ADÃO CRUZ – VINTE E CINCO POR CENTO DE ILUSÂO

Não te zangues, porque ninguém se enamora de alguém com público carimbo na cara. Quem de nós sente a liberdade ou a prisão de um devaneio, com alguma elegância de formas tece as malhas de uma afeição. Vinte e cinco por cento de ilusão neutraliza a depressão, faz dormir que nem um justo e as coisas são o que são, nem surpresa nem desdobramentos de personalidade nem pensamentos duplos nem amargos de lágrimas. Como é bom conversar contigo ó ilusão, assim calado e mudo, vazio da minha posse e do meu abrigo. Sempre nos perdemos naquele instante que começa a dominar, mas é uma fraca ideia pensar ir longe e, sem ir ter a sorte de voltar. Deste mundo à real intimidade vai um passo cerimonioso, sonhador, penetrante, mas sem cor, sem brilho, sem sentido, de fonologia perfeitamente evitável se a desconjuntada linguística não lhe chamasse poesia. Surpreende apenas o delírio, escondendo o vivo interesse da inconsequência que é ensejo de todos nós. Surpreendem as razões inquietas das pessoas equivocadas que gemem angústias no conspurcar dos seus intentos. Vinte e cinco por cento de ilusão impede de adormecer às três e acordar às cinco, não desonra amigos nem inimigos e não dá ares de inocência falsa. Vinte e cinco por cento de ilusão é sentimento que garante provas positivas e faz acreditar na ideia de que se pode entender o que não tem entendimento. Vinte e cinco por cento de ilusão leva-nos a crer que o regime simbólico com que pensamos e habitamos a experiência do mundo é propriedade dos nossos sistemas cognitivos, bem como a garantia da circularidade simbólico-cognitiva que pode resultar numa unidade espontaneamente congruente.  Com vinte e cinco por cento de ilusão, não acreditando em nada, acredito agora, com nobre intenção, voz clara e firme, sem mostras de arrependimento nem buscas de coerência nem condições de perceber, que o idiota é crer no poder do entendimento de toda a merda que se escreve e não dá para entender.

 

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