PALCO 240 – MY FAIR LADY – PIGMALION (*)

 

Um artigo publicado na imprensa em 21 de outubro de 1964 traz-me recordações de um filme difícil de esquecer, de João Lopes em  My fair lady, o canto do cisne do cinema musical.

No dia 21 de outubro de 1964, o filme fazia 60 anos da sua estreia, (1964), um filme realizado por George Cukor e interpretado por Audrey Hepburn e Rex Harrison, O argumento é uma história baseada na peça Pigmalião (*Pygmalion), de George Bernard Shaw, publicada em 1912.

Entre a peça e o filme de 1964, há um filme de 1938, que influenciou a obra de Cukor, e um musical, que a inspirou largamente, de modo que o filme de que aqui se trata tem vários trechos com músicas vindas do musical. O género musical, tão em voga nos anos 50 e 60, teve nesta fita mais um êxito cinematográfico. Se a tradição do musical foi um género que no cinema de Hollywood encontrou um lugar de destaque, devemos assinalar que as fitas musicais existiram desde sempre na sétima arte, na Europa com certeza, no cinema alemão, no francês e no cinema austríaco, cinema este que quase desapareceu depois da II Guerra Mundial, devido ao êxodo maciço dos seus criadores, na maior parte para os Estados Unidos.

São recordações de um filme perfeito, difícil de repetir, ou de imaginar numa nova versão, um remake na gíria cinematográfica. Pela interpretação dos seus protagonistas, pela elegância do guarda-roupa, pelo requintado ambiente londrino recriado nos estúdios, assim como pela fabulosa cena da corrida de cavalos, magnificamente filmada numa ambígua e excelente mistura entre teatro e cinema.

Se o mais perfeito e glamouroso deste musical foi alcançado com êxito, no belo colorido da fotografia, inesquecível é a abertura do filme com um genérico no qual predominam as cores brilhantes de diferentes flores. O genérico/créditos é a introdução a um dos elementos importantes da dramaturgia, a personagem central é uma “inculta” vendedeira de flores, cuja pronúncia (cockney/ a região de East End, em Londres, é a que deu origem à variante Cockney English) denuncia as suas origens humildes de uma zona de trabalhadores e da classe operária dos arrabaldes de Londres. Devo dizer que na versão musical se perdeu em parte o transfundo social tão rico nos diálogos que o autor G.B. Shaw tem no seu original em Pygmalion. Pigmalião, na mitologia grega, foi um rei da ilha de Chipre, que, segundo Ovídio, poeta romano, também era escultor, e se apaixonou por uma estátua (Galateia) que esculpira ao tentar reproduzir a mulher ideal.

A peça, além de ser sobre a (des)construção e transformação de uma mulher, é a transferência de virtudes e virtualidades entre os dois protagonistas. Se Eliza aprende foneticamente a falar bem e corretamente, o Professor Higgins aprende a descobrir os seus sentimentos, ambos são esculpidos (como no original mítico) pela trama excelentemente dialogada por Shaw.

O filme ganhou várias estatuetas douradas, e se Audrey Hepburn não foi selecionada para intérprete de melhor actriz, foi apenas pelo facto da sua voz ter sido dobrada pela actriz e cantora Marni Nixon.

A peça teatral já tinha sido representada várias vezes em Londres antes da versão cinematográfica, e numa vez a personagem de Eliza foi interpretada pela actriz de Música no Coração (1965), a bela voz de Julie Andrews.

Julie Andrews não foi a escolhida para a versão cinematográfica, e contam, já li isto, que em troca lhe ofereceram o papel de protagonista em Mary Poppins, da Disney, cuja realização é do mesmo ano de My Fair Lady.

 G.B.Shaw (Dublin 1856 – 1950) 

 

Dramaturgo, romancista, contista, ensaísta e jornalista irlandês, cofundador da London School of Economics, foi também o autor de comédias satíricas de espírito irreverente e inconformista. Shaw irritou-se com o que percebeu ser a exploração da classe trabalhadora. Socialista ardente, escreveu muitos folhetos e discursos para o Socialismo Fabiano. Tornou-se um orador dedicado à promoção de suas causas, que incluíam a obtenção de direitos iguais para homens e mulheres. Foi Prémio Nobel de Literatura (1925).

