Reflexos de uma trajetória intelectual conjunta ao longo de décadas – uma homenagem ao Joaquim Feio
Capítulo 5 – Da teoria da renda diferencial de Ricardo à violência da renda absoluta de Marx
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
10 min de leitura
Parte B: Melissa – Texto 12: Os “comboios da felicidade”; uma história de solidariedade
Por
em outubro de 2021 (ver aqui)
“Eu também estava naquele comboio“, de Giovanni Rinaldi (Solferino Editore, setembro de 2021), é um livro que poderia ser descrito como necessário para compreender plenamente o valor da palavra solidariedade. Um termo, por um lado, abusado e privado do seu significado mais profundo e, por outro, obsoleto, num mundo em que a palavra solidariedade é confundida com uma bondade não especificada e, sabe-se lá porquê, culpada. Desde há anos, um conflito cada vez mais aceso divide aqueles que defendem o valor do acolhimento dos que correm o risco de sucumbir à fome, à exploração e à guerra, e aqueles que, em jeito de provocação, exortam os “benfeitores” a acolherem esses fugitivos “em casa”. Uma provocação exercida com a consciência da impossibilidade de tal solução face a um fenómeno tão massivo quanto imparável.
Em vez disso, há apenas algumas décadas, numa Itália de joelhos, acabada de sair da Segunda Guerra Mundial, esta exortação a acolher em sua casa os mais necessitados – a parte mais frágil da população, as crianças – deu origem a um dos movimentos de solidariedade mais comoventes e, ao mesmo tempo, exaltantes desse período complicado: o “Movimento de Solidariedade Democrática para a Salvação da Infância”, que nasceu da vontade de mulheres militantes do Partido Comunista e que viria a dar origem, nesses mesmos anos, à UDI (União das Mulheres Italianas), nascida dos “grupos de defesa das mulheres”, criados durante a guerra.
Foi Teresa Noce, guerrilheira da resistência, deportada para campos de concentração na Alemanha e, mais tarde, deputada à Assembleia Constituinte, que se apercebeu, no primeiro inverno do pós-guerra, em Milão, do sofrimento das crianças mais pobres, obrigadas a dormir no meio da serradura para se protegerem do frio.
O que fazer para remediar uma situação tão dramática?
Para compreender como surgiu esta extraordinária rede de solidariedade, é preciso voltar um pouco atrás, é preciso voltar ao tempo em que a ideia de que “fazer política” expressava ainda o resultado de um empenhamento pessoal que era movido pela ideia de bem comum, é preciso voltar a uma forma de política que hoje já não existe.

Teresa Noce, naquele inverno de 1945, pediu aos membros do PCI de Reggio Emilia – onde a escassez de alimentos era menor do que em Milão, devido à extensão das terras cultivadas – para acolherem algumas dezenas de crianças milanesas em graves dificuldades. A resposta a este pedido de ajuda ultrapassou todas as expectativas: duas mil crianças foram acolhidas em famílias não só em Reggio Emilia, mas também em Parma, Modena e Bolonha.
Esta operação foi possível graças à colaboração dos Caminhos de Ferro do Estado Italiano, que disponibilizaram os comboios necessários para a transferência das crianças.
Comboios que nos anos seguintes permitirão a cerca de 70.000 crianças viajar para a segurança – enquanto esperam por tempos melhores nas áreas mais atingidas pela miséria – da fome e do abandono, alojadas não só na Emilia Romagna, mas também em Marche, Toscânia e Ligúria
Depois da primeira experiência, a rede de solidariedade estendeu-se às crianças de Nápoles, dos bairros de lata de Roma, e depois da Calábria, Sicília e Sardenha. Logo a seguir às crianças milanesas, já em janeiro de 1946, foram as crianças da devastada Cassino – e das aldeias vizinhas – que foram ajudadas.

A situação na zona de Frusinate é verdadeiramente trágica: o território está devastado, extremamente perigoso devido às minas por explodir, o terror dos bombardeamentos contínuos regressa em noites de insónia, a malária ataca os mais fracos, as grutas estão todas ocupadas e os homens adultos dormem nos abrigos, muitas vezes sem roupa, enquanto o frio e a fome levaram todas as crianças com menos de quatro anos.

Mais de mil crianças partiram com o primeiro grupo de Frosinone, e outras 850 com o segundo.
Crianças que foram lavadas, vestidas e acolhidas como “filhos adotivos” em famílias camponesas e operárias, dispostas a partilhar o pão com quem nem sequer o tinha; “acolhemo-las na nossa miséria”, diz uma das mulheres que conta a sua experiência a Rinaldi.
