ADÃO CRUZ – REFLEXÃO sobre CIÊNCIA E EDUCAÇÃO

Alguém disse que a educação de uma criança começa cem anos antes de ela nascer. Isto dá-nos a ideia de que a educação não é uma conquista individual, mas geracional. Ensino e educação são conceitos diferentes. No ensino organiza-se uma série de actividades didácticas para ajudar os alunos a compreender áreas específicas do conhecimento. A educação procura integrar o ensino e a vida, o conhecimento e a ética, a reflexão e a acção. É já um lugar-comum dizer-se que a educação não deve ser entendida como mera transmissão ou aquisição de meios e conhecimentos para qualquer fim, nem pode ser apenas a corrida para atrelar o homem a uma profissão. A educação deve ter como finalidade, para além da profissionalização, todo um processo de consolidação de valores e capacidades intelectuais e afectivas que permitam a cada indivíduo conquistar a sabedoria para lidar correctamente com as diferentes circunstâncias que a vida lhe vai apresentando. Ninguém pode considerar desnecessária a qualificação profissional, mas esta não pode depender, exclusivamente, da rígida exigência de determinadas habilitações específicas, como acontece hoje em variadíssimos campos, uma espécie de visão unidireccional do entendimento, redutora da estruturação do homem e da grandeza de estar na vida. Só a formação global permite, ao desenvolver todas as capacidades intelectuais, humanas e sociais, dar a mais ampla dimensão à sua competência profissional.

A ciência oferece-nos perspectivas francamente inovadoras, mesmo sem contribuir com respostas directas e imediatas para todas as questões. Embora a ciência e os factos, moralmente neutros, não nos possam oferecer uma educação propriamente dita, constituem a mais segura contribuição para a função adaptativa do homem. Em qualquer campo da educação, a cultura deve estar em interacção permanente com a evolução dos conhecimentos científicos, os temas de natureza científica devem entrar verdadeiramente na vida dos educandos. Deve promover-se o contacto com investigadores e espaços de investigação, semeando centros de ciência viva no sentido de aproximar a cultura científica das pessoas em geral e dos mais novos em particular. A ciência, em permanente desenvolvimento, interfere constantemente em múltiplos domínios do quotidiano e cria a necessidade de superiores critérios de excelência em qualquer dos campos da sociedade, alarga os conhecimentos, torna mais fácil o entendimento da vida, da educação e do progresso. Sem a ciência e a credibilidade no seu apoio, não há educação que resista, não há educação sinónimo de verdade, não há verdade que não esteja conspurcada de crendice. Todavia, nem a ciência nem a técnica têm sentido se não forem instrumentos para a realização plena da humanidade. Ao apresentar-me, assim, como tecnófilo, fazendo a apologia da ciência e da tecnologia como novos caminhos que permitem coisas novas, não deixo de ter em atenção a posição dos tecnófobos que atribuem à ciência um cunho elitista, considerando-a parte de uma invenção diabólica que apenas serve de instrumento neoliberal indispensável à melhoria das performances económicas. Neste sentido, a ciência passa a ser uma força de produção mais associada ao desejo de enriquecimento do que à produção do saber. Daqui a grande confusão, ou mesmo contradição, entre a maravilha da ciência e a perversidade das suas aplicações. Não podemos conceber, no entanto, um desenvolvimento sem ciência, a grande luz contra todos os obscurantismos. Podemos e devemos, isso sim, ter sobre ela uma visão críticodialéctica, reconhecendo o seu incomensurável papel no desenvolvimento da humanidade, e não desprezando os seus grandes perigos. Um campo infinito, apaixonante, conflituoso e imparável, que tanto pode ser usado para a consolidação de um poder dominante, como pode estar ao serviço da democracia e de uma sociedade mais verdadeira mais progressista e igualitária. O mal não está na Ciência, mas no uso negativo que Homem lhe dá.

 

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