CARLOS PATRÃO – QUEM FOI AGA KHAN IV?

 

No passado dia 4 de Fevereiro faleceu em Lisboa, com 88 anos, o Shah Karim Al Hussaini Aga Khan IV, mais conhecido como príncipe Aga Khan, líder espiritual dos Ismaelitas, um ramo xiita do Islão, e principal mentor e financiador da AKDN (Agency of the Aga Khan Development Network), com sede em Genebra e detentora da Fundação Aga Khan (AKF), que tem sucursal em Portugal (AKF Portugal).

Quem foi Aga Khan IV, nascido anglo-suíço em Genebra e que morre como português em Lisboa?

A wikipedia diz, por esta ordem, que foi um líder espiritual, filantropo, homem de negócios (mercador na versão em português) e um playboy, ou se preferirem, um socialite como agora se diz.

Intrigou-me que um líder Xiita escolhesse Portugal, um país maioritariamente católico, para viver e morrer, mas após alguma investigação fiquei a saber, pela nota de pesar da Presidência da República, que em 2015 tinha mudado a sede do Imamat Ismaili para Portugal, tendo-lhe sido dada a nacionalidade portuguesa em 2019.

O Imamat Ismaili é o pontífice dos ismaelitas (“famosos” por terem destruído o Santo Sepulcro em Jerusalém em 1009, o que contribuiu para o início das Cruzadas) desde Hazrat Ali, primo direito e genro de Maomé, marido da sua filha Fátima, até ao Rahim al-Hussaini Aga Khan V (50° na linha sucessória), sucessor e filho do Aga Khan IV(49°).

Já de si, estas origens extraordinárias seriam pasto para as mais romanescas histórias, mas se lhe juntarmos a sua ascendência até aos avós, ficamos a saber que o pai era o famoso playboy internacional (Ali Solomone) Aga Khan, que desposou a Rita Hayworth em terceiras núpcias, após o divórcio de Orson Welles, relacionamento de que resultou a sua irmã Yasmin Aga Khan. A mãe foi a viscondessa Joan Yarde-Buller, Inglesa, filha de Lord Churston (um veterano da guerra dos Boers) e de Lady Denise Orme, uma cantora de Vaudeville que animava os teatros londrinos no início do século XX. O Aga Khan pai foi embaixador do Paquistão na ONU, e era filho de Muhammed Shah, presidente da liga muçulmana, que esteve na origem do Paquistão, e Sultão Maomé Xá (descendente de reis persas), Aga Khan III. A avó paterna era uma Sra. italiana, piemontesa de Turin, Cleofe Teresa Magliano, que foi bailarina na Ópera de Monte Carlo.

Uma linhagem de avós ligadas às artes performativas e de avôs à administração do império britânico.

Se a ascendência revela uma mescla de pedigree histórico e religioso com mundano, a descendência não lhe fica atrás. Ele casou com a modelo britânica, nascida em Bombaim, Sarah Frances Croker Poole (segundas núpcias dela), mãe de Aga Khan V, e com a baronesa alemã, em segundo casamento, Gabriele Renate Thyssen-Henne, neta (adoptiva) do industrial alemão Hans Thyssen, o filantropo da famosa colecção de arte Thyssen que está em Madrid, e de quem se divorciaria em 2014.

Estamos perante uma espécie de segundo Gulbenkian, que se exilou em Portugal para fugir à guerra que assolou a Europa nos anos 30/40 do séc. XX, se bem que no caso de Aga Khan as suas motivações não sejam tanto a procura de refúgio, mas mais a de uma certa mundivivência tolerante que Portugal e sobretudo Lisboa lhe proporcionava, reconhecendo em Portugal um país que recebeu de forma tolerante a comunidade ismaelita que fugiu à guerra civil que devastou Moçambique entre 77 e 92 do século passado.

Não deixa de ser curioso que o líder de um ramo fatimida do Islão escolha como centro mundial da sua fé o pais que venera uma santa cujas aparições ocorreram em Fátima, que lhe dá o nome, e que, reza a lenda , o deve a uma princesa moura que seria a detentora dessas serranias.

4 Comments

  1. A história do acohimento da Fundação em Portugal é interessante. 1983, com vantagens providenciadas pelo Governo de então, chefiado pos Mário Soares, que reforçaram o interesse da Fundação – esta, no entanto, nunca deixou de investir em Moçambique. A Academia Aga Khan em Portugal, inicialmente pensada para Cascais, e horj em fase de instalação – ou de preparação para isso – em Oeiras, prevê bolsas para estudantes africanos, e, sobretudo, prioriza mulheres africanas ou afro-descendentes. Tenham a religião que tiverem.

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