Em memória de Rui Namorado
Coimbra, 14 de Janeiro de 2024
Hoje morreu um amigo, Rui Namorado, um camarada de muitos anos de luta em comum, um camarada de outrora quando no PS ainda se sonhava com um outro tipo de sociedade que não esta, cunhada claramente de sociedade neoliberal.
Eram tempos outros, tempos de esperança, tempos de debate, onde o Rui foi peça central numa secção chamada Secção de Educação, de que eu acabei por ser também um dos secretários-coordenadores. Essa secção era também uma tertúlia, de reuniões frequentes, de debates por vezes intensos e onde reinava a franqueza.
Por outro lado, esta secção era também uma secção incómoda ao sistema interno do PS, incómoda sobretudo ao aparelho que Sócrates quereria controlar milimetricamente. Tão incómoda era essa secção que foi sujeita a um violento hold-up pelos homens de Sócrates. Houve eleições nessa secção e perdemos por um voto… porque alguém que era nosso apoiante se atrasou a votar e quando o quis fazer ficou com o carro parado na estrada. Foi assim que se evitou o empate técnico, e isto numas eleições onde muitos dos eleitores da lista dos fiéis a Sócrates, a lista vencedora, se tinham inscrito na secção e nas nossas costas para apenas votarem e nem sequer sabiam bem aonde e em quem! Ganharam por um voto e espantosamente fomos todos postos na rua imediatamente a seguir à contagem. Após a contagem, o novo secretário-coordenador da secção, Linhares de Castro, senta-se na mesa e diz-nos, estendendo a mão direita e apontando com o dedo para a porta da rua: isto agora é nosso. Rua!
Depois disto, pessoalmente, nunca mais voltei à sede distrital do PS, porque, para mim a política era outra coisa, era o modus vivendi da Secção de Educação estabelecido nos tempos em que o Rui era o seu secretário coordenador e num espírito que pela minha parte tentei manter até ser indelicadamente posto na rua.
Em paralelo à Secção de Educação, na base da atividade partidária do Rui e de militantes bem mais antigos que eu, foi criada uma tendência no PS, A Margem Esquerda. Não é por acaso este nome e que praticamente participavam todos os membros da Secção de Educação, além de militantes de outras regiões e de outras secções do PS. Chegaram-se a realizar encontros temáticos de nível nacional, diríamos quase de formação política em vários sítios do país.
Hoje, que o Rui nos deixou definitivamente, recordo esses tempos no PS, e não outros, recordo a intensidade e a autenticidade com que o Rui vivia os problemas políticos do país e que eram também os do seu Partido. E desse ponto de vista era um exemplo.
Pessoalmente, perdi um companheiro de estrada, de uma longa estrada, cujo tapete era feito pelas ideias construídas e reconstruídas em debates internos no PS ou por discussões na Faculdade de Economia, uma vez que os nossos gabinetes eram próximos, ideias estas alcatroadas pelo sentimento de humanidade que se vivia na altura. A Faculdade de Economia terá perdido um dos seus elementos históricos mais relevantes, mas quem sou eu para falar disso, o PS terá perdido um dos seus militantes mais autênticos dos muitos que conheci até hoje.
Creio que o Rui continuou no PS e ligado à problemática do Partido, pelo que ia lendo no seu blog, enquanto eu nunca mais pus os pés no Partido, mas tenho sido incapaz de entregar o cartão de militante, porque… tenho horror ao vazio que isso me possa gerar.
À família, em particular à mulher, Fernanda Campos, e ao filho Sérgio, aqui deixo as minhas sinceras condolências.
xxx
Aqui deixo um seu poema sobre Abril:
- Melancolia em Abril
As flores de Abril
já são conchas de pedra debruçadas no tempo,
violinos cansados pelos dedos antigos,
ou alarmes caindo pelas escarpas do medo.
Mas os olhos em riste que desejam futuros
continuam escavando sem os braços caídos.
Não deixemos que Abril seja folha caída
que o cortejo dos meses vai deixando para trás.
Não deixemos que Abril seja o tempo que passa
de si próprio perdido por não querer regressar.
Não deixemos que esqueça sua própria guitarra,
nem que fuja das ruas,
nem que seja saudade.
- A liberdade guiando o povo
Acenderam-se os cravos neste dia
numa festa de luz e alegria
e a liberdade saiu guiando o povo
pelos largos caminhos do futuro.
A Lisboa chegaram naus de esperança
vindas do sul do deslumbramento
e palavras de poetas foram ditas
em sonetos de audácia e movimento.
Cravos vermelhos nos jardins de Abril,
Capitães pela Pátria e liberdade,
cravos de sangue, cravos de combate,
flores do povo na eternidade.”
Nota de editor: Rui Namorado tinha 83 anos. Foi professor e ex-deputado do PS (1995-99). Activista político durante as revoluções estudantis em Coimbra nos anos 60, chegou mesmo a ser expulso durante dois anos da mesma Universidade onde veio mais tarde leccionar e a coordenar o Centro de Estudos Cooperativos e da Economia Social. Era também escritor, poeta e ensaísta e um dos nomes mais importantes a nível nacional do cooperativismo.
Rui Namorado licenciou-se em Direito e tornou-se mestre em Ciências Jurídico-Empresariais pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Mais tarde doutorou-se em Direito Económico, na especialidade de Direito Cooperativo, pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, instituição onde se jubilou.


