(Boletim nº 139 – Dezembro 2024)
5 de Dezembro
A vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais norte-americanas teve um efeito imediato nas bolsas europeias e asiáticas. As consequências políticas vão levar mais tempo a evidenciar-se. No caso do Sahara Ocidental, porém, as perspectivas são ameaçadoras.

No dia seguinte às eleições o France24 noticiava que «quase todas as bolsas europeias, com excepção da de Madrid, reagiram com subidas à vitória do antigo presidente nas eleições presidenciais dos E.U.A. (…). As restantes bolsas do continente abriram no verde, com Londres a subir 0,82%, Milão 0,58%, Paris 0,51% e Frankfurt 0,44%. (…).
«Na Ásia, o índice Nikkei, principal indicador da Bolsa de Tóquio e referência asiática, fechou na quarta-feira com um ganho de 2,61%, perante a confirmação do regresso dos republicanos à Casa Branca. No entanto, outros mercados da região asiática registaram resultados adversos, nomeadamente os mercados chineses que sofreram com o resultado: o índice de referência da Bolsa de Xangai caiu 0,09 % e a Bolsa de Shenzhen cedeu 0,35 %.
«Nas matérias-primas, o ouro está a cair 0,52% para 2.726 dólares por onça e o petróleo também desceu. O Brent, a referência na Europa, desceu 1,71% e o preço do barril está cotado a 74,23 dólares, enquanto a referência norte-americana, o West Texas Intermediate (WTI), também desceu 1,64% para 70,82 dólares na pré-abertura.
«O mercado das criptomoedas também está entusiasmado e o bitcoin, a criptomoeda mais popular, subiu até 75.389 dólares após a confirmação do candidato republicano, que prometeu fazer dos Estados Unidos “a super-potência mundial do Bitcoin”. (…).»
Consequências políticas
A mudança de sentido político do discurso de Mohamed VI — pronunciado em 6 de Novembro por ocasião da celebração da invasão do Sahara Ocidental – relativamente à Argélia foi encarada por alguns comentadores como sendo já o resultado da eleição de Trump. Segundo Makhlouf Mehenni, este discurso «é a antítese dos seus anteriores nas suas passagens sobre a Argélia. (…). Desta vez, quebrou a regra e mudou completamente o tom em relação à Argélia, sem a nomear.»
«O que fez o Rei mudar de opinião?» pergunta o articulista. Que responde: «A resposta reside obviamente na situação internacional. Não é segredo que o discurso real foi proferido no mesmo dia em que Donald Trump anunciou a sua vitória nas eleições presidenciais norte-americanas. Todos os observadores atribuem a audácia do regime marroquino nos últimos anos ao sentimento de se ter tornado intocável desde que aceitou o acordo oferecido pelo antigo (e agora futuro) Presidente dos EUA em Dezembro de 2020, nomeadamente a normalização das relações com Israel em troca do reconhecimento pelos EUA da “soberania marroquina” sobre o Sahara Ocidental. (…). Para os observadores, os marroquinos não teriam sido tão audaciosos sem o sentimento de impunidade cultivado desde o acordo triangular [E.U.A.-Marrocos-Israel] concebido por Jared Kushner, genro de Donald Trump.»
Como lembra o jornalista Francisco Carrión, em Janeiro de 2021 «Donald Trump recebeu a Ordem de Maomé, a mais alta condecoração da monarquia alauita como “recompensa” por ter reconhecido a “marroquinidade” do Sahara Ocidental.»
A Administração Biden que se lhe seguiu não reverteu a decisão de Trump como, aliás, era previsível. Mas a diplomacia estado-unidense adoptou uma postura de considerar que aquela tinha sido apenas «uma das muitas abordagens possíveis».
«Em maio de 2023, na sequência de uma conversa entre o secretário de Estado Antony Blinken e o seu homólogo marroquino Naser Burita, Washington descreveu o plano de autonomia como “uma das muitas abordagens possíveis para responder às aspirações do povo do Sahara Ocidental”. (…).
