PRIMO LEVI E A NARRATIVA “SE ISTO É UM HOMEM” – por MANUEL SIMÕES

Obrigado à Revista Galileu – Foto: Wikimedia Commons

 

No passado dia 4 de Junho, a RTP2 passou o filme “Se isto é um Homem”, do realizador Marco Turco, sobre a vida do escritor italiano Primo Levi, sobrevivente ao Holocausto e autor da narrativa autobiográfica “Se isto é um Homem” (1947), texto fundamental sobre a memória do campo de concentração de Auschwitz. O filme aproveita o título da primeira e consagrada obra de Primo Levi, de que existe a tradução portuguesa, embora contemple experiências relatadas em “A Trégua”, 1963 (da saída de Auschwitz até voltar a casa) e outros textos reunidos em “Storie Naturali”/”Histórias Naturais”(1966).

Primo Levi nasceu em Turim em 1919 e ali morreu, provavelmente suicida, em 1987. Licenciou-se em engenharia química em 1941 e, em 1943, une-se a um grupo “partigiano” que operava em Vale d’Aosta, tendo sido feito prisioneiro pela Milícia fascista em 13 de Dezembro de 1943, e deportado, como judeu, primeiro para o campo de concentração de Fóssoli, ainda em Itália, e depois para o “lager” de Auschwitz em Fevereiro de 1944, de onde foi libertado pelos soldados russos em 1945.

A sua extraordinária narrativa, que não transcura nenhum dos pormenores da vida no “lager”, das pequenas corrupções para receber um pouco mais da ração quotidiana de pão ou da sopa, da competição interna para obter pequenos favores (ponta de cigarro, uma colher ou uma faca, por exemplo), até às amizades interessadas dos próprios SS, mereceu do Autor esta prevenção: «…este meu livro, relativamente a pormenores atrozes, não acrescenta nada ao que é conhecido pelos leitores de todo o mundo sobre o inquietante argumento dos campos de destruição. Não foi escrito com intenção de formular novos pontos de acusação; poderá talvez fornecer documentos para um estudo sereno de alguns aspectos do comportamento humano. Para muitos, indivíduos ou povos, pode acontecer que considerem, mais ou menos conscientemente, que “todo o estrangeiro é inimigo”. Em geral, esta convicção germina no fundo do espírito como uma infecção latente; manifesta-se apenas em actos isolados e não coordenados, e não tem origem num sistema de pensamento. Mas quando isto acontece, quando o dogma não expresso se torna premissa maior de um silogismo, então, no fim da cadeia, está o “Lager”»

Primo Levi era por assim dizer um judeu laico, não crente. Visitou Israel por curiosidade, mas não gostou do que viu. Subscreveu, convicto, o pedido de demissão de  Begin e apoiou a causa palestinesa. O seu mau-estar provinha do facto de ser visto como vítima em duplicado, também por se ter salvado. Teve a “sorte” de ser engenheiro químico, a certa altura utilizado pelos alemães num projecto de fábrica de borracha, mas o único privilégio foi o de, a certa altura, essa actividade o ter ajudado a resistir num contexto o mais possível humilhante e destruidor da força anímica. É dele esta declaração da maior actualidade, talvez por ter previsto o que estava acontecendo no Estado de Israel: «Não podemos fazer o que queremos só porque fomos vítimas».

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