Policrises, Desglobalização, onde estamos, para onde vamos? — Texto 6 – Policrise: pensando na corda bamba.  Por Adam Tooze

Seleção de Júlio Marques Mota e tradução de Francisco Tavares

10 min de leitura

Texto 6 – Policrise: pensando na corda bamba

 Por Adam Tooze

Publicado por nº 165, em 29 de Outubro de 2022 (original aqui)

 

Os incêndios florestais na Califórnia obrigaram milhares de pessoas a evacuar as suas casas nos últimos anos. Há uma ansiedade crescente de que estejamos a caminhar para pontos de rutura ecológicos catastróficos © Robyn Beck/AFP/Getty Images

 

Policrise é um termo que encontrei pela primeira vez quando estava a terminar [o livro] Crashed em 2017. Foi invocado por Jean-Claude Juncker para descrever a situação perigosa da Europa no período após 2014. No espírito do “Eurotrash” [n.t. lixo europeu, termo usado para caracterizar certos europeus, particularmente aqueles da alta-sociedade, elegantes e ricos], apreciei sobretudo a ideia de escolher um “conceito encontrado” nesta fonte particular. Sobre Juncker vejam o maravilhoso retrato de Nick Mulder do “Homo Europus”. Descobriu-se que Juncker obteve a ideia do teórico francês da complexidade e do veterano da resistência, Edgar Morin, mas isso é uma outra história.

Entretanto, policrise emergiu como um termo no subcampo dos estudos da arte na União Europeia, tendo sido retomado, entre outros, por Jonathan Zeitlin.

Considerei a ideia de policrise interessante e oportuna porque o prefixo “poli” chamava a atenção para a diversidade dos desafios, sem especificar uma única contradição dominante ou fonte de tensão ou disfunção.

O termo parecia ainda mais relevante diante do choque da COVID. Empreguei-o em Shutdown para contrastar essa visão europeia bastante indeterminada da crise, por um lado, com a visão americana, mais compacta, para não dizer solipsista, de uma grande crise nacional centrada na figura de Donald Trump e, por outro, com a perspectiva de Chen Yixin, um dos principais pensadores do aparato de segurança de Xi Jinping.

Shutdown saiu em setembro de 2021. Desde então tenho explorado o conceito de policrise nos meus boletins. E ele começou a ganhar um uso cada vez maior.

Independentemente de qualquer texto da minha lavra, em abril de 2022 o Cascade Institute publicou um interessante relatório sobre o tema escrito por Scott Janzwood e Thomas Homer-Dixon. Aí, definiram policrise da seguinte forma:

Definimos uma policrise global como qualquer combinação de três ou mais riscos sistémicos em interação e com o potencial de causar uma falha em cascata e descontrolada dos sistemas naturais e sociais da Terra, que degradem de forma irreversível e catastrófica as perspectivas da humanidade.

Um risco sistémico é uma ameaça emergente dentro de um sistema natural, tecnológico ou social com impactos que se estendem além desse sistema para pôr em perigo a funcionalidade de um ou mais sistemas. Uma policrise global, caso ocorra, herdará as quatro propriedades centrais dos riscos sistémicos – extrema complexidade, alta não linearidade, causalidade transfronteiriça e profunda incerteza – ao mesmo tempo que exibe sincronização causal entre os riscos.

Eles ofereceram até um resumo diagramático em que distinguem quatro categorias: risco sistémico, risco catastrófico global, policrise e policrise global:

 

Pegando no que vem no livro Shutdown, alguns interessantes artigos no substack empregaram o termo já no início de 2022. O maravilhoso blog cultural Antereisis articulou a condição psicológica radical em que nos encontramos.

Die beengte Welt, der dauerhafte Alarm, die Hysterie, Panik und Paranoia derjenigen, die tatsächlch verfolgt sind: was als “Polykrise” subsummiert worden ist, kann durch sprachliche Artikulation und Rationalisierung allenfalls punktuell aber nie hinreichend kompensiert werden. Das Fortsehen, Forthören und Fortleben – die Apokalypse-Blindheit – sind nicht Ausdruck einer Verweigerungshaltung oder politischen Passivität, sondern mechanische Konsequenz einer Assymmetrie zwischen universalen Herausforderungen und individuellen Bewältigungskapazitäten.

