PALCO 243 – BARBA AZUL – por Roberto Merino

 

 

Barba Azul é a personagem central de um famoso conto, que nada tem de infantil, sobre um nobre violento e a sua esposa curiosa. Com o título de “La Barbe-Bleue”, foi escrito por Charles Perrault e publicado pela primeira vez no livro que ficou conhecido como “Les Contes de ma Mère l’Oye” (“Contos da Mamãe Gansa”), de 1697.

Do argumento: Barba Azul era um nobre rico, de aspeto assustador por ser muito feio, com uma barba azul horrível. Ele já se tinha casado seis vezes, mas ninguém sabia o que tinha acontecido às esposas, que desapareceram. Quando o Barba Azul visitou um de seus vizinhos e pediu para casar com uma de suas filhas, a família ficou apavorada. Mas Barba Azul acabou por convencer a filha mais nova, e foram viver no castelo.

Pouco tempo depois, Barba Azul avisou a sua jovem esposa de que iria viajar por uns tempos; e entregou-lhe todas as chaves da casa, incluindo a de um pequeno quarto em que ele a tinha proibido de entrar. Logo que ele se ausentou, a mulher começou a sentir grande curiosidade sobre o quarto proibido. Após alguns dias a pensar no que havia haveria, a mulher resolveu bisbilhotar o que havia no quarto, e descobriu o segredo macabro do marido: o chão do quarto estava todo manchado de sangue, e os corpos das ex-esposas do Barba Azul estavam pendurados na parede. Diante do quadro macabro, deixou cair a chave, que ficou manchada de sangue. Tentou limpá-la inutilmente, pois a chave era encantada (assinalando a presença do elemento maravilhoso no conto). Apavorada fugiu do quarto.

Quando o Barba Azul regressou, percebeu imediatamente o que a sua esposa tinha feito. Cego de raiva, ameaçou-a, mas ela conseguiu escapar e trancar-se junto da irmã, na torre mais alta do castelo. Quando o Barba Azul, armado com uma espada, tentava derrubar a porta, chegaram dois irmãos das raparigas. Os irmãos mataram o nobre enlouquecido e salvaram as suas parentes.

Sobre esta personagem existem várias histórias sobre a autenticidade da sua existência: entre elas, lendas relacionadas com indivíduos históricos da Britânia, ou aquela mais famosa que atribui a esta personagem a pessoa de Gilles de Rais, (cerca do ano 1405 –1440), cavaleiro e senhor da Bretanha, Anjou e Poitou, líder do exército francês e companheiro de armas de Joana d’Arc. Na designação moderna, este seria um serial killer confesso de uma série de assassinatos de crianças, com vítimas chegando a centenas. Os assassinatos terminaram precisamente no ano de 1440.

Depois de julgado pelos seus crimes foi condenado a ser executado por enforcamento e queimado na fogueira, na quarta-feira, 26 de outubro. Seu corpo foi esquartejado antes de ser consumido pelas chamas.

Lembrei-me deste conto, que, volto a repetir, é pouco ou nada infantil, quando li as notícias de que Gisèle Pelicot depôs pela última vez em tribunal. Acusada de não conseguir condenar totalmente o ex-marido, garantindo que as ações sofridas não têm perdão.

“A defesa do agressor, seu marido, tentou descredibilizar a mulher violada em série acusando-a de não condenar totalmente o seu principal agressor. Foi uma manhã tensa e agitada no tribunal de Avignon, no sul de França, durante o depoimento final de Gisèle Pelicot, a mulher que foi drogada e violada durante dez anos pelo seu marido e dezenas de homens que se deslocavam à casa do ex-casal para consumar as agressões sexuais que decorriam enquanto estava inconsciente”. (Observador- Mariana Ferreira- 19-11-24)

As primeiras notícias sobre este caso começaram a aparecer no mês de setembro:

