capitalismo

pressupõe uma divisão do trabalho desenvolvida, uma divisão do trabalho entendida aqui na forma em que se manifesta (aparece) na multiplicidade de mercadorias em circulação, portanto como uma divisão da totalidade, de todo o trabalho social, em múltiplos modos de trabalho, portanto uma totalidade de modos de trabalho específicos (Marx 1988a, p. 55, itálicos nossos).

A teoria do valor de Marx procura reconstruir o carácter social do trabalho privado numa economia de mercado. Através da troca de mercadorias, o trabalho privado (individual) revela o seu carácter social. Neste sentido, Marx fala de fetichismo da mercadoria: as coisas parecem adquirir uma natureza social [4]. O trabalho privado é uma articulação do trabalho social. Assim, o valor tem uma dimensão macro: o ponto de partida é o trabalho social, que é depois distribuído pelo trabalho dedicado à produção das várias mercadorias.

A grandeza de valor exprime uma relação de produção social, exprime a ligação que existe necessariamente entre um determinado artigo e a parte do tempo de trabalho total da sociedade necessária para o produzir. (Marx, 1996, pp.111-112)

O tempo total de trabalho que a sociedade pode dividir entre as várias indústrias refere-se ao trabalho vivo. Neste caso, a produção social é o produto líquido.

Além disso, uma relação de troca específica define o capitalismo: a troca entre bens salariais e força de trabalho. Os capitalistas, os proprietários do capital monetário, iniciam o processo de produção para aumentar o valor do seu capital monetário, obtendo lucro. O processo de circulação capitalista é D-M-D ′, que tem a sua razão de ser quando D’>D. A relação de classe entre capitalistas e trabalhadores manifesta-se como uma relação de troca de mercado, como uma troca entre salários e força de trabalho. O valor da força de trabalho é apenas uma parte do novo valor produzido, e os capitalistas podem obter uma mais-valia, que constitui os seus lucros. De facto, no processo de produção, a mercadoria força de trabalho traduz-se em atividade laboral, que dá origem ao processo de criação de novo valor. Por conseguinte, a teoria do valor de Marx centra-se em dois aspectos gerais e fundamentais da forma socioeconómica capitalista: a divisão do trabalho mediada pela troca de mercadorias e a relação entre a classe dos capitalistas e a dos trabalhadores.

No entanto, é necessário coordenar a forma geral que a lei natural assume no capitalismo com a articulação complexa desta forma socioeconómica. Em primeiro lugar, a diferente composição orgânica do capital faz com que os preços sejam diferentes dos valores. A concorrência tende a igualar as taxas de lucro nos diversos sectores. Como a parte do novo valor criado que resulta em mais-valia é depois distribuída pelos diferentes sectores na proporção do capital investido, os preços de produção divergem dos valores determinados pela quantidade de trabalho incorporado. Em segundo lugar, os meios de produção utilizados no período de produção atual são produzidos em períodos anteriores e comprados pelo capital monetário no mercado aos seus preços de produção e não aos seus valores [5].

O problema científico, segundo Marx, é mostrar a ligação entre o macro-valor baseado na divisão social do trabalho e os micro-preços de produção determinados pela concorrência. Na perspetiva marxiana, é necessário mostrar como os preços num mercado competitivo só aparentemente contradizem a lei.

A teoria do valor de Marx começa por igualar o novo valor acrescentado agregado ao trabalho social agregado (e socialmente necessário). Os preços das mercadorias, embora de forma complexa, refletem a divisão do trabalho social. Neste quadro, a nova abordagem interpretativa da [teoria valor trabalho] mostra a ligação entre o novo valor criado e o trabalho social. Vê a teoria valor trabalho de Marx

como a afirmação de que o valor monetário de toda a massa da produção líquida de mercadorias exprime a despesa do trabalho social total numa economia produtora de mercadorias (de que as economias capitalistas são o caso principal e altamente desenvolvido) (Foley 1982, p. 37).

