PALCO 228 – PEDRO CALDERÓN DE LA BARCA (1600-1681) – por Roberto Merino

 

Consulto diariamente o jornal espanhol El País, na sua edição online, e no dia 19 de Julho a jornalista Rosana Torres escrevia sob este título “ Os jovens criadores teatrais redescobrem Pedro Calderón de la Barca (Madrid 1600- 1681) com um olhar desavergonhado e sem tabus”.

O artigo vinha acompanhado de uma imagem do espectáculo da encenação de O Grande Teatro do Mundo, que foi incluído no festival de teatro de Almagro. Por motivos de direitos do autor não se inclui a imagem. Poeta, dramaturgo, cortesão, soldado e sacerdote, Calderón de la Barca recolhe o património teatral de Lope de Vega e põe fim  ao chamado Siglo de Oro do teatro espanhol.

A sua obra é vasta e profícua, toda ela marcada por um profundo sentimento religioso e cristão. Ele busca nas suas personagens as representações de Cristo e dos apóstolos, nos seus diferentes autos sacramentais. Será talvez El alcalde de Zalamea o El garrote más bien dado (1636) uma das suas poucas peças dramáticas a fugir deste esquema.

Para a encenação de Orfeu e Eurídice, com o Teatro de Marionetas do Porto, entre as muitas leituras consultadas inclui dois autos de  Calderón de la Barca: El Divino Orfeo/O Divino Orfeu – auto sacramental alegórico, na versão de 1634, e El Divino Jasón/O Divino Jasão – auto famoso.

Neste último auto Jasão é Cristo e Orfeu São João Baptista.

A peça desenrola-se num único acto e coloca em cena  Jasão e Argos, uma personagem  que, no seu vestido, aparece com muitos olhos, numa representação simbólica da omnipresença. O auto aborda assuntos de grande importância como o amor divino, a coragem e a criação de algo eterno e transcendental. O divino Jasão encarrega Argos de construir um navio que será um símbolo de sua transcendência e poder, que deve quebrar os limites do mar e surpreender os mortais. A nave é uma metáfora para a jornada espiritual e a conquista dos elementos, e é apresentada como um desafio às limitações humanas. Os personagens são de natureza simbólica. Argos, com seus muitos olhos, representa vigilância e onipresença, enquanto o divino Jasão é uma figura de poder e autoridade que aspira à eternidade. Os diálogos são ricos em metáforas e alusões, e a interação entre os personagens serve para expor as ideias e temas da obra de forma poética e simbólica. No auto, Orfeu, com poucas intervenções, limita-se a apontamentos poéticos, mas no final da peça, converte o ambicionado pelos Argonautas,  o Velo de Ouro, num cordeirinho branco, símbolo de Cristo e da cristandade. E no final todas as personagens cantam:

 

No auto O Divino Orfeu, Orfeu é Cristo, e a sua descida ao Hades mitológico é a descida ao inferno do qual resgatará a sua amada, aqui Caronte é Letes, o esquecimento, (cúmplice do Príncipe das Trevas). No seu enfrentamento com Letes/Caronte, Orfeu vence com a sua música a morte.

Em muitas representações medievais do poeta Ovídio, assinalavam-se as semelhanças entre a morte de Eurídice e a queda de Eva. Neste auto aparecem os elementos bíblicos da serpente, da maçã proibida e a promessa de igualar Deus, (Gen., 3, 5). Depois do pecado e da subsequente perda da harmonia na natureza, o resgate de Orfeu simboliza a Encarnação de Deus, a sua Morte na Cruz e a Redenção do género humano. Esta cena configura-se como uma via crucis, no qual Orfeu leva a sua harpa, como Cristo a sua cruz. A tradição medieval assimilava ambos os instrumentos.

De assinalar ainda , como indica o autor abaixo citado, a etimologia que Calderón atribui ao nome de Orfeu:

“Orfeu, o protagonista, aparece com o seu próprio nome. Como é habitual nas suas peças mitológicas, Calderón gosta de fornecer a etimologia da onomástica das suas personagens. Como Pérez de Moya, que em seu prático manual Filosofía secreta afirma que “isto significa Orfeu, que significa auroafones, isto é, som dourado”, o dramaturgo, distorcendo a exegese etimológica (“oraia phone”) de Fulgencio , refere-se a Orfeu como: voz dourada ou com voz dourada, porque como o ouro tem virtude atraente,  passa à voz suas excelências, (p. 315)” –NOTAS A EL DIVINO ORFEO DE CALDERÓN DE LA BARCA, de Pilar Berrio Martín-Retortillo I.B Cánido/ Biblioteca Virtual Cervantes

E voltando ao ponto de partida desta crónica, será de lembrar o belo espectáculo de O Grande Teatro do Mundo de Calderón, no TNSJ, na encenação de Nuno Carinhas, como sempre competente tanto na direção de actores como no ambiente plástico desenhado no palco. Espectáculo que marcou a sua estreia enquanto encenador neste palco do ex-director artístico Nuno Carinhas, em 1996. Esta produção do Teatro Nacional São João esteve em cena entre os dias 19 e 27 de setembro e 12 e 27 de outubro.(informação do TNSJ) 


Notas:

Sobre a obra de Calderón recomiendo la lectura de  El Hilo de la verdad,(*) expresión tomada de Calderón de la Barca y que se refiere al mito del hilo de Ariadna, el cual sirve de escenografía para que el autor replanteara la aventura del conocimiento y destilase un concepto de Verdad acorde con su filosofía del límite. La construcción de sus principales conceptos se ensaya en este libro en diálogo con obras de arte (Gran vidrio de Marcel Duchamp, Ciudadano Kane de Orson Welles, Cuarta sinfonía de Brahms) y filosofías clásicas (Así habló Zaratustra de Nietsche o La República de Platón). 

(*) Eugenio Trias (Barcelona, 1942-2013) fue uno de los filósofos españoles más prestigiosos y reconocidos internacionalmente, tal como lo demuestra el hecho de que, en 1995, fuera el primer pensador español distinguido con el Premio Internacional Friederich Nietschze.

(**) O Teatro Nacional São João e as edições Húmus lançaram mais um volume da sua coleção de textos dramáticos: O Grande Teatro do Mundo, de Pedro Calderón de la Barca, com tradução de José Bento e prefácio de Guillermo Heras.Texto referencial de um género específico, o auto sacramental da Espanha seiscentista, O Grande Teatro do Mundo é uma peça alegórica em um ato, sem estrutura temporal, de tema principalmente eucarístico, destinada a ser apresentada no dia do Corpo de Deus. As personagens desta peça são, na sua maioria, de natureza simbólica, não lhes estando associada qualquer “construção psicológica”. Por detrás do veio ideológico/eclesiástico que a estrutura, e de uma fina análise de classes, sobressai o fulgor da poética calderoniana. Autor maior do chamado Século de Ouro espanhol, Calderón de la Barca nasceu em 1600, foi militar e tomaria votos religiosos em 1651, antes de ser nomeado “Autor de Corte”, acedendo a grandes orçamentos e faustosas encenações. Alçou o auto sacramental à perfeição e cultivou também um género popular em Espanha, a zarzuela. Dele dizia Goethe que era o génio dotado da mais elevada inteligência.

O Grande Teatro do Mundo é o 39.º volume da coleção do Teatro Nacional São João nas Edições Húmus e o primeiro da série editado em 2022.

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