PALCO 249 – ENCONTROS E LEMBRANÇAS – por Roberto Merino

 

São os últimos dias do ano de 2024, os encontros a que me vou referir estão marcados pela nostalgia de um mundo perdido, o da minha infância, e do reencontro com pessoas que  muito me significam 

Encontro com Álvaro Riffo, em casa do meu irmão, Rafael,  e da minha cunhada  Sylvia, Santiago de Chile. 

A família Riffo/Ramos foi uma companhia constante na minha infância e juventude, assim como na dos meus irmãos. O casal Branca Ramos e Jacob Riffo, pais de três filhos, foram uma visita quase diária na nossa casa. Com os seus filhos Jacob, Sergio e Álvaro, jogávamos, cruzávamo-nos no mesmo liceu na nossa infância e estudámos na mesma universidade na nossa juventude. 

Jacob, o mais  velho, foi um médico notável que, perseguido durante a ditadura, foi condenado ao isolamento. Como  médico neurólogo, exerceu  na região  de Aysén (sul do Chile).  Com mais  de 50 anos no serviço  da saúde pública, esteve em vários centros como o Hospital Regional Coyhaique e o  Servicio de Salud Aysén. Foi Seremi  (Secretario Regional Ministerial) de Salud en Aysén, destacado pela sua  vocação e entrega.. Faleceu no mês de maio de 2024.

 

Sergio Riffo (*)

Sergio, a quem nós chamávamos Queco, também conhecido no meio universitário como  Mechón Riffo, foi companheiro de jogos na nossa vida. As nossas mães pareciam irmãs, a irmã que a minha mãe nunca teve.

Sergio foi estudante de Sociologia da  U. de Concepción, ex-Secretário General de la  Federación de Estudiantes de la U. de Concepción em 1971 e  militante do Movimiento de Izquierda Revolucionaria, MIR. Foi detido  no dia 29 de novembro de 1974, e continua até hoje, ainda desaparecido, é talvez um dos mais referenciados, detidos desaparecidos da ditadura chilena, entre os 2000 que ainda continuam por encontrar.

Assim o nosso encontro revelou-se  emotivo e carregado de sentimentos de recordação.

 

Lucília mais tarde Gabriela

Sábado 28 de dezembro, Museu de San Francisco, Santiago do Chile.

A igreja de San Francisco (1575) em Santiago(**) ocupa uma vasta área no centro da cidade, é um dos mais antigos edifícios que se conservam e resiste, e resistiu a todos os cíclicos terremotos de um país assolado constantemente por fenómenos sísmicos.

Junto à igreja encontra-se o museu, e aqui neste espaço encontro-me com José Goñi (***) e o seu mais recente livro, Gabriela Mistral/ Su difícil camino al Nobel.

José Goñi, Pepe, como é tratado familiarmente por nós, foi o nosso vizinho na minha cidade, amigo íntimo dos meus irmãos, e acompanhou a nossa juventude como amigo e militante da esquerda chilena nos tempos mais difíceis da nossa vida na época de Salvador Allende e do golpe militar de 1973.

Na conferência Goñi começa por evocar a vida anterior de Gabriela, quando ela era ainda uma jovem de nome Lucila Godoy Alcayaga, O autor lembra os primeiros pseudónimos da futura Mistral. Durante 1904 Gabriela Mistral colaborou no jornal Coquimbo, de La Serena, utilizando os pseudônimos de Alguién, Soledad e Alma.

Pseudónimos que revelam desde muito cedo a humildade franciscana que a acompanhará toda a sua vida. Vítima de bullying na escola, e mais tarde impedida de entrar na escola Normal (Magistério) para ser professora, vai ultrapassar todas as dificuldades para se transformar numa notável educadora social a nível internacional.

Em 1922, o governo do México, através de seu Secretário de Educação Pública, o filósofo, educador e político José Vasconcelos, convidou-a a participar dos programas e planos de ensino das missões rurais e indígenas, como parte de uma reforma educacional introduzida após a Revolução Mexicana. Permaneceu até 1924, gerando contribuições que lhe renderam o reconhecimento de toda a nação, como a organização de bibliotecas populares. No final da sua missão, fez a sua primeira digressão internacional, que incluiu os Estados Unidos, Itália, Suíça, França e Espanha.

