Seleção e tradução de Francisco Tavares
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As forças armadas de Israel infiltram-se nas nossas casas
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nº 343, mayo de 2024
Israel dispõe de uma vasta rede de embaixadores e propagandistas de todo o tipo para defender os seus interesses, impor o seu discurso e silenciar os seus críticos, apresentando-se a maior parte das vezes como vítima dos seus inimigos árabes. A sua estratégia é tanto mais eficaz quanto Telavive goza da simpatia de numerosos meios de comunicação ocidentais.
“Não tem vergonha”. Só recentemente, ao ver as notícias na véspera do ano novo de 2024, tivemos ocasião de reparar, em toda a sua plenitude, no indivíduo que encarna esta tão expressiva descrição. A noite está escura, os foguetes deixam estrelas brancas no céu, e este homem não pode ocultar a sua indignação: “Aos que perguntam porque razão Israel deve eliminar o Hamas, têm aqui a resposta: os terroristas do Hamas bombardeiam indiscriminadamente as cidades israelitas à meia-noite, precisamente quando começa o novo ano. Israel deve eliminar esta ameaça de uma vez por todas!” Não teve que lamentar nenhuma vítima israelita, mas em 31 de dezembro, e após o dia de ano novo, e o dia seguinte, os bombardeamentos sobre Gaza continuaram e causaram 100, 200 e até 300 vítimas mortais diárias. Dias mais tarde seria superada a cifra de 22.000 palestinianos “neutralizados”, dos quais pelo menos 30% eram crianças. E alguns dias antes, sem dúvida a título de bónus, um bombardeamento israelita sobre o campo de refugiados de Maghazi custou a vida a 100 pessoas, coisa que deixou impávido este indivíduo.
Olivier Rafowicz, coronel na reserva do exército israelita, nascido em França, foi representante da Agência judaica – encarregada de ajudar os judeus franceses desejosos de emigrar para Israel – e desde o 7 de outubro [de 2023] é um dos porta-vozes francófonos das Forças de Defesa de Israel (Tsáhal), uma tarefa que também desempenhou em anteriores guerras contra Gaza. Em 2015 juntou-se ao partido Israel Beitenu (literalmente, ‘Israel é a nossa casa’) de Avigdor Liebermann, precisamente quando este – então ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel – estudava um plano para “transferir” a parte dos palestinianos com cidadania israelita para fora das fronteiras do país: um crime, segundo o direito internacional. O seu posicionamento na extrema-direita, onde a concorrência é feroz, não o impede estabelecer relações de amizade nos meios dirigentes e mediáticos franceses.
Anda à vontade, sem necessidade de autorização, pelos estúdios de televisão e rádio, onde se exibe sem receio de que lhe façam perguntas incómodas. Também aproveita a rede de contactos da sua esposa, Roxane Rouas-Rafowicz, membro do comité executivo da patronal Movimento de Empresas de França (Medef) e diretora da produtora audiovisual StudioFact Media Group, que trabalha com a televisão pública France Télévisions, a cadeia LCP e a Radio Televisão Belga da comunidade francesa (RTBF). O mais incrível é que no outono produziu um documentário intitulado “Hamas: sangue e armas”, que foi emitido em 24 de outubro no programa Complément d’enquete da televisão pública France 2, com o fim de defender, é claro, a posição de Israel, da qual o seu marido é porta-voz. Estas revelações, publicadas pelo jornalista Jacques-Marie Bourget no seu blog [1] não causaram o menor sobressalto no mundinho mediático de Paris. Em 2022, o Le Parisien entrou no capital de StudioFact com uma participação de 30%. Como observa o observatório de meios de comunicação Acrimed, a cobertura da guerra em Gaza a cargo deste jornal é totalmente desequilibrada: “entre 8 de outubro e 20 de dezembro a palavra ‘bombardeamento’ não apareceu em nenhuma das 74 primeiras páginas. Presente em 18 grandes titulares e 19 manchetes, a guerra no Médio Oriente ocupou, no entanto, um lugar importante”. O observatório assinala que o jornal apenas veicula “um ponto de vista: o modo como o governo israelita vê Gaza e a apresenta ao resto mundo. Em mais de dois meses, o primeiro titular do Le Parisien não apresentou nem um só rosto de um civil palestiniano. Nem um” [2].