A iniciativa da UDI, mais tarde apoiada também por outras organizações de mulheres, foi, portanto, um grande sucesso, mas deparou-se com a oposição dos democratas-cristãos e também das paróquias das regiões de origem, porque, como sabemos, os comunistas comem crianças ou, na melhor das hipóteses, enviam-nas para a Rússia.
Vinte e três crianças de Frosinone, ao chegarem a Lugo di Romagna à noite, exaustas de uma viagem de 48 horas, foram tomadas pelo pânico:
“As crianças ouviram pela primeira vez as mulheres que as acolheram falar no dialeto da Romagna. Pensaram que era russo e ficaram tão assustadas que foi difícil convencê-las a sair do comboio”.
Até um pároco de uma aldeia da província de Frosinone impediu uma menina de receber o sacramento da Primeira Comunhão porque tinha sido acolhida por uma família de Voltana (uma aldeia perto de Lugo):
“Tu és comunista, não deves fazer a primeira comunhão”.
Em vez disso, como se depreende dos testemunhos recolhidos por Rinaldi, essas crianças encontram não só comida, mas também cuidados e afeto, cuidados a que não estão habituadas: camas com lençóis limpos, roupas e até brinquedos, doados por comerciantes locais.
Entre dezembro de 1946 e o verão de 1947, cerca de dez mil crianças deixaram Nápoles, graças ao “Comité para a Salvação das Crianças de Nápoles”, cujo presidente era o dirigente do PCI, Giorgio Amendola.
Também em Nápoles a situação é desastrosa, muitas crianças ficam órfãs ou abandonadas à sua sorte e descobrem que existe uma vida diferente, em que os adultos tomam conta delas.
Muitas das crianças que viveram esta experiência, depois de terem crescido, regressaram para visitar a sua família “adotiva”, talvez com os seus filhos que entretanto nasceram. Um laço que, nalguns casos, se mantém mesmo após a morte da família de acolhimento e que continua na geração seguinte.
Esta rede de solidariedade repete-se também em acontecimentos posteriores, não relacionados com a contingência do pós-guerra: crianças de Comacchio, na altura uma aldeia piscatória muito pobre, são acolhidas em Ferrara, enquanto famílias inteiras são acolhidas em muitas regiões do Norte de Itália após a inundação de Polesine em 1951.
O que aconteceu em março de 1950 merece uma discussão à parte.
A guerra tinha acabado há cinco anos, mas a Itália continuava a ser um país muito pobre, e mais ainda no sul, onde o sistema agrícola dos latifúndios se baseava no trabalho de jornaleiros, os mais pobres dos pobres, forçados a uma vida de miséria sem saída.
Os sindicatos de operários e camponeses organizaram greves em que se registaram frequentemente alguns mortos, dada a política de repressão extremamente dura do Ministro do Interior Mario Scelba.
Em Modena, a 9 de janeiro de 1950, a polícia estatal disparou contra os trabalhadores grevistas da Fonderie Riunite, matando seis deles e ferindo outras duzentas pessoas. A CGIL convocou uma greve geral para 22 de março, para protestar contra o assassinato de dois operários de Abruzzo, às mãos dos carabinieri, que realizavam uma forma pacífica de protesto denominada greve invertida (os manifestantes faziam trabalho de serviço público durante o horário de trabalho).
Naquele 22 de março, Scelba ordenou, como de costume, a aplicação de táticas de braço de ferro e, assim, um desempregado de 32 anos, Attila Alberti, morreu em Parma. Um outro grevista, que sofria de diabetes, é impedido de tomar os seus medicamentos na prisão e morre. Também em Abruzzo se regista outra morte e a notícia destas violentas repressões chega rapidamente às Câmaras do Trabalho.
Os operários de San Severo, na Apúlia, decidem fazer greve também no dia seguinte, em protesto contra essas mortes injustificadas. Desde o início da manhã, a cidade enche-se de uma multidão de homens, mulheres e crianças: os ânimos exaltam-se, os primeiros tiros são disparados contra os grevistas a partir dos telhados das casas, pelas mãos dos que se opõem à manifestação. Os representantes do sindicato, que se dirigem espontaneamente ao quartel dos carabinieri para tentar encontrar uma solução pacífica, são detidos e espancados. Os manifestantes erguem barricadas muito modestas, feitas de carrinhos de madeira frágeis, mas a chegada de trezentos agentes e quatro (quatro!!) tanques põe fim ao protesto.
O balanço é de um morto, quarenta feridos e mais de uma centena de detidos, homens e mulheres, que permanecerão na prisão, acusados de insurreição armada, até 5 de abril de 1952, data em que, no final do processo, serão todos absolvidos “por não terem cometido o facto”.
Para complicar uma situação já difícil, há o drama de muitas crianças – mesmo núcleos de 4 ou 5 irmãos e irmãs – que ficam sozinhas, porque os seus pais foram ambos presos e os seus parentes mais próximos (avós, tias e tios) não podem tomar conta delas, dadas as condições de extrema pobreza da maioria das famílias.