Como dramaturgo as suas obras são extremamente interessantes e  ricas em diálogos de grande imaginação, criatividade e humor. Mas é um autor esquecido nos palcos do mundo e nas escolas, e acredito que muitos alunos de teatro nunca ouviram falar dele.

Entre as suas peças mais famosas destaco: “A profissão da Sra. Warren, escrita entre 1893 e 1894, que aborda o conflito entre uma mãe, que é dona de uma rede de prostíbulos, e sua filha, que desconhece a origem da fortuna familiar. Caesar and Cleopatra, peça em 4 actos, escrita em 1898, publicada em 1901, considerada o primeiro grande êxito literário do autor. E Santa Joana, peça sobre a figura militar francesa do século XV, Joana d’Arc.

Estreada em 1923, três anos após sua canonização pela Igreja Católica Romana, a peça reflete a crença de Shaw de que as pessoas envolvidas no julgamento de Joana agiram de acordo com o que achavam certo no momento histórico do julgamento. No epílogo ainda ouvimos o pensamento do autor no texto final; Ó Deus que fizestes esta bela terra, quando estará ela pronta a aceitar os teus santos? Até quando, Senhor, quanto tempo?

A versão de Pygmalion é um filme do Reino Unido de 1938, realizado por Anthony Asquith e Leslie Howard, e com guião cinematográfico de George Bernard baseado na sua peça de teatro homónima. A música é do compositor Arthur Honegger e a montagem de David Lean, realizador, mais tarde, de Lawrence de Arabia

As personagens centrais foram interpretadas por Leslie Howard e Wendy Hiller.

Leslie Howard ficou mundialmente conhecido pelo papel de Ashley Wilkes, em E Tudo o Vento Levou, de 1939. Morreu em 1943, num voo entre Lisboa e Bristol. O avião foi abatido por um esquadrão de bombardeiros nazis no Golfo da Biscaia. Leslie estava entre as 17 vítimas. A queda do avião está envolta em mistério desde então. Há várias teorias que tentam explicar o motivo pelo qual os nazis abateram um avião civil.

Na net podemos ver uma versão Holandesa de 1937, realizada por Ludwig Berger/ Productiemaatschappij: Filmex | FLM55366 | Film from the collection of EYE (Amsterdam) – https://filmdatabase.eyefilm.nl/colle, e a versão inglesa de 1938 que pode ser vista na íntegra com legendas em espanhol, George Bernard Shaw’s Pygmalion 1938 •Español•

Voltando à origem do artigo, todos sabemos o que representa o Canto do Cisne, uma morte anunciada em quase êxtase através do canto. Se realmente o filme de Cukor pode considerar-se o fim de um tipo de cinema musical, não devemos esquecer que a seguir apareceram novos musicais, basta referenciar um dos mais famosos, e também, para mim, um filme perfeito, West Side Story, de Jerome Robbins com música de Leonard Bernstein, realização de Robert Wise de 1961, e que, em 2021, teve uma nova versão de Steven Spielberg. Mas há mais, Les parapluies de Cherbourg de 1964, do francês Jacques Demy, Camelot, musical e filme de 1967, Funny Girl de 1968, Chitty Chitty Bang Bang de 1968, Cabaret de 1972, Yentl de 1983, Chicago de 2002, e as várias versões do tema Nasce uma estrela, entre elas, as de 1932, 1937, 1954, 1976, 1990 e 2000, e a última de 2018.

Nos meus felizes anos de  vida na Ilha da Madeira, convivi quase diariamente com a família dos fotógrafos da Casa Perestrello (dada a proximidade do T.M. do Funchal, onde eu estava a trabalhar) , aí pude admirar os belos retratos de B. Shaw, Wiston Churchill pintando no Reids e outros, na Casa Vicente, também meus amigos, onde contemplei a bela fotografia da Imperatriz Sissi , na sua estadia na ilha.

Não resisto a partilhar esta bela foto de G. B. Shaw, numa lição de tango. O espólio dos Perestrello faz parte do Museu de Fotografia da Madeira.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PERESTRELLOS PHOTOGRAPHOS

George Bernard Shaw a receber lições de dança de Miss Hope du Barri e de Michael Rinder, nos jardins da Quinta Pavão, Funchal | Entre 1924-12-30 e 1925-02-12

23,7 x 17,7 cm | Negativo simples, vidro | Gelatina sal de prata

MFM-AV, Inv. PER/2317

 

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