A segunda conclusão relevante da abordagem da Teoria do Valor do Preço do Produto Líquido-Poder de Compra Não Atribuído do Trabalho (PPL-PCNAT) é que “a interpretação do valor da força de trabalho como sendo o salário monetário multiplicado pelo valor do dinheiro implica que o valor da força de trabalho é igual em magnitude à parte dos salários no valor acrescentado agregado” (Foley 1983, p. 42). O valor da moeda é o rácio entre o trabalho vivo agregado despendido na produção e o valor acrescentado em dinheiro. Como afirma Marx, os trabalhadores adquirem “sob o título de salário uma parte do valor criado por […] eles próprios e, portanto, uma parte do produto social medido por essa parte de valor” (Marx 1998, p. 809).

Como já vimos, Marx descreve o processo de circuito do capital através da expressão D-M-D′. O montante inicial de capital monetário compra os meios de produção (capital constante) e paga os salários monetários (capital variável). Marx chama à mais-valia o acréscimo do valor monetário inicial. No entanto, Marx estabelece uma distinção clara entre capital constante e variável. Por um lado, os meios de produção, ou seja, o capital constante, entram no processo de acordo com os valores de uso das mercadorias que são os consumos intermediários (as entradas na matriz de Leontief (ferro, carvão, etc.). Estas mercadorias já têm um valor de troca que é o seu preço. Representa o resultado da produção passada, monetizado no processo de valorização anterior.

Por outro lado, o valor do capital variável (o agregado dos salários monetários) não entra diretamente no processo de produção porque desdobra o seu valor de uso na circulação através da compra de mercadorias ditas salariais. Este valor monetário é substituído na produção pelo trabalho vivo, que é o valor de uso efetivo da força de trabalho. A relação de troca entre força de trabalho e bens de subsistência apenas “promove o consumo individual do trabalhador” (Marx 1997, p. 168).

A força de trabalho é a única mercadoria cujo valor de troca é criado não na produção, mas na circulação (ou seja, através da troca entre a força de trabalho e aos bens salariais que já têm um valor de troca). Como diz Marx, o capital variável “não representa senão os meios de subsistência disponíveis no mercado” (Marx 1994, p. 392).

A reprodução dos trabalhadores não faz parte de um processo produtivo. Nenhum sector produz força de trabalho que empregue trabalho vivo [6].

Além disso, a força de trabalho é a única mercadoria cujo valor de uso cria um novo valor [7]. A distinção clara entre o valor (valor de troca) da força de trabalho e o trabalho vivo (valor de uso) é apenas o ponto de partida de Marx: “o trabalho em si não pode ter qualquer valor” (Marx 1997, p. 36 [8]). A utilização da atividade humana no processo de produção é o objetivo final desta troca. A origem do novo valor monetário criado tem de ser encontrada na transação do dinheiro contra a força de trabalho, cujo valor de uso no processo de produção é a própria atividade laboral.

A criação de mais-valia […] não tem a sua fonte nem na forma monetária dos salários, nem na forma dos salários pagos em géneros, nem no capital investido na compra de força de trabalho. Ela surge da troca de valor por força criadora de valor, da conversão de uma constante numa magnitude variável (Marx 1997, p. 222).

Pelo contrário, como Marx sublinha, “os meios de produção passam da circulação para o processo de trabalho como mercadorias particulares, por exemplo, como algodão, carvão, fusos, etc.” (Marx 1994, p. 392). Assim, a reconversão desta parte do produto total em capital substitui o seu valor de troca e o seu valor de uso, a sua “forma material” (Marx 1997, p. 393)[9].