“Gisèle Pelicot foi violada por mais de 80 homens entre 2010 e 2020. O crime que está a chocar a França envolveu um planeamento detalhado dos atos de violência sexual pelo próprio marido. Dominique Pelicot drogou sucessivamente a mulher, colocando-a num estado de inconsciência total, e convidou estranhos, que conhecia online, para a violarem na casa de ambos. “Pu-la a dormir, ofereci-a e filmei”, confessou o agressor quando foi detido. O julgamento do caso começou esta segunda-feira no Tribunal de Avignon, no sul de França, e prevê-se que dure quatro meses. Dominique Pelicot, de 71 anos, e os outros 50 arguidos podem ser condenados a 20 anos de prisão se forem condenados pelo crime de violação agravada. Os investigadores do caso não conseguiram, até agora, identificar e localizar mais de 30 outros homens que surgem nas gravações dos atos de violência sexual”. (Observador-Marina Ferreira-4/9/24)

Nesta história real haverá quartos fechados, chaves, e manchas de sangue delatoras. Todo o processo de violação consecutiva é uma enorme mancha de vergonha inimaginável numa sociedade que se julga evoluída e culta como a francesa que “banaliza a violação!

Poderão os tribunais franceses fazer honra e justiça a esta mulher, Gisèle, que, ao contrário do conto, tem nome?

Mais, últimas notícias do dia de ontem, 25 de novembro, contra a Violência Doméstica:

A APAV registou 15 mil crimes de violência doméstica no primeiro semestre do ano. A Associação Portuguesa de Apoio à Vítima registou 15 mil crimes de violência doméstica no primeiro semestre do ano. Este ano já foram mortas 18 pessoas pelos companheiros.

A Associação Portuguesa de Apoio à Vítima  alerta que as situações de homicídio e pedidos de ajuda por violência doméstica aumentam no Natal e passagem de ano, por causa da pressão das festas natalícias.

E do jornal espanhol El País:

“Cada día, 140 mujeres y niñas son asesinadas por su pareja o un miembro de su familia, lo que significa un femicidio cada 10 minutos, según un informe de ONU Mujeres y la Oficina de las Naciones Unidas contra la Droga y el Delito (UNODC), publicado este lunes, con motivo del Día Internacional para la Eliminación de la Violencia contra las Mujeres.

En todo el mundo, 85.000 mujeres fueron asesinadas en 2023 y el 60% de estos homicidios, es decir, aproximadamente 51.000, fueron cometidos por la pareja o por un familiar, cifra superior a los 48.800 registrados en 2022, afirma el estudio Femicidios en 2023”. Beatriz Lecumberri- Madrid – 25 NOV 2024T

Voltando ao ponto de partida, sobre o tema original de Barba Azul, existem várias versões, e vários trabalhos a partir desta personagem, para mencionar alguns: a ópera O Castelo de Barba Azul, ópera em um ato, a única de autoria do húngaro Béla Bartók, composta em 1911. O libreto foi escrito pelo poeta Béla Balázs, também húngaro e amigo de Bartók. A obra acentua os aspetos simbolistas, utilizando apenas dois cantores acompanhados por uma grande orquestra, de mais de noventa músicos. Utilizei partes deste texto e da música, no conto dos irmãos Grimm na minha adaptação de À Procura do Medo para a encenação com o teatro Art´Imagem, numa tradução de Ilse Losa.

Sempre consequente com a sua ironia e irreverência, Jacques Offenbach, o célebre compositor francês, compõe a sua obra Barbe-bleue, uma ópera bouffe, ou opereta, em três atos (quatro cenas) a partir de um libreto francês de Henri Meilhac e Ludovic Halévy. Tive a feliz oportunidade de ver uma versão desta opereta na Ópera Cómica de Berlim.

Um dos filmes mais incompreendidos de Charles Chaplin, Monsieur Verdoux (em Portugal O Barba-Azul) de 1947, uma comédia de Humor Negro, realizada e protagonizada por Charlie Chaplin, foi uma crítica severa e polémica ao capitalismo e ao militarismo, associando os seus mentores a assassinos comuns e considerando-os piores do que estes. Enquanto aguarda execução pelos seus crimes, Verdoux diz a um jornalista: “Um assassinato faz um vilão… milhões um herói. Os números santificam, meu bom amigo.” O argumento do filme inspira-se nos factos reais da história do assassino em série Henri Désiré Landru, condenado à morte em 21 de novembro de 1921 e executado na guilhotina em 25 de fevereiro de 1922.

  À procura do Medo- Teatro Art´Imagem 1986

 

 

 

 

 

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