Teoria e Política Económica: os grandes confrontos de ontem, hoje e amanhã, também – uma homenagem ao Joaquim Feio — Capítulo 3 — Texto 11. “Cochrane e Nevada de novo”, por Brad DeLong

Reflexos de uma trajetória intelectual conjunta ao longo de décadas – uma homenagem ao Joaquim Feio

 

Capítulo 3 – Das harmonias universais decretadas pela Escola de Chicago à violência das crises atuais – Reflexões sobre os Nobel ou nobelizáveis da Escola de Chicago

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

10 min de leitura

Texto 11 – Cochrane e Nevada de novo

 Por Brad DeLong

Publicado por notebook.community em 16 de Junho de 2020 (ver aqui)

 

Quem pode dizer o que Harald Uhlig [n.t. economista alemão, professor de economia na Universidade de Chicago (ver aqui)] disse há seis anos perante mais de 60 testemunhas?

Sim, é John Cochrane blogando mais uma vez. Mais uma vez, algumas das pessoas simples da internet que me desejam mal me dizem que eu preciso ir e ler John Cochrane—presumivelmente para me deixar doente.

Deveria Harald Uhlig ser o editor chefe do Journal of Political Economy?

E faço-o. John Cochrane em https://tinyurl.com/2020-06-16-a sobre porquê Harald Uhlig ainda merece ser editor-chefe do Journal of Political Economy:

O Conselho Consultivo do Journal of Political Economy (Robert Shimer, Lars Peter Hansen, Steve Levitt e Philip J. Reny, todos bons amigos e grandes economistas, por isso a minha dor aqui é profunda por ter de criticar a sua acção) não diz nada sobre os tuits, a cobertura mediática e o protesto. Em vez disso, citam a acusação de conduta discriminatória em ambiente de sala de aula. Ora, essa conduta é uma acusação muito séria…

Que Cochrane logo rejeita:

Mas este relato dos acontecimentos não se sustenta. Ba, agora professor da Univeridade de California. Irvine [n. t. Bocar A Ba é atualmente professor assistente de Economia na Universidade de Duke], estava sentado—não estando a ter créditos—numa aula em 2014, há seis anos. Na Universidade de Chicago, sempre houve a questão das aulas que se reúnem às segundas-feiras: como reagendar a aula que normalmente teria lugar no dia de Martin Luther King? Sempre foi uma confusão…

Poder-se-ia pensar que é uma porcaria: planos para o facto de haver férias.

Ou pode-se pensar que alguém faria a aula de férias durante o período de leitura, se não planeasse o programa de acordo com o calendário da Universidade.

E pode-se pensar que este não é um problema exclusivo do dia de Martin Luther King Jr.: que se aplica também ao aniversário de Washington e Lincoln, ao Memorial Day e ao dia de ação de Graças.

Mas, aparentemente, não foi isso que o professor de Economia da Universidade de Chicago, Harald Uhlig, fez. Bocar A. Ba diz (https://tinyurl.com/2020-06-16-b):

@ haralduhlig: sentei-me na sua turma no Inverno de 2014:

Você falou sobre agendar uma aula no dia de Martin Luther King

Fez troça do Dr. King e das pessoas que o honravam

Você sarcasticamente perguntou-me à frente de todos se eu estava ofendido.

chitownprof (https://tinyurl.com/2020-06-16-f): “fui um dos mais de 60 estudantes de Doutoramento desse curso. Tudo o que você diz é verdade. Uhlig teve que reagendar uma aula e sugeriu a segunda-feira seguinte. Um colega de classe disse que era o dia da MLK, para o que ele procurou por você (o único aluno negro), e perguntou: ‘Você não se importa, não é?’ E, para ser claro, na época MLK era um feriado observado na Universidade de Chicago dia em que as aulas eram canceladas.”

Alejandro Hoyos (https://tinyurl.com/2020-06-16-c): “eu estava na mesma classe com Bocar e cada palavra é verdadeira, Isto aconteceu exatamente como ele descreveu.”

Jordan Rosenthal-Kay (https://tinyurl.com/2020-06-16-d): “para que conste: comentários semelhantes foram repetidos na sala de aula este ano”.