Telavive, virtuoso da propaganda
“A mentira é apenas um vício quando opera o mal; quando opera o bem é uma grande virtude. […] É necessário mentir como um demónio, sem timidez e não no momento, mas sim intrepidamente e para sempre. Menti, meus amigos, menti, que vos pagarei quando chegue a ocasião”, afirmou em tempos Voltaire. Esse poderia ser o mantra de todos os comandantes militares, em qualquer parte do mundo. Mas Israel levou a aplicação desta máxima ao nível de uma arte inigualada nos chamados “países democráticos”, com a convicção solidamente enraizada de ser o equivalente do direito justo, a retidão e a mentira que “opera o bem”. E com uma vantagem de que carecem os demais Estados, a saber: que os responsáveis e os meios de comunicação pensam sempre, a priori, que Israel diz a verdade, Rafowicz profere falsidades de forma descarada com a segurança de que raramente o contradigam; assim, recuperou os contos sobre o estripamento de uma mulher grávida ou sobre as crianças israelitas enjauladas [3], e negou, contra todas as evidências, que o exército israelita fosse responsável pelas mortes que se produziram no chamado “massacre da farinha” [4], em 29 de fevereiro passado, no qual mais de cem civis foram assassinados a tiro. Não obstante, apesar das suas patentes mentiras, continua a ter a generosa e complacente atenção de um bom número de meios de comunicação franceses, que somente muito de vez em quando questionam as suas palavras. Porque haveria ele de privar-se dessa tribuna?
Rafowicz dispões de uma jogada ganhadora: o inenarrável Bernard-Henri Lévy (BHL): “Em praticamente todas as crises de envergadura internacional em que Israel enfrentou os seus vizinhos, BHL uniu-se comigo e esteve presente no terreno” [5]. BHL é o homem que cobriu as guerras contra Gaza empoleirado na torre de um tanque ou num gabinete do Alto Comando israelita, sempre “integrado” no exército de Israel. Nunca viu nada: nenhum crime, nenhuma violação do direito internacional. Para justificar o seu apoio a Israel esgrime um contundente argumento: o seu exército é “o mais moral do mundo”. A idêntica retórica e idênticos sofismas recorreram no Le Figaro, em 7 de outubro de 1960, os partidários do exército francês na Argélia – Pierre Channu, Henry de Monfreid, Roger Nimier, Jules Romains, Antoine Blondin, Roland Dorgelès, Jean Paulhan e alguns outros nomes (nessa época) prestigiados-, que acusavam a Frente de Libertação Nacional (FLN) argelina e os seus aliados franceses em termos semelhantes que bem poderiam, mutatis mutandis, aplicar-se hoje à Palestina: “É uma farsa dizer ou escrever que a França combate contra um povo argelino que se levantou para defender a sua independência. A guerra na Argélia é uma luta a que a França se viu condenada por uma minoria de rebeldes fanáticos, terroristas e racistas dirigidos por líderes armados e financiados pelo estrangeiro”.
Israel foi sempre um virtuoso da hasbara, a propaganda, apresentando-se como vítima dos malvados árabes e propagando notícias falsas que só serão desmentidas [tarde] depois de terem tido um efeito em parte irreversível. Assim, o jornal France-Soir, baseando-se num comunicado vindo de Telavive, anunciou ás primeiras horas do dia 5 de junho de 1967 que o Egipto tinha atacado Israel (embora o que sucedeu foi o contrário). Mais recentemente, quando em 11 de maio de 2022 a jornalista Shireen Abu Akleh foi assassinada em Yenín, nos territórios ocupados, a princípio o exército israelita explicou que sem dúvida tinha sido assassinada por “terroristas” – uma vez que se viu envolvida num tiroteio com “terroristas” – antes de reconhecer que um soldado israelita disparou cinco vezes na direção da vítima… mas sem apontar! Várias investigações, uma delas da cadeia CNN, chegaram à conclusão de que muito provavelmente o seu assassinato foi premeditado. Ainda que o seu caso tenha tido uma ressonância excecional, isso deveu-se à sua nacionalidade estado-unidense e à sua fama. A maioria das vezes, o relato israelita nunca é questionado, e os que matam civis e jornalistas nos territórios ocupados beneficiam de uma imunidade absoluta. Segundo o Comité para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), em 2023 Israel figurava entre os dez primeiros países em número de jornalistas encarcerados: ao mesmo nível que o Irão [6].