Tradução (livre):

O mundo confinante, o estado de alarme permanente, a histeria, o pânico e a paranoia daqueles que são efetivamente perseguidos: o que foi subsumido na policrise só pode ser parcialmente e nunca totalmente compensado pela articulação e racionalização linguísticas. Ver o passado, ouvir o passado, viver o passado – a cegueira para o apocalipse – não são uma expressão de recusa ou passividade política, mas consequências mecânicas de uma assimetria entre desafios universais e capacidades individuais de enfrentamento.

Christopher Hobson adotou o termo policrise em várias postagens interessantes na sua plataforma substack e foi coautor de um artigo com Matthew Davies: An embarrassment of changes: International Relations and the COVID-19 pandemia [Uma perturbação de mudanças: Relações Internacionais e a pandemia da COVID-1] – o qual está enquadrado por esta ideia de crise múltipla.

Para eles, “a policrise é uma maneira de capturar a mistura emaranhada de desafios e mudanças que interagem de perto umas com as outras, dobrando-se, desfocando-se e amplificando-se mutuamente”.

Nas últimas semanas, Larry Summers falou sobre policrise durante um almoço com Martin Wolf. E o termo também foi adotado pelos meus amigos Tim Sahay e Kate Mackenzie como título do seu excelente novo blog Phenomenal World. Tudo isso fez com que parecesse um tema óbvio para ser apresentado na nova coluna no Financial Times.

O ensaio no FT foi um texto curto – originalmente redigido para ter apenas 750 palavras. Nesse curto espaço, concentrei-me em três aspectos:

(1) Definir o conceito de policrise em termos simples e intuitivos;

(2) Enfatizar a diversidade de fatores causais implicados pelo termo “poli”;

(3) e destacar a novidade da nossa situação atual.

Há dois aspectos da novidade que destaco no artigo do FT: em primeiro lugar a nossa incapacidade de entender a situação atual como resultado de um fator causal único e específico; em segundo lugar, é preciso notar a extraordinária escala e amplitude do desenvolvimento global, especialmente nos últimos 50 anos, que torna provável, de acordo com os esquemas e modelos cognitivos que temos à nossa disposição, que estamos prestes a chocar com pontos críticos de inflexão.

O leitor poderá dizer: você não está a contradizer-se? O desenvolvimento não é precisamente o fator causal único que funciona como o motor real de todas as nossas crises? Nessa medida, não há policrise, mas apenas uma grande crise?

Embora essa resposta expresse uma nostalgia por um mundo mais simples com a qual compartilho plenamente – eis que estou tão atraído quanto qualquer outro pela ideia de história como o gigantesco desdobramento do desenvolvimento do “espírito concreto” –, a objeção não leva em conta a pura diversidade de crises no mundo atualmente.

Em segundo lugar e mais importante, levanta a questão: realmente sabemos o que é desenvolvimento ou crescimento? Como Bruno Latour nos obrigou a reconhecer, não é de todo óbvio que compreendamos a nossa própria situação. De fac to, como ele argumentou de forma convincente em We Have Never Been Modern, o relato da modernidade sobre si mesma é construído em torno de pontos cegos especificamente no que diz respeito à mobilização híbrida de recursos materiais e atores e o funcionamento da própria ciência, que definem a grande narrativa desenvolvimentista.

 

Sem dúvida, os amigos marxistas serão tentados a dizer que tudo se resume ao capitalismo e seu desenvolvimento assolado pela crise. Ora, no mais tardar na década de 1960, a teoria marxista mais sofisticada já havia abandonado as teorias monistas da crise. E atualmente, o desafio óbvio para os críticos marxistas é explicar como a China, liderada pelo PCC, emergiu como o impulsionador mais consequente do antropoceno. Isso não quer dizer que a teoria marxista não seja capaz de oferecer uma resposta, mas, para ser convincente, seria uma teoria marxista da complexidade e da policrise, algo para o qual pensadores como Louis Althusser e Stuart Hall já haviam apontado o caminho.

O que eu quis destacar no artigo publicado no FT foi esse ponto duplo: tanto o facto de termos todos os motivos para pensar que estamos num ponto limite dramático, mas também que a nossa necessidade de empregar um termo tão inespecífico como este de “policrise” indica a nossa incapacidade de compreender a situação atual com confiança e clareza conceptual, que alguma vez poderíamos ter esperado.