No entanto, é preciso lembrar que “o proprietário do dinheiro comprou-os como mercadorias antes de iniciar o processo de trabalho, em quantidades determinadas e a preços específicos. Os seus preços estão pressupostos (Marx 1988, pp. 73-74, sublinhado nosso). A determinação dos seus preços de produção já ocorreu antes da sua compra. Por outro lado, a parte do dinheiro gasta como capital variável representa os meios de subsistência disponíveis no mercado, que entram no consumo dos trabalhadores. Assim, a conversão do salário em dinheiro em meios de subsistência

e o consumo destas mercadorias como valores de uso é um processo que não tem relação direta com o processo direto de produção, mais precisamente com o processo de trabalho, situa-se sim fora deste último (Marx, 1994, p. 392)[10].

Por esta razão:

a forma de valor de uso que essa parte do capital tem como mercadoria antes da sua entrada no processo de produção – como meio de subsistência – é, portanto, inteiramente diferente da forma que assume no interior desse processo, que é a de força de trabalho que se exprime na atividade de trabalho, portanto, de trabalho vivo propriamente dito (Marx 1994, p. 393).

Por isso, ao comentar o livro do economista pós-ricardiano George Ramsay [11], Marx afirma que “o que é realmente gasto na produção de uma mercadoria são as matérias-primas, a maquinaria, etc., e o trabalho vivo que as põe em movimento” (Marx 1991, p. 256). Significativamente, a troca entre força de trabalho, salários em dinheiro e bens de subsistência e o seu consumo pelos trabalhadores ocorre, segundo Marx, sob a forma de circulação simples de mercadorias M-D-M e não sob a forma de circulação capitalista D-M-D.

O trabalhador gasta o dinheiro […] obtido gradualmente numa série de mercadorias necessárias à satisfação das suas necessidades, em artigos de consumo. A circulação completa da sua mercadoria aparece, portanto, como FT (Força de Trabalho) -D-M, isto é, primeiro como FT -D= M-D e depois como D-M; portanto, na forma geral da circulação simples de mercadorias, M-D-M (Marx 1997, p. 35, itálico nosso).

Marx analisa dois aspetos distintos do processo capitalista. Por um lado, o processo de trabalho capitalista, “para além do trabalho […] não pressupõe mais do que o material e os meios de trabalho” (Marx 1997, p. 412). Os meios de produção representam um determinado valor, criado num processo produtivo anterior, “não é produzido de novo, não é efetivamente reproduzido, mas apenas conservado no valor do produto” (Marx 1997, p. 220).

Por outro lado, na valorização do capital, os salários já não são considerados como rendimento dos trabalhadores, mas como parte dos custos de produção capitalistas. Por conseguinte, a mais-valia é apenas uma parte do novo valor. Nesta perspetiva, o valor da força de trabalho resulta da troca com o capital variável, que representa o valor dos bens de subsistência já produzidos.[12]

Ramsay distingue entre a análise microeconómica, em que os salários são adiantados, isto é, pagos no início do processo económico, e a macroeconómica, em que os salários fazem parte do rendimento produzido. Marx afirma que, na realidade, a distinção desaparece se olharmos para o processo na sua continuidade.

O capitalista paga sempre com a mercadoria acabada, isto é, com a mercadoria acabada pelo trabalhador ontem paga-lhe o salário amanhã, ou, de facto, dá-lhe, sob a forma de salário, apenas uma cessão de produtos a serem acabados no futuro ou quase produzidos (isto é, finalmente produzidos) no momento em que são comprados. O ADIANTAMENTO desaparece como uma mera ilusão na reprodução, isto é, na CONTINUIDADE DO PROCESSO DE PRODUÇÃO (Marx, 1991, p. 265, comentando Ramsay, 1836, p. 146).

Neste quadro, ao nível agregado, o problema é encontrar uma medida comum dos meios de produção e da atividade laboral: o valor da produção agregada total é a soma das duas componentes do processo produtivo. Neste contexto, Marx defende que os reais custos sociais de produção são a soma do valor dos meios de produção e do trabalho vivo. Os custos de produção do ponto de vista do capital não são os custos de produção reais, porque precisamente o trabalho excedente não lhe custa nada [13]” (Marx 1987, p. 144, itálico nosso). No entanto, segundo Marx, a atividade laboral não tem um valor monetário. Assim, o valor dos meios de produção deve ser medido em termos de trabalho. Isto não implica necessariamente que o valor do capital constante seja igual ao trabalho incorporado nos meios de produção.