Telavive dispõe, tanto no próprio país como por todo o mundo, de um impressionante número de embaixadores ou propagandistas com mais ou menos talento que falam com fluidez a língua do país onde trabalham, que conhecem os poderes profundos e os meios de comunicação e que transmitem a mensagem – frequentemente mentirosa – do seu governo. Israel conta também com outra jogada: é um país “ocidental” que dispõe a priori de um capital de confiança. Um jornalista da CNN desvenda as consequências deste enviesamento: “Os termos ‘crimes de guerra’ e ’genocídio’ são um assunto tabu. Os bombardeamentos israelitas em Gaza receberam o nome de ‘explosões’ das que ninguém é responsável até que o exército israelita dê o passo de aceitar ou negar a sua responsabilidade. As reuniões e as informações fornecidas pelo exército e pelos representantes do governo têm tendência a serem aprovadas rapidamente, enquanto que as que procedem dos palestinianos têm tendência a ser minuciosamente examinadas etratadas com extrema prudência” [7].
Um sólido consenso mantém unida a sociedade israelita: em substância, “estamos no nosso direito, somente queremos sobreviver frente a estes malvados árabes que querem exterminar-nos.” É preciso entender que o medo dos israelitas é verdadeiro, por mais que esse medo seja instrumentalizado pelos seus dirigentes. Inclusivé antes da guerra, quase nenhum jornalista israelita ia à Cisjordânia – e muito menos a Gaza – quando se produziam ‘choques’, com a exceção de um punhado de jornalistas de Haaretz ou do digital +972. Assim, conformam-se com reproduzir os comunicados do exército e não veem – em sentido literal – o que se passa nos territórios ocupados, da mesma forma que muitos franceses ignoravam o que sucedia na Argélia, salvo quando rebentavam bombas na metrópole ou quando matavam soldados franceses; com a diferença – nada trivial – de que os israelitas coexistem com os palestinianos nas cidades mistas e dispõem das imagens transmitidas pelas redes sociais e, às vezes, pela televisão. Mas decidiram que isso não lhes diz respeito: em fevereiro, 70% dos israelitas opunham-se à entrega de ajuda humanitária à população de Gaza.
Ingerência israelita na imprensa
Por último, contrariamente ao que sucede em outros países ocidentais, em Israel existe uma censura muito estrita, por mais que a adesão generalizada aos objetivos do exército não a torne indispensável. Num artigo, Sebastien Ben Daniel, um universitário israelita, assinalava que os correspondentes militares glorificam continuamente o exército e tomam à letra as declarações do seu porta-voz, o qual “convence erroneamente o público de que tudo vai bem”. Esses jornalistas “frequentemente limitam-se a repetir o que o porta-voz [do exército] lhes diz, eliminando às vezes a atribuição das suas palavras e publicando as suas mensagens como se se tratasse de uma crónica” [8].
Em 23 de dezembro de 2023, o jornal digital The Intercept publicou as diretivas dirigidas à imprensa israelita a propósito da operação Espadas de Hierro, algo de que, tanto quanto sabemos, nenhum meio de comunicação se fez eco. É a primeira vez que se publicam umas instruções deste género para uma guerra em particular, já que a censura é permanente em tudo o que diga respeito a assuntos qualificados como ‘sensíveis’. Entre os quais figuram, muito assinaladamente, os crimes do exército israelita. “As instruções enumeram oito temas sobre os quais os meios de comunicação não podem fazer reportagens sem aprovação prévia do censor militar israelita. Alguns dos temas dizem respeito a questões políticas candentes em Israel e no mundo, tais como as potencialmente comprometedoras revelações sobre aas armas usadas por Israel, o que se discute nas reuniões do gabinete de segurança ou os reféns israelitas em Gaza. […] O memorando também proíbe reportagens sobre os detalhes das operações militares, as operações de inteligência israelitas, os disparos de foguetes sobre locais israelitas sensíveis, os ciberataques e as visitas ao campo de batalha de altos responsáveis militares” [9].
