Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
5 min de leitura
Está a acontecer, novamente
E até que os democratas consigam encontrar uma maneira de reconquistar uma grande parte dos eleitores da classe trabalhadora, os sucessores de Donald Trump também serão favorecidos nas próximas eleições presidenciais.
Publicado por
em 6 de Novembro de 2024 (original aqui)

“Está a acontecer, novamente”. Esta manhã, com Donald Trump no comando de outra esmagadora vitória presidencial, as terríveis palavras dos Twin Peaks de David Lynch assentam como chumbo dentro de muitos estômagos. Como o clímax de uma campanha frenética e o triunfo de tanta coisa que é viciosa e corrosiva na sociedade americana, a segunda eleição de Trump é um choque. E, no entanto, como acontecimento da história contemporânea, dificilmente pode ser visto como uma surpresa.
Em primeiro lugar e mais prosaicamente, há a inflação. Será que a América realmente elegeu um ditador porque os Flocos Gelados atingiram 7,99 dólares no supermercado? Leia essa frase outra vez e não parecerá tão absurda.
A um nível mais profundo, 2024 ensinou-nos uma dura lição: numa sociedade global definida pelo consumo mais do que pela produção, os eleitores detestam aumentos de preços e estão dispostos a castigar os governantes que os presidem. Ao longo do maior ano eleitoral da história moderna, com milhares de milhões de eleitores em todo o mundo, os governantes em exercício foram derrotados, à esquerda, à direita e ao centro: os conservadores no Reino Unido, Emmanuel Macron em França, o Congresso Nacional Africano na África do Sul, o BJP de Narendra Modi na Índia, o kirchnerismo na Argentina no outono passado [n.t. assim como o PS em Portugal]. Hoje, a inflação pós-pandémica, agravada pelas guerras na Ucrânia e no Médio Oriente, custou o escalpe a mais um governo em funções.
Na América, a posição dos Democratas era duplamente péssima. Ao longo da última década, o padrão que define a política nacional tem sido um desalinhamento de classe: uma vasta migração de eleitores da classe trabalhadora para longe do Partido Democrata, e uma deslocação de eleitores da classe profissional para longe dos republicanos. Este foi o fator decisivo em 2016, quando Hillary Clinton foi derrubada pelos mesmos proletários da Rust Belt que tinham eleito Barack Obama. E esse desalinhamento continuou, mais silenciosamente mas com um movimento incontrolado, nos anos em que os democratas compensaram as suas perdas ganhando mais profissionais suburbanos, em 2018, 2020, e 2022.
A campanha de Kamala Harris foi a personificação desta mudança. Ela própria fez uma corrida cautelosa, mas principalmente competente, movendo-se para a direita na fronteira, como os eleitores pareciam exigir, criticando Trump sobre o aborto e – pelo menos nas mensagens pagas dela – cortejando eleitores da classe trabalhadora com foco no pão com manteiga. Mas, no final, essas decisões táticas estreitas foram subjugadas pela natureza alterada do conjunto do Partido Democrata.
Mesmo quando a própria Harris tentou evitar a política de identidade tóxica de Hillary em 2016, ela foi ultrapassada pelo “partido sombra” — uma constelação de ONGs, organizações de media a e ativistas financiados por fundações que agora constituem a base institucional dos democratas. Assim, “Os tipos brancos a favor de Harris” [“White Dudes For Harris”] e seus semelhantes, o esforço para promover os republicanos que dizem Never Trump nos media e as tentativas embaraçosas de conquistar homens negros com promessas de marijuana legal e proteções para investimentos em criptomoedas. Essas intervenções do partido sombra na corrida ajudaram a recolher somas históricas de dinheiro — mais de 1 milhar de milhões de dólares em apenas alguns meses — mas também marcaram Harris como propriedade de uma classe profissional educada, focada inteiramente em “democracia”, direitos ao aborto e identidade pessoal, mas amplamente desinteressada em questões materiais.
Nas últimas semanas da campanha, Harris orientou-se claramente na mesma direção. Em comícios e entrevistas, ela concentrou-se no próprio Trump como uma ameaça mortal às instituições existentes na América. Percorreu os estados oscilantes (swing states) com Liz Cheney, classificando o ataque verbal de Trump a Cheney como um incidente “desqualificante”. Na sua digressão final pelo Midwest, fez uma pausa nos seus próprios discursos para colocar em grande écran os videos de Trump, parecendo acreditar que o antigo presidente se derrotaria de alguma forma com as suas próprias palavras.