Implicitamente, estou aqui a referir-me de modo resumido a uma tese da filosofia social e da teoria social que remonta ao que Reinhart Koselleck chamou de “Sattelzeit” na viragem do século XVIII para o XIX, que, nesse momento, viu o surgimento da consciência histórica moderna no Ocidente. O arco dessa história intelectual definiu o pensamento político, histórico, econômico e social pelo menos até meados do século XX. A partir da década de 1960 uma série de pensadores – Arendt, Anders, Bloomberg, Foucault, Althusser, ou seja, apenas alguns dos pensadores que me vêm à mente – reconheceram a necessidade de repensar e atualizar as categorias herdadas da análise social e da filosofia política à luz do desenvolvimento contemporâneo.

Nas décadas de 1970 e 1980, esse diagnóstico foi enquadrado por uma crítica ambiental cada vez mais poderosa, que assumiu uma forma cada vez mais abrangente na consciência nascente do antropoceno. Desde os anos 2000, à medida que o desenvolvimento global avançava com o crescimento económico da China, que mudava o mundo, enfrentamos cada vez mais realidades que só podem ser descritas em termos que antes pareciam implausíveis ou grotescos.

Ao escrever o pequeno artigo do FT sobre a policrise, tive Bruno Latour muito em mente e isso mostra a minha dupla ênfase na heterogeneidade de forças em ação atualmente e no desafio conceptual que enfrentamos.

A lógica da acumulação de riscos, por outro lado, aponta menos para Latour – cuja descrição desse processo era bastante vaga – e mais obviamente para Ulrich Beck e a sua visão de “sociedade de risco”. Para mim, Beck foi um ponto de referência chave em 2020, quando estávamos na presença do choque da pandemia do Covid. O ponto que uma versão Beckiana do meu texto no FT poderia ter colocado em primeiro plano é o grau em que a policrise emerge na era atual fora dos nossos esforços de gestão de crises. O que Beck nos ensinou foi que o risco não é mais, em qualquer sentido simples,” natural”, mas um fenómeno de segunda natureza.

A minha leitura beckiana da policrise pode parecer-se um pouco com a versão resumida daquela produzida por Christopher Hobson e Matthew Davies no substack de Hobson.

Uma policrise pode ser pensada como tendo as seguintes propriedades:

(1) Múltiplas crises separadas acontecendo simultaneamente. Esta é seguramente a característica mais imediata e compreensível.

(2) Ciclos de realimentação, nos quais as crises individuais interagem de maneiras previsíveis e inesperadas umas com as outras. Isso aponta para as maneiras pelas quais essas crises separadas se relacionam umas com as outras.

(3) Amplificação, em que essas interações fazem com que as crises se ampliem ou acelerem, gerando uma sensação de descontrole. A maneira como esses problemas separados se relacionam e se conectam funciona para exacerbar e aprofundar as diferentes crises.

(4) Sem limites, pois cada crise deixa de estar claramente demarcada, tanto no tempo como no espaço, à medida que diferentes problemas surgem e se fundem. Torna-se cada vez mais difícil distinguir onde termina uma questão e começa outra.

(5) Sobreposições, uma dinâmica que atribuo à análise de Yixin, em que as preocupações dos grupos de interesse relacionadas com cada crise distinta se sobrepõem “para criar problemas sociais em camadas: problemas atuais com problemas históricos, problemas de interesse tangíveis com problemas ideológicos, problemas políticos com problemas não políticos; todos cruzando-se e interferindo uns com os outros”.

(6) A ruptura do significado compartilhado, o que decorre do facto de que as crises, assim como as formas complexas com que interagem entre si, são entendidas de forma diferente pelas pessoas. À medida que cada crise se confunde e se conecta às outras, torna-se mais difícil identificar um escopo e uma narrativa claros para cada crise distinta, bem como chegar a um acordo com todas as interações entre diferentes questões.

(7) Propósitos cruzados, em que cada crise individual pode impedir a resolução de outra crise, em termos de atenção e recursos exigidos, e a medida em que elas se entrelaçam torna difícil distingui-las e priorizá-las.

