DIA MUNDIAL DO TEATRO – por Adão Cruz

DIA MUNDIAL DO TEATRO

por ADÃO CRUZ

O amigo António Gomes Marques pediu-me, em tempos, um texto sobre teatro, para ser publicado no blog “A Viagem dos Argonautas”, no dia mundial do teatro. Ele aí vai novamente neste dia mundial do teatro.

Com quem o amigo António veio ter. O teatro não é matéria em que me sinta à vontade, melhor dizendo, não é assunto de que eu saiba o suficiente para fazer um texto. No entanto, contando com a magnânima compreensão de quem eventualmente me ler, poderei tecer algumas considerações, muito pessoais, sobre o que sinto em relação ao teatro.

Pode ser mau para a minha honorabilidade, no que respeita ao bom senso, eu atrever-me a penetrar, à deriva, num mundo tão fascinante quanto complexo, ignorando a sua profundidade técnica e científica, estética e artística. Por isso serei cuidadoso em campo tão específico, procurando dar ao pensamento a forma mais racional e consciente, dentro duma interpretação pessoal.

Como já disse muitas vezes, a poesia é a alma da arte, e percorre transversalmente qualquer forma de expressão artística. Qualquer obra de arte só o é se contiver dentro de si a poesia. E o teatro não é excepção. O teatro deve ser, dentro ou fora de um palco, dentro ou fora da vida, um coração repleto de poesia.

O verdadeiro teatro, a meu ver, não se deve deixar enganar pela banal tentação do corpo nem pelo vago calor das tintas da vida, antes deve procurar penetrar e possuir a vida de forma séria, profunda e infinita, agarrando-a de forma singular na cumplicidade da tragédia ou na poderosa metamorfose do riso. Daí o teatro poder ser a expressão artística mais capaz de resistir ao medo da inferioridade e à falsa necessidade de uma afirmação de si próprio.

Quanto a mim, o enigma do teatro está em saber que a criação artística permanece sempre um mistério dentro de uma atmosfera de magia e das realidades psicológica e sociológica da arte, apercebendo-se que a própria vida desde sempre foi o palco para o reequacionamento desse mesmo mistério.

O teatro julga não ter necessidade de se expressar na complexidade da formidável máquina química que é o cérebro, nem ter necessidade de se valer da realidade do binómio razão e prazer, para se convencer de que está acima de qualquer traição à ciência da vida, e acima de qualquer medo de se perder nos caminhos de má fama em que, por vezes, a poesia se pode meter.

Facilmente imaginamos a arte e a ciência como opostos. Todavia, o avanço no conhecimento e nas funções cognitivas obriga a dilatar o nosso horizonte artístico e científico, de uma forma até aqui impensada. Toda a investigação, todo o poder e prazer contemplativos acontecem no cérebro, seja a compreensão de um quadro, de um poema, de uma peça musical ou de uma cena teatral.

A esta biologia do espírito, nem o teatro pode fugir, pois articulam-se no seio do cérebro três evoluções: a das espécies, a do indivíduo e a das culturas. A criação da obra de arte e a sua contemplação não podem ser concebidas fora delas.

O prazer estético e a arquitectura do prazer estético parecem nascer das bases neuronais das funções superiores do cérebro. Nem outra coisa seria de esperar. O cérebro constrói representações, coordena-as em raciocínio, elabora intenções, simula comportamentos, comunica pela linguagem e faz selecções que transforma em actos.

A obra de arte, especialmente o teatro, além do seu papel de imagem, possui uma função simbólica cuja inteligibilidade requer um saber subjacente, expressão de uma cultura especial num determinado momento histórico. Encerra uma multiplicidade de sentidos cuja apreensão depende da formação cultural do espectador e da informação armazenada na sua memória. O teatro participa numa forma de comunicação em que actores e espectadores ocupam um lugar central. Assim, mesmo que não pareça, o verdadeiro teatro deve mobilizar o mais elevado grau da hierarquia cerebral, dado que na essência da harmonia estética, já ninguém duvida que se encontra a harmonia da sensibilidade e da razão. A representação teatral e artística ao nível da razão, como tudo na vida, conduz a uma maior projecção na área do prazer e do deleite.

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