Corinne Low (https://tinyurl.com/2020-06-16-e): “sim, ouvi HU também dizer a mesma coisa este ano, embora talvez sem um estudante negro para destacar e humilhar. Também desmente a ideia de que ele está a criticar BLM bc pelo quanto ele ama MLK e o protesto pacífico.”

fluffynuffy (https://tinyurl.com/2020-06-16-g): “Uhlig faz estranhas “piadas” do dia MLK todos os anos nas suas aulas, aparentemente. Esta é provavelmente uma liberdade de expressão aceitável, mas má. Mas pedir especificamente aos estudantes negros que perguntem como se sentem sobre isso não é liberdade de expressão.”

 

Ah. Portanto, não era que Harald Uhlig tivesse falhado em planear o dia de MLK. Foi que ele tinha um compromisso externo durante o que deveria ser o seu tempo de aula e queria reagendar a aula a que iria faltar para o dia de MLK. A “confusão” é criada pelo agendamento de compromissos externos por parte de Uhlig durante os períodos de aula. No entanto, de alguma forma, a Cochrane não encontra espaço para dizer isso.

Cochrane continua:

… Nessa discussão, Harald disse algo que Ba considerou ofensivo – isso é inegável. Que “troça” fez Harald do Dr. King? Palavras precisas ajudariam. Claramente, nessa interação, o tom da voz — se a pergunta de Harald era “sarcástica” ou bem intencionada – importava tanto quanto o que realmente disse. Sim, isso merece investigação, na medida em que se pode investigar comentários feitos em aulas há seis anos relatados via tuit.

Mas o J[ournal] of P[olitical] E[conomy], na sexta-feira, estava claramente a responder aos tuits de Harald, não apenas a essa acusação, e a afirmação contrária do JPE é uma desculpa pobre. Não há nenhuma maneira nesta terra verde que um tuit feito na quinta-feira sobre um comentário feito na classe há seis anos leve a ser demitido do JPE na sexta-feira, na ausência de uma turba exigindo apenas essa cabeça por tuits anteriores sobre deixar de financiar a polícia. Uma acusação de mau comportamento nas aulas justificaria a suspensão de Harald de dar aulas, talvez.

Passei grande parte dos meus últimos anos a ensinar com medo de dizer algo que poderia ser mal interpretado e, portanto, ofensivo para alguém. Muitos dos meus colegas relatam as mesmas preocupações. Não é bom para uma comunicação aberta e honesta na sala de aula se um tuit sobre um comentário de há seis anos te puder destruir.

Sim, pessoas simples da internet. Deixaram-me doente. Outra vez. Satisfeitos?

 

Medo dos Jornalistas

Então, para recuperar meu equilíbrio, vamos falar sobre o medo de John Cochrane dos repórteres. Imediatamente após a última citação acima, ele continua:

Eu também aprendi da maneira mais difícil, não fale com repórteres que estão dispostos a destruí-lo, e isso inclui qualquer um do New York Times ou do New Yorker. Compare o artigo do Times com a transcrição não editada da entrevista de Uhlig (https://tinyurl.com/2020-06-16-i). Acho que Harald acabou de aprender outra lição aguda.

Aqui estão os parágrafos do artigo do New York Times da entrevista por e-mail feita a Harald Uhlig: Ben Casselman & Tim Tankersley (https://tinyurl.com/2020-06-16-h):

[Uhlig] disse em uma entrevista por e-mail na noite de terça-feira que a sua comparação “desatualizada” “parece ter causado irritação”, mas discordou dos críticos que dizem que os seus comentários “ferem e marginalizam pessoas de cor e seus aliados na profissão de economia; questionam a sua imparcialidade na avaliação do trabalho académico sobre este e tópicos relacionados; e prejudicam a posição da disciplina económica na sociedade. “A referência ao Klan, disse ele, foi um caso em que “escolhi um exemplo extremo” para assinalar a liberdade de expressão.

“Discriminação e racismo estão errados”, escreveu Uhlig num e-mail. Mais tarde, ele acrescentou: “Eu adoraria ter mais economistas negros (ou são ‘economistas Afro-americanos’?) entre os nossos alunos de graduação, Ph. D. estudantes e professores. Tenho a impressão de que os bons são muito procurados. Temos também muito poucos índios americanos entre os nossos colegas. Temos de encontrar uma boa forma de alterar estes números.”

