CARTA DE VENEZA – MARCO POLO E O MONUMENTO QUE NÃO EXISTE – por VANESSA CASTAGNA

 

Ainda na esteira das celebrações dos 700 anos da morte de Marco Polo (1254?-1324), célebre mercador veneziano que viajou pela Ásia e permaneceu na China durante dezassete anos da sua intensa vida, surge agora uma reflexão estimulante sobre um monumento que não existe.  Não existe, pois, até hoje nenhum monumento dedicado a Marco Polo em Veneza; no entanto, houve uma altura, na década de 1840, em que a sua instalação foi debatida e ardentemente almejada, tanto que Luigi Ferrari (1810-1894), um escultor famoso naquela época, chegou a concebê-lo e realizá-lo.

Esta história, objeto de uma exposição que será inaugurada no próximo dia 4 de fevereiro e ficará patente no espaço CFZ nas Zattere até 28 do mesmo mês, confronta-nos com os caminhos oscilantes e imprevisíveis da memória histórica e do esquecimento. Marco Polo, figura ilustre no seu tempo, ficou esquecido durante muito tempo, sendo relembrado mais tarde provavelmente por corresponder às reivindicações identitárias de uma cidade em declínio e por fim subjugada. Contudo, as exigências do discurso patriótico ligado à unificação de Itália acabaram por prevalecer, numa época marcada por impulsos culturais, científicos e económicos que levariam à revolução de 1848-49.

Na exposição prestes a inaugurar, vai ser possível ver uma reprodução do projeto de Luigi Ferrari em 3D, em escala reduzida, que foi executada a partir do desenho do artista. A estátua deveria estar colocada em Campo Santo Stefano, um dos espaços mais nobres da cidade, onde, pelo contrário, foi instalada a estátua de Niccolò Tommaseo (1802-1874), escritor, linguista e patriota italiano.

 

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