Consulto diariamente o jornal espanhol El País, na sua edição online, e no dia 19 de Julho a jornalista Rosana Torres escrevia sob este título “ Os jovens criadores teatrais redescobrem Pedro Calderón de la Barca (Madrid 1600- 1681) com um olhar desavergonhado e sem tabus”.
O artigo vinha acompanhado de uma imagem do espectáculo da encenação de O Grande Teatro do Mundo, que foi incluído no festival de teatro de Almagro. Por motivos de direitos do autor não se inclui a imagem. Poeta, dramaturgo, cortesão, soldado e sacerdote, Calderón de la Barca recolhe o património teatral de Lope de Vega e põe fim ao chamado Siglo de Oro do teatro espanhol.
A sua obra é vasta e profícua, toda ela marcada por um profundo sentimento religioso e cristão. Ele busca nas suas personagens as representações de Cristo e dos apóstolos, nos seus diferentes autos sacramentais. Será talvez El alcalde de Zalamea o El garrote más bien dado (1636) uma das suas poucas peças dramáticas a fugir deste esquema.
Para a encenação de Orfeu e Eurídice, com o Teatro de Marionetas do Porto, entre as muitas leituras consultadas inclui dois autos de Calderón de la Barca: El Divino Orfeo/O Divino Orfeu – auto sacramental alegórico, na versão de 1634, e El Divino Jasón/O Divino Jasão – auto famoso.
Neste último auto Jasão é Cristo e Orfeu São João Baptista.
A peça desenrola-se num único acto e coloca em cena Jasão e Argos, uma personagem que, no seu vestido, aparece com muitos olhos, numa representação simbólica da omnipresença. O auto aborda assuntos de grande importância como o amor divino, a coragem e a criação de algo eterno e transcendental. O divino Jasão encarrega Argos de construir um navio que será um símbolo de sua transcendência e poder, que deve quebrar os limites do mar e surpreender os mortais. A nave é uma metáfora para a jornada espiritual e a conquista dos elementos, e é apresentada como um desafio às limitações humanas. Os personagens são de natureza simbólica. Argos, com seus muitos olhos, representa vigilância e onipresença, enquanto o divino Jasão é uma figura de poder e autoridade que aspira à eternidade. Os diálogos são ricos em metáforas e alusões, e a interação entre os personagens serve para expor as ideias e temas da obra de forma poética e simbólica. No auto, Orfeu, com poucas intervenções, limita-se a apontamentos poéticos, mas no final da peça, converte o ambicionado pelos Argonautas, o Velo de Ouro, num cordeirinho branco, símbolo de Cristo e da cristandade. E no final todas as personagens cantam:
No auto O Divino Orfeu, Orfeu é Cristo, e a sua descida ao Hades mitológico é a descida ao inferno do qual resgatará a sua amada, aqui Caronte é Letes, o esquecimento, (cúmplice do Príncipe das Trevas). No seu enfrentamento com Letes/Caronte, Orfeu vence com a sua música a morte.
Em muitas representações medievais do poeta Ovídio, assinalavam-se as semelhanças entre a morte de Eurídice e a queda de Eva. Neste auto aparecem os elementos bíblicos da serpente, da maçã proibida e a promessa de igualar Deus, (Gen., 3, 5). Depois do pecado e da subsequente perda da harmonia na natureza, o resgate de Orfeu simboliza a Encarnação de Deus, a sua Morte na Cruz e a Redenção do género humano. Esta cena configura-se como uma via crucis, no qual Orfeu leva a sua harpa, como Cristo a sua cruz. A tradição medieval assimilava ambos os instrumentos.
De assinalar ainda , como indica o autor abaixo citado, a etimologia que Calderón atribui ao nome de Orfeu:
“Orfeu, o protagonista, aparece com o seu próprio nome. Como é habitual nas suas peças mitológicas, Calderón gosta de fornecer a etimologia da onomástica das suas personagens. Como Pérez de Moya, que em seu prático manual Filosofía secreta afirma que “isto significa Orfeu, que significa auroafones, isto é, som dourado”, o dramaturgo, distorcendo a exegese etimológica (“oraia phone”) de Fulgencio , refere-se a Orfeu como: voz dourada ou com voz dourada, porque como o ouro tem virtude atraente, passa à voz suas excelências, (p. 315)” –NOTAS A EL DIVINO ORFEO DE CALDERÓN DE LA BARCA, de Pilar Berrio Martín-Retortillo I.B Cánido/ Biblioteca Virtual Cervantes


