Seleção e tradução de Francisco Tavares
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A representação teatral em Istambul – descodificada
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em 17 de Maio de 2025 (original aqui)
O fim do jogo é claro: os EUA perdem toda a massa terrestre da Eurásia. A Ucrânia, sob estes imensos imperativos geopolíticos, é apenas um peão privado de soberania no (grande) jogo.
Será que o Presidente Putin realmente mudou o jogo ao propor o reinício das negociações em Istambul sobre a guerra por procuração na Ucrânia– mais de três anos depois de as primeiras terem sido bloqueadas pela NATO?
É complicado. E depende de que “jogo” estamos a falar.
O que o movimento russo atingiu instantaneamente foi pôr em desordem total os Três Patetas belicistas europeus (Starmer, o chanceler BlackRock [Metz], O pequeno rei [Macron]) do Expresso da Cocaína.
A Europa irrelevante nem sequer estava à mesa em Istambul – excepto através de um extenso briefing anterior da delegação ucraniana pobre e maltrapilha. Isso foi agravado pela ameaça de latidos barulhentos à margem defendendo “mais sanções” para “pressionar a Rússia”.
Em Março de 2022, em Istambul, Kiev poderia ter parado a guerra. Cada um de nós que estava em Istambul na altura podia prever que Kiev acabaria por ter de voltar à mesa.
Então, em essência, estamos de volta à mesma negociação – com o mesmo negociador russo, o competente historiador Vladimir Medinsky, liderando uma delegação composta por profissionais, mas com a Ucrânia agora enfrentando mais de um milhão de mortos; privada de pelo menos quatro regiões – mais a caminho; o que resta da sua riqueza mineral de facto controlada pelos EUA; e um buraco negro horrendo que passa por ser uma “economia”. Estamos a falar do território do país 404 (n.t. em linguagem de comunicação informática 404 significa “não encontrado”).
Durante as negociações de sexta-feira, Medinsky foi direto à questão:
“Não queremos guerra, mas estamos prontos para lutar por um ano, dois, três – o tempo que for preciso. Lutámos com a Suécia durante 21 anos [a Grande Guerra do Norte, 1700-1721, como é conhecida na Rússia]. Quanto tempo estão vocês prontos para lutar?”
Esse é o estado geopolítico/militar das coisas para Kiev e seus apoiantes belicistas do “até ao último ucraniano”: ou você capitula, ou vamos magoá-lo ainda mais.
Qual é o objectivo destas negociações?
A Turquia, sob o comando do super-oportunista sultão Erdogan, organizou de facto uma reunião de relações públicas entre Moscovo, Kiev e ele próprio – com os ucranianos a desencadear uma guerra relâmpago de birras infantis destinadas apenas a influenciar a opinião pública global. Em nítido contraste, o chefe do fundo russo de Investimento Directo, Kirill Dmitriev, fez o possível para dar uma guinada positiva ao processo.
Istambul 2.0, afirmou Dmitriev, conseguiu uma grande troca de prisioneiros (1.000 de cada lado); opções de cessar-fogo a serem apresentadas por ambos os lados; e uma continuação do diálogo.
Isso não é muito. Bem, pelo menos eles discutiram na mesma língua: Russo. Nada se perdeu na tradução.
Pode-se argumentar seriamente que propor a retomada dessas negociações, sob este formato, não tinha sentido. Não há evidências no horizonte de que ambas as partes possam abordar a questão fundamental em breve: toda a equação estratégica geopolítica na Europa oriental, do mar de Barents ao Mar Negro e além – levando a um novo Acordo de “indivisibilidade da segurança” com repercussões mundiais.
Isso implica que qualquer que seja o caminho que estas negociações possam seguir mais adiante, elas são uma impossibilidade objectiva. Enquanto isso, a guerra por procuração na Ucrânia – e no SMO – continuará.
Isso também sugere que o establishment de segurança de Moscovo considera os capangas instrumentalizados neonazis em Kiev, na melhor das hipóteses, como uma reconstituição do 6º exército de Paulus [n.t. general alemão que dirigiu a frustrada investida contra Estalinegrado na II guerra mundial], com quem os russos negociaram o fim de uma batalha, mas não o fim da guerra.
Até mesmo os semi-realistas da NATO, como o Comodoro aposentado Steven Jermy, foram forçados a admitir que “a Rússia está no banco do condutor” e os europeus despistados “parecem acreditar que os perdedores devem ditar os termos do cessar-fogo ou da rendição.”
Todos os latidos dos europeus-chihuahuas da guerra não podem disfarçar o facto geopolítico/militar fundamental: uma humilhação massiva da NATO. O enorme problema de Trump é que ele tem que administrá–la – e vendê-la à opinião pública nacional e à opinião pública global como uma espécie de “acordo” que ele fez com Putin.
