Viver na Escola um clima de aceitação das diferenças culturais através de um ensino baseado na interculturalidade é fundamental para que as crianças, jovens e adultos não tenham atitudes racistas, xenófobas, de discriminação a todos e a todas que sejam diferentes da maioria.
Não, não é preciso, aulas expositivas, testes de perguntas e respostas, muito menos dos testes “das cruzinhas”.
É preciso viver com valores democráticos, na escola, em que todos devem participar e não ser castigados, mas sim esclarecidos e ouvidas as suas razões.
É difícil? É, mas é possível!
As representações de todos os grupos culturais têm sido um grande obstáculo para a melhor inclusão de todos, e quando digo todos é mesmo todos.
Alguém pensará que os portugueses, por exemplo, do interior do país, não são também vítimas de discriminação por causa da pronúncia e dos conhecimentos que não têm? Por causa da roupa que os avós vestem?
Não há conhecimento público desta realidade, e por um lado, ainda bem, se estas questões forem ultrapassadas pelos exemplos nas escolas, na comunidade, na sociedade e na vontade política dos governos.
Vivemos uma época em que as identidades culturais e sociais estão a ser atacadas por forças políticas que defendem a construção de “muros” para mandar embora quem vem de longe à procura de uma vida melhor.
Na Escola, todos têm que ser reconhecidos pela sua identidade e pelas suas diferenças para que possam ser incluídas nas suas relações interpessoais como algo a conhecer e a valorizar.
Quando se fazem notícias de violência entre pessoas, as que são diferentes não têm nome, mas têm nacionalidade, se forem nacionais têm nome, mas não nacionalidade. Porquê?
Não foi por acaso, que num levantamento realizado sobre as representações de pessoas “brancas” sobre pessoas de diferentes etnias, existentes em Portugal, os cabo-verdianos foram sempre referidos como pessoas agressivas e violentas!
O que fazem as representações tantas vezes repetidas? Tornam-se parte da essência de muitas pessoas que querem discriminar porque receiam os diferentes.
Mas os diferentes já foram os portugueses quando emigraram para França, Canadá, Estados Unidos, Luxemburgo, Rodésia…
Os Portugueses levaram agarrados à pele toda a sua cultura, todas as suas memórias das tradições culturais e sociais. Por isso foram muitas vezes marginalizados, faziam os trabalhos que as pessoas da maioria já não queriam fazer…
É triste ter que sair do seu país porque não se tem uma vida digna, não se tem emprego, por se ter uma família à qual não se adivinha um futuro feliz. E lá foram eles e elas, aos milhares, trabalhar e, ao mesmo tempo, tentar viver segundo as suas tradições. É notável como os açorianos mantiveram a suas identidades numa sociedade tão política e culturalmente poderosa e devastadora das diferentes culturas.
A Escola, assim como a sociedade, sempre foi multicultural, mesmo sem pessoas de outros países, com as suas culturas e tradições, já muitos portugueses eram discriminados pelo seu aspecto provinciano, pela sua pronúncia característica do local onde viviam.
Por vezes, a discriminação pode ser invisível e a Escola tem tido a sabedoria suficiente para a fazer.
Depois do 25 de Abril de 1974 os professores começaram (alguns continuaram) a reconhecer que as crianças não eram tratadas da mesma maneira, as crianças pobres tinham sempre más notas nos trabalhos, muitas vezes porque tinham fome e não se conseguiam concentrar… de barriga vazia e de alma magoada ninguém aprende, ninguém é feliz e, por isso, ou deixavam de comunicar ou davam pontapés…
E agora 25 de Abril, o que fazer?
Ensinar aos professores, nos cursos de formação, que as diferenças são uma riqueza para cada um de nós, não são um problema, e que o ensino se faz com uma boa dose de afeto e carinho, porque ninguém rejeita o amor.
A Educação Intercultural tem como uma das finalidades a promoção da Cidadania como ato de vida para a Paz e coesão social.
As crianças devem ter voz para exporem os seus problemas, as suas vidas boas ou não boas, para dizerem como gostavam de ver a escola, como podem colaborar na organização do funcionamento da escola, que atitudes e comportamentos devem ser louvados e, devem acima de tudo sentir motivação para ensinar os seus colegas que têm mais dificuldades independentemente das suas origens.
Todos temos os mesmos direitos apesar das nossas diferenças.
Estas crianças serão mais felizes se souberem que são boas referências na comunidade e que a comunidade conta com elas para que todos se sintam incluídos.
Este caminho pode estar longe, mas já desponta uma luz ao fundo do túnel.
A cidadania não se ensina com manuais e textos, mas sim vivendo-a em cada gesto na escola e fora dela.
A pedagogia da libertação defende a Paz e a Liberdade.
Como viver com valores democráticos se discriminarmos, se estigmatizarmos, se reprimirmos em termos culturais e sociais os diferentes? Os diferentes, Eu.
Cidadania é um conceito evolutivo, na última década do século XX o tema Cidadania tomou mais visibilidade e passa-se a falar em Educação para a Cidadania. Ora não se educa para, mas na Cidadania.
A Cidadania é um processo que se vai desenvolvendo não só pelo conhecimento, pela participação, mas também pela transformação e reconstrução da sociedade.
Segundo Arjun Appadurai (antropólogo cultural), a globalização, através dos fluxos culturais, cria uma certa porosidade entre as diversidades culturais.