Em França, além do mais, Israel conta com um braço mediático: a cadeia de televisão i24, propriedade de Patrick Drahi. Em caso de crise grave, quando os meios de comunicação enviam a Israel e à Palestina uma multidão de jornalistas que não conhecem a região nem falam árabe, como se informam sobre o que se passa? Pois vendo a cadeia i24! Até adotam o sotaque israelita e pronunciam “Jamais” com uma “j” à espanhola, para se referirem ao Hamas. Mas a influência de Patrick Drahi também se estende à cadeia de televisão BFM, que foi sua propriedade até março de 2024. Uma investigação publicada em 3 de novembro de 2023 na página web Blast explicava como funcionavam as coisas a nível interno: “Quando Drahi nos comprou integralmente – relata um veterano da redação – a cobertura do Médio Oriente, de que era responsável um correspondente, foi transferida para a i24. Aduziu-se o argumento de colocar os recursos em comum mas, de qualquer modo, punha-se a questão da linha editorial. E desde os primeiros dias do atual conflito meteram-nos os especialistas e os correspondentes do i24. Era, simples, prático e problemático” [10].
Os países europeus proibiram o canal Russia Today após a invasão russa da Ucrânia, denunciando uma ingerência estrangeira inaceitável. E, no entanto, Israel é sem dúvida o país que mais se ingere nos assuntos dos Estados europeus, em particular em França… [11], sem que isso alarme as autoridades, como se alarmou no passado o porta-voz do governo francês quando, em 6 de janeiro de 1969, Paris decidiu interromper a entrega de peças de substituição ao exército israelita (equipado de aviões Mirage). O texto tinha sido redactado pelo próprio De Gaulle: “É de destacar, e destacou-se, que a influência israelita se deixa sentir de certa maneira nos meios próximos aos órgãos de informação”. Se, como indivíduo ou como publicação, a si lhe preocupam hoje estas ingerências, saibam que só há uma explicação possível [segundo as autoridades israelitas e seus aliados]: vocês são uns antisemitas.
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Notas
[1] Jacques-Marie Bourget, “Complément d’enquete: le mari blanchit Israel et sa femme noircit le Hamas”, 23 de fevereiro de 2024, https://blogs.mediapart.fr/jacques-marie-bouget
[2] Pauline Perrenot, “D’Israel à Gaza (4): à la Une du Parisien, la caricature du double standard”, 21 de dezembro de 2023, www.acrimed.org
[3] Mathilde Cousin, “Guerre Hamas-Israel: des enfants israéliens en cage? Prudence au sujet de cette video”, 10 de outubro de 2023, www.20minutes.fr
[4] N.T. Na madrugada de 1 de março de 2024, as tropas israelitas abriram fogo contra uma multidão de palestinianos famintos esperando por camiões de ajuda na cidade de Gaza, matando mais de cem pessoas e ferindo mais de mil.
[5] Citado por Xavier de La Porte e Jade Lindgaard. Le Nouveau B.A.. B.A. du BHL. Enquete sur le plus grand intellectuel français, La decouverte, Paris, 2011.
[6] “Israel une-se à lista de países com maior número de jornalistas presos enquanto no resto do mundo continua a encarcerar-se comunicadores, segundo relatório do CPJ”, Comité para a Proteção dos Jornalistas, 18 de janeiro de 2024, https://cpj.org
[7] Daniel Boguslaw, “CNN gere a cobertura de Gaza com equipa a operar sob a sombra de um censor das forças armadas de Israel”, 4 de janeiro de 2024, https://thein-tercept.com
[8] Sebastian Ben Daniel, “How Israeli journalists carry out PR for the army”, 19 de fevereiro de 2024, www.972mag.com
[9] Daniel Boguslaw e Ken Kilppenstein, “exclusive: Israeli military censor bans reporting on These 8 subjects”, https://theintercept.com
[10] Yanis Mhamdi e Xavier Monnier, “À BFM, la rédaction sonne l’alarme contre une couverture pro-israélienne”, 3 de novembro de 2023, www.blast-info.fr
[11] Orient XXI publicou entre janeiro e maio de 2021, uma extensa investigação na qual Jean Stern descreve essas ingerências a todos os níveis: económico, político (em concreto, parlamentar), e cultural; cf. Jean Stern, “Francia-Israel. Lobby ou não lobby? https://orietxxi.info
O autor: Alain Gresh [1948-] é diretor da revista digital OrientXXI.info. Autor de Palestine. Unp euple qui ne veut pas mourir (Les liens que liberent), maio 2024. Foi um quadro do partido comunista francês e redator chefe de Le Monde Diplomatique. Este artigo é um extrato adaptado pelo autor.