Como corretamente demonstrado pela Nova Interpretação, é possível definir o valor do dinheiro µ como o rácio entre o trabalho vivo agregado despendido na produção (L) e o valor acrescentado em dinheiro (o valor monetário do rendimento líquido: µ = (L/Y)). Multiplicando o valor monetário do capital constante pelo valor do dinheiro, µ, podemos medir o valor dos meios de produção em termos de trabalho, e podemos somar os elementos que entram no processo produtivo para definir o valor do produto bruto. Chamando PB ao valor monetário agregado do produto, MP ao valor monetário dos meios de produção e Y ao valor monetário acrescentado também dito ou produto líquido, escrevemos:

MP + Y = PB                            (1)

Multiplicando pelo valor da moeda, obtemos:

µ MP+L = µPB                        (2)

O valor acrescentado é agora expresso em termos do trabalho vivo empregue no processo de produção.

Na dimensão-macro do valor, a definição do valor do dinheiro é necessária para somar os elementos que entram no processo de produção e definir o valor do produto bruto [14] . É imediatamente evidente que o valor criado de novo é equivalente ao trabalho vivo empregue [15].

µ (PB-MP)  = L               (2b)

Como corretamente salientado por Moseley (2000, 2015), é necessária uma análise formal do circuito monetário de Marx para captar a sua visão do processo capitalista e a sua teoria do novo valor e da mais-valia. Como afirma Marx: “O circuito D-M-Pp-M’-D’ é, na sua forma expandida expresso por D-M (FT+MP) – pP- (M+m)  … (D+d) [16]. As várias formas de capital são representadas em termos monetários. Ainda assim, o capital constante é composto por quantidades de mercadorias que entram no processo de produção pelo seu valor de uso (Marx 1997, p. 45) [17].

Neste contexto, é útil descrever o comentário de Marx sobre o livro de George Ramsay: “Ramsay descreve corretamente o processo de reprodução real” (Marx 1991, p. 264). Marx cita este parágrafo do livro de Ramsay:

De que forma se deve estabelecer uma comparação entre o produto e os meios necessários para o produzir […] No que diz respeito a toda uma nação […] é evidente que todos os vários elementos que nessa produção foram gastos devem ser reproduzidos num emprego ou noutro, caso contrário a indústria do país não poderia continuar ao nível que estava a antes.  A matéria-prima das manufaturas, os utensílios nelas utilizados, como também na agricultura, a maquinaria extensiva utilizada nas primeiras, os edifícios necessários para fabricar ou armazenar os produtos, devem todos fazer parte do rendimento total de um país, bem como dos adiantamentos de todos os seus mestres-capitalistas. Por conseguinte, a quantidade produzida deve ser comparada com a quantidade consumida na produção, supondo-se que cada artigo é colocado, por assim dizer, ao lado de outro de género semelhante (Ramsay 1836, pp. 137-139, sublinhado nosso).

Existe uma semelhança notável com a definição de Sraffa do produto nacional num estado de reprodução simples ou de auto-reprodução (Sraffa 1960, p. 11).

Marx acrescenta que a comparação, mesmo a nível agregado, pode ser feita tanto em termos físicos como em termos de valor: “os dois métodos de abordagem diferem um do outro apenas pelo facto de um se agarrar e isolar o valor de uso, o outro o valor de troca” (Ibid). Os dois métodos analisam dois aspetos da mesma realidade capitalista intimamente relacionados.

(continua)


Notas

[1] Foley and Duménil (2008, p. 7). Cf. Gérard Duménil (1980, 1983, 1984), Duncan Foley (1982), Alain Lipietz (1982). Foley and Duménil chamam à sua abordagem Preço do Produto Líquido -Poder de Compra não Atribuido ao Trabalho (PPL- PCNAT).