Funcionou, no sentido de que Harris ganhou os eleitores com diplomas universitários por 15 pontos, uma margem maior do que em 2020. Os eleitores que ganham mais de 100.000 dólares por ano foram para os democratas em números recorde. Os republicanos moderados dos subúrbios, famosamente invocados por Chuck Schumer há oito anos, continuam a gotejar na coligação democrata. Isso parece servir-lhes bastante bem nas eleições intercalares, mas não tanto nas grandes eleições. Este ano, os democratas de Liz Cheney foram ofuscados por uma vasta reviravolta da classe trabalhadora em direção a Trump, em muitos aspetos: eleitores rurais, eleitores com baixos rendimentos, eleitores latinos e eleitores negros, do Texas a New Hampshire. Mesmo quando os especialistas progressistas saudavam a diferença de género pós-Dobbs, vangloriando-se de que os republicanos se tinham arruinado com as eleitoras durante uma geração, as mulheres sem formação universitária votaram em Trump por 6 pontos.
Acima de tudo, Harris e os democratas não conseguiram chegar aos eleitores que têm uma visão negativa da economia – não apenas os partidários republicanos, mas dois terços do eleitorado de ontem. Com o seu modesto conjunto de iniciativas económicas específicas, ocasionalmente acompanhadas de uma retórica populista pouco convicta, será de surpreender que não tenha conseguido convencer estes eleitores frustrados? Quase 80 por cento dos eleitores que indicaram a economia como a sua principal questão votaram em Trump. Quanto é que alguns meses de publicidade direcionada podem fazer, em comparação com um partido sombra democrata mais amplo que tem vindo a apregoar a saúde da economia – baixo desemprego, crescimento dos salários e um mercado de ações em expansão – há mais de um ano? Se os eleitores não acreditaram que Harris tinha um plano real para melhorar as suas vidas, em termos materiais, é difícil culpá-los.
Por fim, é justo acrescentar que Harris enfrentou uma tarefa excecionalmente difícil nesta eleição. Durante mais de um ano, um presidente democrata já impopular não teve a capacidade física de comunicar com o público. No entanto, o partido-sombra manteve Joe Biden, apoiou-o, gritou furiosamente contra todos os dissidentes que questionavam se as suas capacidades políticas – para não falar do seu discernimento, em Israel/Palestina e noutros lugares – tinham entrado num declínio terminal.
Depois de Biden finalmente ter tido um mau desempenho no debate, os democratas ainda levaram um mês para o retirar da lista. (Apesar de todos os memes que celebravam Nancy Pelosi pelo seu papel “implacável” neste esforço de última hora, poucos se deram ao trabalho de referir a falta de habilidade da liderança democrata que tinha permitido que Biden durasse tanto tempo). Harris entrou assim na corrida com uma campanha improvisada, já com um grande atraso nas sondagens. Escolhida para se juntar à candidatura Biden 2020 como senadora de primeiro mandato da Califórnia, ela própria não tinha qualquer experiência em derrotar republicanos numa eleição competitiva a nível estadual.
Entre a praga global da inflação, a lenta progressão do desalinhamento de classe e o fiasco de Biden, as perspetivas de uma vitória republicana em 2024 foram sempre grandes. O próprio Trump parecia reconhecer isso melhor do que a classe dos especialistas, conduzindo uma campanha arrogante que trocou grande parte do seu “populismo” retórico por um abraço de bilionários que defendem a redução do orçamento, como Elon Musk. A sua arrogância foi recompensada com mais um mandato. Tal como a maioria dos segundos mandatos, é provável que acabe em desilusão para os seus apoiantes, desperdiçado em mudanças políticas impopulares, numa onda de escândalos e muito tempo no campo de golfe. Mas até que os democratas consigam encontrar uma forma de reconquistar uma grande parte dos eleitores da classe trabalhadora, os sucessores de Trump serão favorecidos nas próximas eleições presidenciais
_________
O autor: Matt Karp historiador norte-americano, é professor associado na Universidade de Princeton e editor colaborador de Jacobin. É doutorado em História pela Universidade da Pensilvânia. Autor de This Vast Southern Empire: Slaveholders at the Helm of American Foreign Policy (Harvard, 2016), tem em preparação Millions of Abolitionists: The Republican Party and the Political War on Slavery e também uma meditação sobre a política da história dos EUA, explora as maneiras pelas quais as narrativas da experiência americana servem e moldam diferentes fins ideológicos — no século XIX, no século XX e hoje. (para mais informação ver aqui)