Interveio o “Comitato di solidarietà democratica” (Comité de Solidariedade Democrática), uma organização de apoio dos partidos de esquerda, que já tinha sido criada durante os anos do fascismo para prestar ajuda (jurídica e financeira) àqueles que, por razões políticas, se encontravam na prisão ou em situações particularmente difíceis.
Cerca de setenta crianças (meninos e meninas), alojados em famílias de Pesaro, Ancona, Ravenna e Livorno, partiram da estação de San Severo a 16 de maio de 1950, acompanhados por voluntários da UDI.
Aquela viagem de comboio, que dura uma noite inteira, em desconfortáveis bancos de madeira, é cansativa, mas representa, apesar da dor da separação e do medo do desconhecido, uma espécie de descoberta do mundo. As crianças que lutam para dormir, assustadas e confusas, veem o mar pela primeira vez, cintilando para lá das janelas do comboio: “Sentia-me como se estivesse num conto de fadas, porque de dentro do comboio via todas aquelas luzes refletidas no mar lá fora, mas não conseguia perceber o que era, porque nem sequer sabia que o mar existia”. Nestas palavras da senhora Ermínia, já idosa, transparece ainda todo o espanto da criança de há muitos anos e contam bem a história da pequena criança de San Severo.
Nas famílias adotivas, estas crianças descobrem uma vida diferente, diferente da vida de fome e de trabalho que é a única que conhecem. Até tomar banho numa banheira ou ter um par de sapatos para calçar é uma novidade. E depois, finalmente, a possibilidade de se livrarem da fome: algumas pessoas lembram-se de comer brioche ou gelado pela primeira vez, ou de beber café com leite (alguns nem sabiam o que era o café). Chegam a comer massa todos os dias, carne várias vezes por semana, e depois a surpresa de uma refeição quente à noite.
“Em San Severo”, conta uma das pessoas ouvidas por Rinaldi, “comíamos sim e não uma vez por dia, quando havia pão, pão e tomate ou qualquer outra coisa que encontrássemos. Pastasciutta só aos domingos, se o nosso pai tivesse encontrado trabalho durante a semana”.
No final do processo, depois de dois anos “e treze dias” (como observou uma das mulheres presas), as crianças de San Severo regressaram a casa, mas alguns deles (como também já tinha acontecido em experiências anteriores) lamentaram deixar aquela vida menos árdua, aquele bem-estar mínimo que tinham conhecido, porque na Apúlia a situação não mudou: os operários, sujeitos ao caporal, trabalham à jornada, quando conseguem encontrar trabalho, por salários de fome que não permitem a redenção. Por isso, alguns deles, com o consentimento dos pais, regressam às suas famílias adotivas e constroem a sua vida noutro lugar descoberto em circunstâncias tão dramáticas.
Esta é a história pouco conhecida dos “comboios das crianças”, ou “comboios da felicidade”, como lhes chamou o presidente da Câmara de Modena (de 1946 a 1962), Alfeo Corassori. Os comboios da felicidade são os do regresso a casa, porque “a felicidade não deriva do facto de terem sido retirados das suas casas, mas de terem encontrado novos afetos e sentimentos que lhes teriam permitido olhar o mundo com outros olhos, com menos medo e receio do futuro”.
E podiam também ser designados de muitas outras formas, mas acabaram por ser a demonstração de “uma possível solidariedade entre o Norte e o Sul, entre operários e camponeses” (Miriam Mafai), quando o compromisso político ainda se baseava em ideias e valores não negociáveis.
Depois, a realidade tomou outro rumo, embora por vezes algo desses ideais tenha ressurgido, como por ocasião dos terramotos de 20 e 29 de maio de 2012 na Emília, que fizeram 27 mortos e deixaram milhares de desalojados. Em Nápoles, a Vereadora para a Igualdade de Oportunidades decidiu retribuir à cidade da Emília a solidariedade demonstrada no imediato pós-guerra e criou o “Projeto Posillipo”: quarenta mulheres com filhos, provenientes da província de Ferrara, foram acolhidas na estância napolitana para umas férias de dez dias. Entre os hóspedes de Posillipo encontram-se também duas mães migrantes com as suas filhas e dois menores egípcios “não acompanhados”, para nos recordar que estas crianças que chegam hoje a Itália, vindas de terras tão distantes e cheias de problemas, têm algo em comum com as crianças do pós-guerra, acolhidas de braços abertos por aqueles que tinham pouco, porque eles não tinham mesmo nada.
Todas as frases citadas, dos protagonistas desta história, são extraídas do livro de Giovanni Rinaldi. Não foi possível localizar as fontes originais das fotografias da época.