Realmente não vi porque razão Cochrane pensa que Uhlig tem razões de queixa aqui.

 

“Devemos ter uma Recessão… Pregar pregos no Nevada…”

Mas depois lembrei-me do momento em que concluí pela primeira vez que John Cochrane se tinha tornado insano… que ele simplesmente se tinha perdido completamente. Foi em 23 de Dezembro de 2008, quando li um artigo da Bloomberg News de John Lippert (ver aqui):

John Cochrane estava furioso quando a notícia do plano do Secretário do Tesouro dos EUA Henry Paulson de comprar 700 mil milhões em ativos hipotecários problemáticos percorreu toda a Universidade de Chicago em Setembro…. Durante um almoço realizado numa varanda com vista para a Capela Rockefeller Memorial, Cochrane, genro do teórico dos mercados eficientes de Chicago, Eugene Fama, e alguns colegas seus tomaram posição sobre este projeto. Escreveram uma petição… recolheram 230 assinaturas. O senador republicano Richard Shelby, do Alabama, acenou com o documento enquanto escarnecia sobre o plano de resgate de Paulson. Quando o Congresso o rejeitou em 29 de Setembro, Cochrane enviou muitos emails de felicitações. A vitória foi de curta duração. Os legisladores aprovaram o plano quatro dias mais tarde, influenciados pelo que Cochrane chama uma pinhata de emendas discricionárias, ou seja, gastar muito dinheiro para ganhar votos e favorecer interesses de grupo. “Deveríamos ter uma recessão”, disse Cochrane em Novembro, falando a estudantes e investidores numa sala de conferências que dá para o Lago Michigan. “As pessoas que passam a vida a bater pregos no Nevada [na construção] precisam de outra coisa para fazer”.

Agora precisamos de olhar para alguns dados. Portanto, precisamos de começar por inicializar o nosso ambiente e pegar a série temporal para a parcela de trabalhadores não agrícolas na América que trabalham na construção de edifícios residenciais — as pessoas que “batem pregos”. Vejamos esta percentagem todos os anos, de 2000 a 2012, em outubro, antes de o frio no norte começar a encerrar a construção:

Data

% de trabalhadores

2000-10-01

5,15

2001-10-01

5,18

2002-10-01

5,12

2003-10-01

5,20

2004-10-01

5,34

2005-10-01

5,54

2006-10-01

5,61

2007-10-01

5,47

2008-10-01

5,11

2009-10-01

4,40

2010-10-01

4,22

2011-10-01

4,22

2012-10-01

4,21

 

Na pequena tabela acima podemos ver claramente o boom habitacional de meados dos anos 2000 e o seu desenrolar: a percentagem de trabalhadores americanos que a trabalhar na construção residencial aumenta de 5,15% no início dos anos 2000 para 5,6% no auge do boom habitacional em 2006, e depois diminui. Em Outubro de 2008, a percentagem de trabalhadores americanos na construção civil estava de regresso ao seu nível pré-boom, e em torno da sua média de longo prazo.

Antes de Cochrane se levantar e dizer “Deveríamos ter uma recessão. As pessoas que passam a vida a bater pregos no Nevada precisam de algo mais a fazer”, o excesso de emprego na construção, aquelas pessoas que precisariam de outra coisa para fazer a longo prazo já tinham abandonado o sector. Então, porque é que precisávamos de ter uma recessão? Não precisávamos. O argumento da Cochrane era incoerente. E de analfabeto em economia. A tarefa de ajustamento estrutural até ao fim do boom habitacional já tinha sido realizada. E não era necessária uma recessão.

Então qual foi a reacção de Cochrane quando Paul Krugman o interpelou sobre a sua afirmação de que devíamos ter “uma recessão… a pregar pregos no Nevada” ?

