ADÃO CRUZ – PRESO À CIDADE – foto de MANEL CRUZ

 

Foto de Manel Cruz

 

PRESO À CIDADE

 

Preso à cidade

nesta inquietante angústia das sombras

ao redor de um tudo-nada que nos prende e constrange

cai dos telhados o pó cinzento de uma neblina estranha

que definha as ruas e arrasta as horas na lentidão dos passos.

Lá atrás

uma réstia de luz presa ao vidro de um candeeiro partido

sob as janelas podres

lembra que se alma houvesse

seria fácil presa de um qualquer rígido corpo

enjoado de farsas e falácias amontoadas no lixo.

A noite caiu de forma estranha sobre a cidade sem corpo

definhada de luz e consciência

deixando atrás de si os últimos passos de uma existência

presa a todas as obscurantistas ordens estabelecidas.

Até o vento se foi

para não arrastar a neblina estranha

e para não calar o pesado silêncio que se prende ao corpo

como mortalha do tempo que desfaz a réstia de luz

presa ao vidro de um qualquer candeeiro partido.

Ainda ontem era dia nos braços do trabalho

e nas carnes que não conheciam o exílio

recusando morrer fora dos sonhos e da vida

e o vento varria o silêncio

para libertar o corpo e a mente

da neblina das noites pegajosas.

Havia certezas por entre os tremores da indecisão

havia sorrisos verdades e ilusões

e havia brisas sonâmbulas calando os medos

e havia rios arrastando as paredes negras

e todas as sombras dos candeeiros partidos.

Preso à cidade

na tristeza que nos envolve e nos liberta o pensamento

cai dos telhados a poeira do tempo

que cala as ruas e prende as horas na lentidão dos passos

e abre no chão quadriculado um espelho negro

com um menino tocando o céu azul

rodeado de pássaros e flores e rios cristalinos

e nos estende a mão num gesto de paz que nos acalma e nos perdoa

e carinhosamente

e sigilosamente

nos devolve ao nada por um caminho oculto

irreversível.

 

 

 

 

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