É mais uma vez esclarecedor voltar ao Grande Mestre Lavrov, sempre o super-realista, em setembro de 2024: “Em abril de 2022, os negociadores russos e ucranianos chegaram a um acordo em Istambul. Se esse acordo tivesse sido respeitado, a Ucrânia teria preservado parte do Donbass. Mas sempre que outro acordo, sempre aceite pela Rússia, é quebrado, a Ucrânia diminui de tamanho.”
O (Grande) Jogo, revisitado
Mas regressemos ao (Grande) Jogo. Os negociadores de Kiev, eventualmente, admitem que a capitulação ucraniana significa uma capitulação da NATO e uma capitulação do império do Caos. Esse é o último anátema para as classes dominantes dos EUA. Mesmo uma rendição ucraniana ultra-negociada e cuidadosamente administrada será uma venda impossível – para não mencionar Washington sob o afogado narciso Trump reconhecendo uma derrota estratégica.
Porque isso significará que o Império do Caos perderá definitivamente a Eurásia: o derradeiro pesadelo Mackinder/Brzezinski. Juntamente com a consequente solidificação do mundo multi-nodal e multipolar.
A parceria estratégica Rússia-China está muito consciente de todos os recantos deste processo gigantesco. Além da atual representação teatral turca, eles entendem claramente a grande equação da Eurásia.
Pequim está plenamente consciente de que o verdadeiro objectivo da NATO foi sempre confrontá-la através da Rússia. A Ucrânia foi o peão da NATO para derrubar a Rússia e depois chegar à China a partir do Ocidente. O objectivo das elites dominantes dos EUA, enquanto configuravam o seu império talassocrático, continua a ser bloquear a China do Ocidente por terra e mar, usando a Rússia; em seguida, usar Taiwan como uma área de preparação para bloquear a China do leste por mar. Não admira que o controlo de Taiwan seja um imperativo estratégico chinês.
Entre em pânico com Mackinder – mais uma vez: a parceria estratégica China – Rússia pode derrotar a NATO – e a Rússia, por si só, já o está a fazer. Xi e Putin mais uma vez discutiram o tabuleiro de xadrez em detalhes, pessoalmente, antes da parada do Dia da vitória na semana passada em Moscovo.
O fim do jogo, mais uma vez, é claro: os EUA perdem toda a massa de terra da Eurásia. A Ucrânia, sob estes imensos imperativos geopolíticos, é apenas um peão privado de soberania no (grande) jogo.
Quanto ao palhaço viciado em birras em Kiev, ele é apenas um actor sem qualquer autoridade, incluindo as negociações. Ele está completamente dominado pelos ucranianos neonazis que o matarão se e quando a guerra terminar. Ele apenas dá a cara por eles e é pago por isso. E é por isso que – entusiasticamente apoiado pelas inconsequentes Londres, Paris e Berlim – ele está obcecado em continuar uma guerra para sempre destruindo a própria nação que ele afirma representar.
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O autor: Pepe Escobar [1954-] é um jornalista e analista geopolítico brasileiro. A sua coluna “The Roving Eye” para o Asia Times discute regularmente a “competição multinacional pelo domínio sobre o Médio Oriente e a Ásia Central”. Em Agosto de 2000, os Talibãs prenderam Escobar e dois outros jornalistas e confiscaram o seu filme, acusando-os de tirarem fotografias num jogo de futebol. Em 30 de Agosto de 2001, a sua coluna no The Asia Times alertou para o perigo de Osama bin Laden numa peça que tem sido chamada “profética. “Pipelineistão” é um termo cunhado por Escobar para descrever “a vasta rede de oleodutos e gasodutos que atravessam os potenciais campos de batalha imperiais do planeta”, particularmente na Ásia Central. Como Escobar argumentou num artigo de 2009 publicado pela CBS News, a exploração de condutas de energia das nações ricas em energia perto do Mar Cáspio permitiria à Europa estar menos dependente do gás natural que actualmente recebe da Rússia, e ajudaria potencialmente o Ocidente a depender menos da OPEP.
O Global Engagement Center (GEC) do Departamento de Estado dos EUA identificou vários pontos de venda que publicam ou republicam trabalhos de Escobar como sendo utilizados pela Rússia para propaganda e desinformação. Em 2012, Jesse Zwick na The New Republic perguntou a Escobar porque estava disposto a trabalhar com a RT; Escobar respondeu: “Eu conhecia o envolvimento do Kremlin, mas disse, porque não usá-lo? Passados alguns meses, fiquei muito impressionado com a audiência americana. Há dezenas de milhares de espectadores. Uma história muito simples pode obter 20.000 visitas no YouTube. O feedback foi enorme”.
(fonte, Wikipedia, ver aqui)