Não foi nada bonita (ver aqui):

“O nível de ataque pessoal no artigo [Krugman] do New York Times, e a confusão dos factos para o conseguir, é simplesmente espantoso. Como um pequeno exemplo, tome a minha citação sobre carpinteiros no Nevada…. Não fui eu que escrevi isto. É uma atribuição, retirada do contexto, de um artigo do bloomberg.com, escrito por um repórter [John Lippert] com quem passei cerca de 10 horas pacientemente a tentar explicar algumas noções básicas, e que também se revelou estar apenas a fazer uma caça de citações embaraçosas. No entanto, estava a tentar explicar como as mudanças sectoriais contribuem para o desemprego. Nunca afirmei que “é preciso desemprego em massa em toda a nação para conseguir que os carpinteiros saiam do Nevada”. Não se pode sequer fazer uma citação fora de contexto para essa opinião monstruosamente inventada.”

Cochrane está correto. Ele não escreveu “Devíamos ter uma recessão. As pessoas que passam a vida a bater pregos no Nevada precisam de outra coisa para fazer “. Mas está incorreto ao deixar aos leitores a impressão de que se trata de uma “atribuição” tirada de uma discussão paciente com o repórter da Bloomberg, John Lippert.

Cochrane fez a afirmação “devíamos ter uma recessão… a martelar pregos no Nevada” no discurso principal que proferiu no Fórum CRSP de 2008 https://tinyurl.com/2020-06-16-l no Gleacher Center no centro de Chicago. Fez esta afirmação em frente de várias centenas de pessoas, em que a cada uma das pessoas participantes a Universidade de Chicago tinha cobrado 650 dólares (350 para académicos).

E ele disse algo muito semelhante ao que Lippert ouviu a John Cassidy do New Yorker https://tinyurl.com/2020-06-16-m:

Quando descobrirmos que fizemos demasiadas casas no Nevada, algumas pessoas vão ter de se mudar para empregos diferentes, e vai demorar algum tempo a procurar o emprego certo para elas. Haverá algum desemprego…. Alguma componente do desemprego significa que são as pessoas que procuram melhores adaptações após mudanças que têm de acontecer…. Será dez por cento [desemprego neste momento] o número certo? Agora estamos a falar de opiniões…. Mas o que precisamos é de modelos, dados, previsões… não da minha opinião contra a sua opinião…

 

Como escrevi ao repórter John Lippert sobre o parágrafo de Cochrane explicando o seu “martelar pregos no Nevada”: “Algo que é um discurso de abertura numa conferência que é uma parte importante do esforço público de divulgação intelectual/de angariação de fundos da sua escola dificilmente parece estar bem caracterizado como: “Eu não escrevi isto. É uma atribuição, retirada do contexto, de um artigo, escrito por um repórter com quem passei cerca de 10 horas pacientemente a tentar explicar algumas noções básicas, e que também se revelou estar apenas numa caça a citações embaraçosas…’ Quero dizer: porquê fazer isto? Será a crença de que ninguém vai verificar”?

John Lippert respondeu:

Obrigado pela sua nota.

A queixa do Professor Cochrane é algo de que tomei conhecimento… depois de Cochrane ter respondido a algo que Paul Krugman tinha escrito…. A Bloomberg não respondeu aos comentários de Cochrane. Ele nunca nos enviou os comentários, apesar do meu pedido para o fazer.

Quando tomámos conhecimento da sua queixa, não vimos qualquer razão para fazer uma correção.

A visão institucional da Bloomberg foi e é: uma vez que estamos satisfeitos com a nossa história, não há necessidade de apresentarmos qualquer correcção por nossa própria iniciativa; e, na ausência de uma queixa, não há necessidade de expandirmos a nossa história.

E penso que dou o assunto por acabado.

___________

O autor: : J. Bradford DeLong [1960- ] é Professor de Economia na Universidade da Califórnia em Berkeley e investigador associado no National Bureau of Economic Research. Foi Secretário Adjunto do Tesouro dos EUA durante a Administração Clinton, onde esteve fortemente envolvido em negociações orçamentais e comerciais. O seu papel na concepção do plano de salvamento do México durante a crise do peso de 1994 colocou-o na vanguarda da transformação da América Latina numa região de economias abertas, e cimentou a sua estatura como uma voz de liderança nos debates de política económica. É licenciado em Economia pela universidade de Harvard. É doutorado pela mesma universidade. (para mais info ver wikipedia aqui)

 

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