Escrevo sobre o Zé Mário, que foi meu amigo, com um esforço para conter a humidade nos olhos, de tantas em tantas linhas.
Faz bem, sempre, soltar verdades mais duras.
José Mário Branco, um dos maiores vultos da música de intervenção em Portugal, deixou um legado incontornável na história cultural e política do país. Nascido no Porto, em 1942, cedo revelou uma vocação para a música e uma inquietação pelo mundo que o rodeava. O seu percurso atravessou os tempos sombrios da ditadura, o exílio em França e o rescaldo revolucionário do 25 de Abril, moldando-se como um combatente incansável pela liberdade e pela dignidade humana.
As suas canções, como “FMI”, “Queixa das Almas Jovens Censuradas”, “Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades” e “Inquietação”, são hinos que atravessam gerações, tocando nas cordas mais profundas do inconformismo e da resistência. A voz de José Mário Branco era mais do que melodia; era um grito de alerta, um apelo à consciência e à acção. Em cada letra, em cada acorde, transparecia a urgência de transformar o mundo, de dar voz aos silenciados.
O exílio em França, entre 1963 e 1974, foi um período de grande sofrimento pessoal, mas também de crescimento e amadurecimento artístico. Em Paris, rodeado por outros exilados portugueses, como Sérgio Godinho, Luís Cília e Jorge Palma, continuou a lutar contra a opressão do regime salazarista, utilizando a música como arma de intervenção. Foi neste período que desenvolveu colaborações importantes e compôs algumas das suas obras mais emblemáticas. Ao lado de José Afonso, cimentou uma amizade e uma parceria criativa que resultaram em momentos únicos de resistência cultural mas também de simplicidade comunicativa, de verdade.
Para além da sua própria obra, José Mário Branco foi um mentor e um guia para muitos artistas que se seguiram. Trabalhou com nomes como Camané, Kátia Guerreiro, Janita Salomé e Mafalda Veiga, ajudando a moldar o panorama musical contemporâneo português. A sua capacidade de direção musical, arranjo e produção destacou-se em discos que definiram a carreira de muitos destes artistas. Ele via na partilha de conhecimentos e na colaboração uma extensão da sua luta pela liberdade, entendendo a música como um acto de entrega colectiva.
Ética, compromisso e resistência foram os pilares que sustentaram a sua vida e obra. Nunca se rendeu às lógicas comerciais ou às pressões do mercado. A sua coerência e verticalidade granjearam-lhe o respeito de várias gerações de músicos e ouvintes.
José Mário Branco não cantava apenas para entreter; cantava para questionar, para incomodar, para despertar.
A relação com José Afonso foi, talvez, uma das mais simbólicas da sua carreira. Juntos, percorreram a “estrada” da resistência, unidos pelo sonho de um Portugal livre e justo. Esta amizade transcendeu a música, tornando-se um testemunho do que significa caminhar lado a lado por um ideal comum. Os dois partilharam palcos e causas, deixando para trás um património de coragem e criatividade.
José Mário Branco partiu em 2019, mas o seu legado permanece vivo. A sua música continua a inspirar, a sua voz ainda ecoa em tempos de incerteza, lembrando-nos da importância de resistir, de lutar por aquilo em que acreditamos. Como eles próprios diziam, todos eles, “o que faz falta é animar a malta” – e é isso que a sua obra faz: anima, inquieta e ilumina o caminho de quem não aceita o conformismo.
José Mário Branco foi mais do que um músico. Foi uma consciência viva, uma força transformadora, um homem que acreditou no poder da arte para mudar o mundo. E, por isso, continuará a ser recordado como um dos grandes.