«“Esta vitória é um belo reconhecimento do elevado nível de patriotismo de Trump e do seu empenho inabalável na defesa dos interesses dos Estados Unidos da América, amigo e aliado de longa data do Reino de Marrocos”, refere a mensagem de felicitações enviada pelo monarca alauita e divulgada pela Casa Real. (…).
«No seu discurso por ocasião do aniversário da Marcha Verde, Mohamed VI não mencionou directamente Trump mas saudou “o crescente reconhecimento internacional do Sahara como território marroquino e o amplo apoio à iniciativa de autonomia” (…).»
Haizam Amirah Fernández, especialista do Médio Oriente e Norte de África, disse ao El Independiente que «A grande questão que se coloca agora (…) é “até que ponto este reconhecimento será aprofundado pela abertura de consulados no Sahara Ocidental ou por manobras militares conjuntas no território”.»
Isaías Barreñada, Professor de Relações Internacionais na Faculdade de Ciências Políticas e Sociologia da Universidade Complutense de Madrid, em declarações a Miguel Muñoz para o jornal Público, diz que «se há uma coisa que caracteriza Trump, é o facto de se preocupar pouco com o direito ou as normas internacionais. “Isso pode ser um problema para os saharauis”, afirma.»
Mas esta não é, acrescentamos nós, uma política específica de Trump. Na apresentação do artigo de Anne-Cécile Robert – «Da “ordem assente em regras”» – no número de Novembro da edição portuguesa do Le Monde Diplomatique é salientado que «Os ocidentais invocam agora, em vez do direito internacional e da Carta das Nações Unidas, um novo sistema que supostamente pacificará as relações entre os Estados. Mas esta “ordem multilateral”, vaga e desprovida de bases teóricas sólidas, deverá sobretudo perpetuar o controlo que os Estados Unidos e os seus aliados exercem sobre o funcionamento do mundo.»
Muñoz cita também «Laura Casielles, jornalista, poetisa e investigadora», que «recorda ainda que, há algum tempo, têm vindo a ser descobertos documentos históricos confidenciais que revelam o importante papel desempenhado pelos EUA na altura do abandono [do Sahara Ocidental por Espanha]. “É um lembrete de que a presença dos EUA em todo o conflito não é nova, e com Trump pode ser um novo e terrível episódio”, acrescenta.»
Ignacio Cembrero, «jornalista, correspondente e escritor especializado na cobertura do Magrebe» também se debruçou sobre as consequências para o Sahel da reeleição de Donald Trump.
«Quando o monarca alauita afirma no seu telegrama de felicitações (…) que espera “uma cooperação ainda maior e uma parceria estratégica mais alargada”, a primeira coisa que deve ter em mente são as tarefas que Trump deixou pendentes para o seu sucessor, Joe Biden, e que este não cumpriu: a abertura de um consulado norte-americano em Dakhla (…) e que as manobras militares do African Lyon, que são conduzidas pelos exércitos marroquino e norte-americano, incluam o Sahara Ocidental.
«Do ponto de vista espanhol, após a vitória de Trump e o apoio do Presidente Emmanuel Macron a Mohammed VI, teme-se que a diplomacia marroquina seja novamente encorajada, como aconteceu no final de 2020. A Espanha é a antiga potência colonial e quaisquer gestos que possa fazer são de particular importância aos olhos de Rabat. A primeira exigência das autoridades marroquinas é transferir o controlo do espaço aéreo do Sahara Ocidental, que é exercido a partir de Las Palmas desde 1975. A próxima seria que o governo espanhol imitasse Trump e Macron.»
Cembrero termina citando Aboubakr Jamai, professor marroquino do American College of the Mediterranean e decano da sua secção em Espanha: «A diplomacia norte-americana colocará a partir de agora “ainda mais obstáculos à autodeterminação” dos saharauis a partir da sua posição de membro permanente do Conselho de Segurança da ONU.»
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