“O Fortuna
velut luna… “
(Ó Fortuna/és como a Lua…)
Os versos apareceram sem os esperar, era o título de um episódio de uma série numa das plataformas de filmes streaming.
Não pretendendo ser um homem culto, identifiquei logo a origem, desses versos que ainda ressoam na minha memória, musical, oral e coreograficamente, e não os posso esquecer!
Explico-me. Os dois primeiros versos citados fazem parte das letras de Carmina Burana, que foram musicadas magistralmente pelo compositor alemão Carl Orff.
Foi nos anos sessenta, ainda no Chile e na minha cidade, que tive oportunidade de ver e ouvir esta cantata coreografada pelo que então era o diretor artístico do Ballet Nacional Chileno, o também alemão, Ernest Uthoff (*).
Como chegou este senhor ao Chile (?), é uma história interessante.
Para contá-la vou recorrer à minha memória, à memória dos meus pais e àquilo que se pode encontrar num site da net que é Memoria Chilena, lugar onde se guardam algumas histórias e singularidades do meu país.
Conta o meu pai que este coreógrafo integrava a companhia de bailado de Kurt Jooss (**), uma das mais importantes figuras da dança moderna, junto a outro coreógrafo, Rudolf Laban.
Esta companhia terá passado pela Argentina e pelo Chile, e foi nessa viagem que Uthoff decidiu ficar no Chile. Ficaria assim o destino da dança, no meu país, intrinsecamente ligado ao movimento expressionista alemão, do qual mais tarde surgirá uma das figuras mais destacadas da dança contemporânea, Pina Bausch!
O meu pai contava que foi um dos privilegiados ao assistir com minha mãe às representações da companhia de Jooss, A mesa Verde e a coreografia de A Grande Cidade. Jooss foi um coreógrafo que se destacou por imprimir nas suas coreografias o aspecto social: na Grande Cidade, as diferentes classes sociais dançam em diferentes espaços e com diferentes danças, no bailado A Mesa Verde os capitalistas, os detentores do poder, decidem burocraticamente, numa mesa, ir para a guerra, enquanto o jovem soldado parte para o campo de batalha e despede-se da sua namorada e da sua mãe…a cena é retratada como uma dança da morte medieval!
E as recordações continuam: as letras dos poemas de Carmina Burana, foram escritas pelos goliardos (***), nome que Ángel Fácio, encenador espanhol escolheu para a sua companhia independente nos anos 60, uma das mais importantes do movimento teatral espanhol. Em 2017, na Escola Superior Artística do Porto/ESAP, ele foi homenageado pouco antes da sua morte, pela passagem dos 45 anos da encenação de A Casa de Bernarda Alba de Federico Garcia Lorca – cenários e figurinos de José Rodrigues – por ocasião do FITEI/Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica. Uma exposição de fotografias e maquetes na galeria da ESAP organizada juntamente com a ESAD/ Escola Superior de Arte Dramática da Galiza, o TEP e o FITEI, completava esta homenagem à qual o mestre José Rodrigues não pode assistir, tinha falecido um ano antes.
A Loren e a Bardot
Um ano são muitas noites e muitas luas, mesmo quando ela parece estar ausente.
Estas duas senhoras viram muitas luas passar, elas são Sofia Loren e Brigitte Bardot, cumpriram esta semana 90 anos. Ambas tinham coisas em comum, foram actrizes, foram belas, fizeram grandes interpretações no ecrã. Da Bardot, o meu filme preferido é Le Mépris (1963), um encontro que parecia improvável entre Jean-Luc Godard, Jack Palance, Fritz Lang e ainda Michele Piccoli.
Da Loren resgato um dos seus últimos filmes, Um Dia Inesquecível – filme realizado por Ettore Scola de 1977 – , um encontro de duas almas solitárias na Roma de Mussolini, que acudiu em massa, num dia muito particular, ao encontro do ditador fascista com Hitler. Tive mais tarde a oportunidade de ver uma versão teatral deste filme.
Uma dame, que desafortunadamente não chegou aos noventa!
Refiro-me a Maggie Smith (1934), grande dama inglesa do teatro, do cinema e da televisão. Aborrece-me que a imprensa apenas se refira aos desempenhos na saga de Harry Potter ou Downton Abbey …Maggie Smith era muita actriz antes destas fitas ou séries!
E a despedida de Kris Kristofferson (1936), um belo actor e músico do country, a quem lembro em muitas fitas, particularmente uma, Alice Doesn’t Live Here Anymore (Alice Já Não Mora Aqui) de 1974, realizado por Martin Scorsese.
Roberto Merino

