ADÃO CRUZ – HOMENS-ENTULHO

HOMENS-ENTULHO

 

Para além de nós há o mundo

e sempre ignoramos o mundo

esquecemos as valas comuns que toquei ao de leve

muito ao de leve

não fosse os mortos magoar

nas margens verdes do Dniepre

regadas de lágrimas

onde cresceram flores sobre o chão de Babi-yar

umas de sal e água no mar quente de Bissau

bordando a lodo o cais de Pidjiguiti

outras de sangue esguichado

das cabeças à tona de água

em último respiro

outras de terra ensopada em rios de morte

no ventre de um Wiriyamu fuzilado

na penugem de Chinteya

nas balas de Vaina

no esventrar de Zostina

nos braços de um vulcão de raiva

em cada taça de vingança clandestina

que nem a morte amansa

nos túmulos da Palestina.

Sangue de Cristo

In Nomine Patris.

Mártires sem martirológio

corpos fecundos

erguei bem alto os ossos descarnados

que a morte é de acordar

e semear flores na aposta de outros mundos

erguei os rostos mirrados dos famintos da Terra

dos homens-entulho da grande vala comum

cavada no peito dos Humilhados e Ofendidos

pelos homens sem rosto

aberta no ventre dos Condenados da Terra

pelos homens sem alma.

adão cruz

 

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