[2] Ludvig Kugelmann era médico, membro da Associação Internacional dos Trabalhadores e do Partido Social-Democrata Alemão.

[3] Ver Rosdolsky (1977, pp. 10-12, 41,52, 68, 556).

[4] Marx (1996, pp. 81-94).

[5] Ver Marx (1998, pp. 160-164).

[6] Marx distingue entre o consumo individual de bens de subsistência e o consumo produtivo de meios de produção (Marx 1996, p. 571).

[7] Sobre este ponto veja-se Rosdolsky (1977, p. 84)

[8] N.T. Na edição francesa (Editions Sociales, Livro I, vol II, pag. 208 lê-se: “O trabalho é a substância e a medida inerente dos valores mas ele próprio não tem nenhum valor”

[9] See Rosdolsky (1977, p. 86).

[10] Veja-se também Marx (1997, p. 380).

[11] Sobre o economista pós-ricardiano George Ramsay, um pouco negligenciado, ver Prybyla (1963). Marx atribuiu a Ramsay o mérito de ter sido o primeiro economista a compreender a diferença entre capital constante e variável. Ver Ramirez (2021).

[12] Ver Marx, 1997, p. 411. Marx distingue entre o processo de criação de valor e o processo de criação de mais-valia: de mercadorias; considerado, por outro lado, como a unidade do processo de trabalho e do processo de produção de mais-valia, é o processo de produção capitalista, ou produção capitalista de mercadorias (Marx 1996, pp 207-208).

[13] Por exemplo, Marx, ao analisar a produção de uma única mercadoria, o fio, afirma que: “o valor do fio é igual à soma do novo valor criado durante a produção desse fio mais o valor previamente existente nos meios de produção” (Marx 1996, p. 231).

[14] Na dimensão micro da determinação dos preços relativos, a Nova Interpretação parece escolher uma medida arbitrária de preços e “cair num nominalismo estéril” (ver Petri 2015, p.7). Do ponto de vista macro, esta escolha é necessária para medir o custo social objectivo de toda a produção como a soma do capital (constante) e do trabalho.

[15] Embora possa parecer que as equações implicam que apenas o capital circulante é utilizado no sistema económico, é fácil interpretar os MP como a soma da depreciação e dos materiais utilizados no sector produtivo, ver Shaikh e Tonak (1994, p. 175).

[16] Marx chamou a L o valor da força de trabalho. Para distinguir o valor da força de trabalho do trabalho vivo, a força de trabalho é aqui designada por LP, enquanto o trabalho vivo é designado por L enquanto c é o produto excedente e m o excedente monetário.

[17] Em várias passagens, Marx sublinha a importância do lado “físico” das relações expressas no circuito. Afirma que tem de haver uma “relação quantitativa precisa entre L, a parte do dinheiro gasta em força de trabalho, e MP, a parte gasta em meios de produção […] A quantidade de meios de produção tem de ser suficiente para absorver a quantidade de trabalho, para ser transformada por ele em produtos. (Marx, 1997, p. 33).

 


Os autores

Stefano Perri é professor ordinario de história do pensamento económico desde 2000 e de economia política desde 2004 na universidade de Macerata (Itália). É professor de microeconomia e desenvolvimento económico e distribuição do rendimento. Ensinou na universidade de Teramo e realizou atividades de investigação na universidade de Glasgow. Principais campos de investigação: história do pensamento económico italiano entre 800 e 900, os economistas clássicos e Marx. Sobre as suas publicações ver aqui.

Gianmarco Oro é professor contratado na universidade de Macerata (Itália). É licenciado em Economia pela universodade de Macerata e doutorado em Métodos Quantitativos para Avaliação de Políticas pela mesma universidade. Sobre as suas publicações ver aqui.

 

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