Policrises, Desglobalização, onde estamos, para onde vamos? — Texto 4 – Bem-vindo ao mundo da policrise.  Por Adam Tooze

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

5 min de leitura

Texto 4 – Bem-vindo ao mundo da policrise

Hoje, choques díspares interagem de modo que o todo é pior do que a soma das partes

 Por Adam Tooze

Publicado por em 28 de Outubro de 2022 (original aqui)

 

Os incêndios florestais na Califórnia obrigaram milhares de pessoas a evacuar as suas casas nos últimos anos. Há uma ansiedade crescente de que estejamos a caminhar para pontos de rutura ecológicos catastróficos © Robyn Beck/AFP/Getty Images

 

Pandemia, seca, inundações, mega tempestades e incêndios florestais, ameaças de uma terceira guerra mundial – como nos habituámos rapidamente à lista de choques. De tal forma que, de vez em quando, vale a pena parar para refletir sobre a estranheza da nossa situação.

Como observou recentemente o antigo secretário do Tesouro dos EUA, Lawrence Summers: “Este é o conjunto de desafios mais complexo, díspar e transversal de que me consigo lembrar nos 40 anos em que tenho prestado atenção a estas coisas”.

É claro que os mecanismos económicos conhecidos continuam a ter um enorme poder. Um pânico no mercado de obrigações derrubou um governo britânico incompetente. Foi, pode dizer-se, um caso exemplar de disciplina de mercado. Mas, para começar, porque é que os mercados de títulos de dívida estavam tão nervosos? O pano de fundo foi a gigantesca fatura dos subsídios à energia e a determinação do Banco de Inglaterra em desfazer a enorme carteira de obrigações que tinha acumulado para combater a pandemia de Covid-19.

Com os choques económicos e não-económicos a envolverem todos os intervenientes, não é de admirar que um termo pouco familiar esteja a ganhar força – a policrise.

Um problema torna-se uma crise quando desafia a nossa capacidade de a poder enfrentar  e, por conseguinte, ameaça a nossa identidade. Na policrise, os choques são díspares, mas interagem de tal forma que o todo é ainda mais avassalador do que a soma das partes. Por vezes, temos a sensação de estar a perder o sentido da realidade. Estará o poderoso Mississipi realmente a secar e a ameaçar cortar as explorações agrícolas do Midwest da economia mundial? Os motins de 6 de janeiro ameaçaram realmente o Capitólio dos EUA? Estaremos realmente a ponto de separar as economias do Ocidente da China? Coisas que antes pareciam fantasiosas são agora factos.

Isto é um choque. Mas até que ponto é realmente novo? Pensemos em 2008-2009. Vladimir Putin invadiu a Geórgia. John McCain escolheu Sarah Palin como sua vice-presidente na corrida à Casa Branca. Os bancos estavam a cair. A ronda de Doha da Organização Mundial do Comércio foi um fracasso, tal como as negociações sobre o clima em Copenhaga no ano seguinte. E, para cúmulo, a gripe suína andava à solta.

O antigo presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, a quem devemos a atualidade do termo policrise, pediu-o emprestado em 2016 ao teórico francês da complexidade Edgar Morin, que o utilizou pela primeira vez na década de 1990. Como o próprio Morin insistiu, foi com o alerta ecológico do início dos anos 70 que um novo sentido de risco global abrangente entrou na consciência pública.

Será que temos estado a viver uma policrise durante todo o tempo? Devemos ter cuidado com a complacência.

Nos anos 70, quer se tenha sido um eurocomunista, um ecologista ou um conservador angustiado, ainda se podia atribuir as preocupações a uma única causa – o capitalismo tardio, o crescimento económico excessivo ou insuficiente, ou o excesso de direitos. Uma causa única significava também que se podia imaginar uma solução abrangente, fosse ela a revolução social ou o neoliberalismo.

O que torna as crises dos últimos 15 anos tão desorientadoras é o facto de já não parecer plausível apontar uma única causa e, consequentemente, uma única solução. Enquanto na década de 1980 ainda se podia acreditar que “o mercado” iria orientar eficazmente a economia, gerar crescimento, desativar questões políticas controversas e vencer a guerra fria, mas quem é que faria a mesma afirmação hoje? Acontece que a democracia é frágil. O desenvolvimento sustentável exigirá uma política industrial polémica. E a nova guerra fria entre Pequim e Washington está apenas a começar.

Entretanto, a diversidade de problemas é agravada pela crescente ansiedade de que o desenvolvimento económico e social nos esteja a empurrar para pontos de rutura ecológicos catastróficos.

O ritmo da mudança é impressionante. No início da década de 1970, a população mundial era menos de metade do que é atualmente e a China e a Índia eram extremamente pobres. Atualmente, o mundo está organizado, na sua maior parte, em Estados poderosos que já percorreram um longo caminho para abolir a pobreza absoluta e que geram um produto interno bruto global de 90 milhões de milhões de dólares e mantém um arsenal combinado de 12.705 armas nucleares, ao mesmo tempo que esgota o orçamento de carbono ao ritmo de 35 mil milhões de toneladas métricas de CO₂ por ano. Imaginar que os nossos problemas futuros serão os de há 50 anos é não compreender a velocidade e a escala da transformação histórica.

Então, qual é a perspetiva? Num mundo que se visse dominado por uma única fonte fundamental de tensão, poder-se-ia imaginar uma crise climática da qual emergiria uma resolução. Mas esse tipo de cenário wagneriano já não parece plausível. A história moderna apresenta-se como uma história de progresso através da improvisação, da inovação, da reforma e da gestão de crises. Evitámos várias grandes depressões, criámos vacinas para travar as doenças e evitámos a guerra nuclear. Talvez a inovação também nos permita dominar as crises ambientais que se avizinham.

Talvez. Mas trata-se de uma corrida incessante, porque o que o combate à crise e as soluções tecnológicas raramente fazem é abordar as tendências subjacentes. Quanto mais bem sucedidos formos a lidar com a situação, mais a tensão aumenta. Se você acha que os últimos anos foram stressantes e desorientadores para qualquer de nós, se a nossa vida já foi perturbada, é altura de estarmos preparados. A nossa caminhada na corda bamba, sem fim, só se  vai tornar mais precária e enervante.

 

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O autor: Adam Tooze [1967-] é professor de História e diretor do Instituto Europeu na Universidade de Columbia e autor de Statistics and the German State, 1900–1945: The Making of Modern Economic Knowledge (2001), The Wages of Destruction: The Making and Breaking of the Nazi Economy (2006), The Deluge: The Great War, America and the Remaking of the Global Order, 1916–1931 (2014), Crashed: How a Decade of Financial Crises Changed the World (2018), Shutdown: How Covid Shook the World’s Economy (2021).

 

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