A notoriedade obrigou-a a abandonar o ensino e a desempenhar diversos cargos diplomáticos na Europa, Estados Unidos e América Latina. Em 1926 foi nomeada secretária do Instituto de Cooperação Intelectual da Sociedade de Nações

Gabriela Mistral foi nomeada Cônsul do Chile e representou o seu país em Nápoles, Madrid, Lisboa e no Rio de Janeiro.  Nos anos 30 e 40 ela era considerada um ícone da literatura latino-americana.

“Era uma mulher que aos 31 anos já era conhecida mundialmente, adorada em países como o México e muitos outros. Em 1945, Gabriela foi cônsul do Chile no Rio de Janeiro e já tinha sido proposta para o Prémio Nobel de Literatura em 1939, quando o então presidente do Chile, Pedro Aguirre Cerda, instruiu os seus ministros das Relações Exteriores e da Educação a trabalharem para obter esse prémio”. Revendo os arquivos da Academia Sueca e da Comissão Nobel, a primeira coisa que me impressionou é que em 1940, logo após a sua candidatura ter sido inscrita, ela já estava na pequena lista dos cinco ou seis nomes que apareceram como possíveis vencedores. Devido ao início da Segunda Guerra Mundial o prémio foi suspenso até 1945, mas a academia continuou a trabalhar e durante todos esses anos continuou a estar sempre nesta pequena lista”.

José Goñi sublinha ainda que: “…Se sobrepôs à de escritores extraordinários como Paul Valéry, Hermann Hesse, que de facto ganhou o Prémio Nobel no ano seguinte, André Gide que ganhou o prémio em 1947 e Thomas Eliot que recebeu a mesma distinção em 1948. É um verdadeiro feito o de Gabriela, a mulher mais importante da história do Chile”.

“Em 15 de novembro de 1945 foi anunciado que Gabriela Mistral foi designada como Prémio Nobel de Literatura, e  ela soube do fato pelas notícias depois de ouvir o rádio. Dois dias depois viajou de barco do Rio de janeiro para Gotemburgo porque  odiava aviões, uma viagem que durou 22 dias e depois apanhou um comboio para Estocolmo, tendo chegado um dia antes da cerimónia. Gabriela Mistral ficou 28 dias na Suécia, o que nos permite recolher um material muito interessante sobre o que fez durante a sua estadia naquele país depois de receber o Prémio Nobel da Literatura. A sua agenda estava cheia de atividades e, por onde passava, os auditórios estavam cheios. Ela era uma mulher superstar e eu recolhi dos registros da imprensa sueca o que ela fez e disse enquanto estava lá, o que não é conhecido no Chile e é absolutamente inédito.” O romance termina quando, a 4 de janeiro de 1946, desta vez de avião, Gabriela apanha o voo de Estocolmo para Paris. Nesse momento digo que ela está a caminho da eternidade”

Notas

(*) Sobre Sergio Riffo – Riffo Ramos Sergio Alejandro – Memoria Viva 

 (**) A Igreja de San Francisco começou a tomar forma de igreja em 1575, feita de adobe e com mão de obra indígena, mas infelizmente foi totalmente destruída devido a um terremoto o que obrigou a refazer toda a Igreja. Outro grande terremoto em 1647 atingiu novamente a Igreja e sua torre foi destruída.  Até parece brincadeira, mas em 1730 outro tremor derrubou a torre que já tinha sido reconstruída. A torre atual foi inaugurada em 1857 onde colocaram um relógio de 4 faces. 

(***) José Mario Goñi Carrasco (Concepción 1948), economista académico, investigador, consultor, político, diplomata e escritor chileno, membro do Partido pela Democracia (PPD). Foi ministro de Estado da presidente Michelle Bachelet durante o seu primeiro governo, na pasta da Defesa Nacional, de 2007 a 2009 e embaixador nos Estados Unidos, Suécia (1997-2000), Itália (2000-2004) e México (2005-2007). 

Durante a ditadura militar chilena , viveu no exílio na Suécia.  

Publicou e editou livros e artigos sobre política, economia, Suécia e Olof Palme. Também publicou contos, e, recentemente, a editora Fondo de Cultura Económica de México publicou a sua primeira novela intitulada “Pablo y Matilde en el país del racimo”. 

 

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