(8) Propriedades emergentes, o conjunto dessas dinâmicas, todas elas com alto grau de reflexividade, supera a soma total das suas partes. A policrise é, em última análise, muito mais do que uma coleção de crises menores e separadas. Em vez disso, é algo como uma versão sociopolítica do “efeito Fujiwhara”, um termo técnico usado para descrever quando dois ou mais ciclones se juntam, se transformam e se fundem.

Hobson publicou um artigo interessante sobre o último livro de Ulrich Beck, The Metamorphosis of the World.

Não me havia percebido antes, mas Metamorphosis também aparece com destaque no título do livro sobre a pandemia do COVID de Bruno Latour, After Lockdown: A Metamorphosis. Eis aí um tema ao qual será necessário voltar.

Definir a policrise nesses termos bastante grandiosos e abstratos corre o risco de ser insípido. Configura-se um pouco como estando excessivamente na moda. Mas esse parece ser um risco que vale a pena correr, dado o drama da situação em que nos encontramos. Precisamos pensar “grande”. Ou melhor, precisamos aprender a transpor o vazio entre o muito grande e o muito particular, o micro e o macro – empregando aqui outro tema latouriano.

O que toda esta conversa de grandes processos sociais e movimentos da mente não deve obscurecer é até que ponto a crise atual é também uma questão de identidade, escolha e ação. Por mais que seja uma questão de sociologia, teoria social e grande amplitude histórica, é também uma questão de psicologia, tanto no nível grupal e muito íntimo, quanto ao nível de política.

A policrise afeta-nos a todos os níveis. E se você quer levar a sério o problema de pensar in medias res, não pode colocar entre parênteses a questão da psicologia. Por enquanto, no entanto, vou adiar essa questão.

No entanto, a questão política não pode deixar de ser sinalizada nesta nota. E, nesse ponto, vou dar crédito a Anusar Farooqui, também conhecido como @policytensor.

A tensão do momento atual não é, afinal, apenas o resultado de processos de desenvolvimento de longo prazo ou de mudanças ambientais. É massivamente exacerbada por tensão geopolítica resultante de decisões estratégicas tomadas pelas elites dos Estados nacionais. Algumas dessas elites foram eleitas, outras não.

O que é característico do momento atual – e é sintomático da policrise – é que os atores decisivos na Rússia, China e Estados Unidos, as três maiores potências militares, estão todos definindo as suas posições como se as suas próprias identidades estivessem em jogo.

Na nota curta no FT apontei para a Guerra Fria entre a China e os EUA –um termo abreviado inadequado, admito-o. Passei, então, a argumentar que a história recente foi moldada pela improvisação, mudanças de rumo, inovação e combate a crises. Trata-se de uma descrição justa ou apropriada? Pode-se realmente dizer que o governo Biden, os chineses, o regime de Putin estão a lutar contra a crise? Ou eles estão simplesmente a escalar as tensões?

É certamente uma questão de dizer sim a essa polaridade; e que são interdependentes. Cada uma das grandes potências insistirá que está a agir defensivamente (lutando contra a crise no sentido amplo). Mas o que isso implica, se se sente que interesses fundamentais estão em jogo, é uma escalada, até mesmo ao ponto de chegar a uma guerra aberta ou arriscar um confronto atómico. É como a clássica Guerra Fria, mas só que pior, porque todos se sentem sob uma pressão verdadeiramente existencial e têm a sensação de que o relógio está a correr. Se ninguém acredita com confiança que tem o tempo do seu lado – e quem tem esse luxo na era da policrise? – cria uma situação muito perigosa na verdade.

Obviamente, estes são temas enormes e estou ansioso para usar diferentes plataformas para explorá-los em edições futuras, tanto aqui neste blog, como noutros lugares em que tenho oportunidade de escrever.

Pode ser uma caminhada sem fim na corda bamba. Mas pelo menos não andamos sozinhos!

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O autor: Adam Tooze [1967-] é professor de História e diretor do Instituto Europeu na Universidade de Columbia e autor de Statistics and the German State, 1900–1945: The Making of Modern Economic Knowledge (2001), The Wages of Destruction: The Making and Breaking of the Nazi Economy (2006), The Deluge: The Great War, America and the Remaking of the Global Order, 1916–1931 (2014), Crashed: How a Decade of Financial Crises Changed the World (2018), Shutdown: How Covid Shook the World’s Economy (2021).

 

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