SISTEMA FINANCEIRO INTERNACIONAL – ALGUMAS CONSIDERAÇÕES – QUE FUTURO?- por José de Almeida Serra

SISTEMA FINANCEIRO INTERNACIONAL – ALGUMAS CONSIDERAÇÕES – QUE FUTURO?

por José de Almeida Serra

1 – Introdução

A Conferência para os acordos de Bretton Woods (realizada em New Hampshire nos Estados Unidos da América) teve lugar entre 1 e 22 de Julho de 1944, tendo nela participado 44 países, designadamente Estados Unidos, Reino Unido e vários países da Europa Ocidental, Canadá, Austrália e outros dispersos pelo mundo. O propósito consistia na elaboração de um novo e sólido sistema monetário internacional, na linha designadamente de propostas que vinham do antecedente, sobretudo dos EUA (seguindo Harry Dexter White) e do Reino Unido (John Maynard Keynes) cujas ideias eram publicamente discutidas desde 1942 não só entre economistas como pelo público em geral.

A União Soviética, que na guerra fazia parte das tropas aliadas, mandaria delegados que não participaram e não aderiria aos resultados obtidos, bem como não aderiram, entre outras, as nações que viriam a integrar o Comecon/Pacto de Varsóvia. Na aliança de uma guerra em curso começavam já as divisões.

No final da Conferência chegou-se a um texto, depois de múltiplos compromissos, o qual seria objecto de ratificação por 30 estados participantes até final de 1945, tendo então entrado em vigor.

Ao longo do tempo passaria o resultado da Conferência por diferentes vicissitudes e adaptações tendo sofrido algumas mudanças, designadamente unilaterais por parte dos EUA.

O sistema funcionou por cerca de 20 anos, mas começou a enfrentar problemas nos anos 1960, devido à crescente emissão de dólares pelos EUA e à perda de confiança no padrão-ouro. Em 15/8/1971 o presidente Nixon anunciou o fim da convertibilidade do dólar em ouro, encerrando oficialmente o sistema de Bretton Woods. Tratou-se de uma decisão unilateral e não previamente comunicada aos detentores de dólares para efeitos de eventual convertibilidade.

2 – Antecedentes imediatos

Os problemas ocorridos, pelo menos desde os primórdios do Séc. XX – com situações irresolúveis, porque racional e humanamente impossíveis de que é exemplo um nível elevadíssimo de libras no exterior do Reino Unido, mas cujos devedores – por exemplo França – não podiam pagar salvo se conseguissem receber dos seus próprios devedores (por exemplo Alemanha relativamente a França) por se encontrarem também em situação de impossibilidade de o fazer. Que resta no plano económico-político? Extremismos políticos, guerra, desaparecimento de liberalismos, designadamente económicos e políticos, o que implica forte acção governamental traduzindo-se em teorias (e práticas) de intervencionismo (comunismo, fascismo, nazismo, planificação de economias e sociais), cada vez mais aceites por populações carenciadas, insuficiência de empregos e mais baixos salários em termos reais.

Medite-se na irracionalidade do tratado de Versailles impondo à Alemanha condições inatingíveis que contribuiriam para a implantação do nazismo e para o desencadeamento da 2ª guerra mundial.

Seguir-se-ia um caos monetário entre as duas guerras mundiais, com diferentes situações de empobrecimento do vizinho (“beggar-thy-neighbor”) mediante desvalorizações visando melhorar as respectivas exportações (do País que desvaloriza).

Grande depressão norte-americana nos anos da década de 1930, com profundas repercussões na produção, emprego e desenvolvimento social.

Recurso â criação de blocos monetários em matéria de comércio dos anos de 1930, de que é exemplo o bloco da libra esterlina com o Império Britânico e que introduziu profundos problemas no sistema económico mundial.

As evidentes insuficiências do sistema financeiro internacional conduziram alguns economistas a apresentar projectos alternativos ao sistema existente, sendo de salientar a criação de uma moeda comum em que participariam vários países, designadamente em uma designada bancor (que foi por alguns defendida, mesmo em Bretton Woods).

A bancor fora ideia do famoso economista britânico John Maynard Keynes, que participou na conferência como principal negociador da delegação de seu país.

Nessa altura Keynes já era considerado um grande especialista da economia mundial pelos seus conhecidos trabalhos sobre os desequilíbrios económicos que levaram à Grande Depressão de 1929 e a guerras mundiais. O seu reconhecido prestígio já ultrapassava fronteiras.

Keynes queria pôr fim aos factores que, na sua opinião, levaram às duas guerras e aos tremendos problemas económicos da primeira metade do século 20, como o desequilíbrio comercial entre países, as guerras comerciais e as guerras cambiais.

Deve ter-se em mente que todos aqueles homens que participaram na conferência pertenciam a uma geração que sempre vivera na guerra ou na depressão económica e cujo grande objectivo era pôr fim aos males que abalaram o mundo nos últimos quarenta anos, conforme disse Boughton à BBC News Mundo, serviço em espanhol.

Uma das ideias mais revolucionárias suscitadas na conferência foi descartada: o bancor, uma moeda comum para todos os países do mundo que teria significado uma mudança profunda no comércio e nas relações entre as nações.

Com efeito, o sucesso do bancor, projecto de moeda única global, impediria a hegemonia do dólar (a experiência de uma moeda única para múltiplos países havia ainda que esperar pelo euro).

No Verão de 1944, quando um mundo em chamas com a Segunda Guerra Mundial começou a vislumbrar a derrota da Alemanha de Adolfo Hitler e dos seus aliados, a pequena estância de Bretton Woods, em New Hampshire, nos Estados Unidos, tornou-se palco de uma discussão crucial.

Delegados de 44 países reuniram-se durante 22 dias com o objectivo de lançar as bases para a economia mundial, quando o final da guerra chegasse.

Esse encontro ficou marcado para a história como o Acordo de Bretton Woods, onde foi decidida a criação do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, organizações multilaterais que ainda hoje desempenham um papel fundamental na economia global.

Assim e obviamente os EUA sairiam largamente ganhadores, dado o poderio económico-militar de que dispunham e a sua participação na guerra que, embora tardia e de facto provocada pelo Japão (ataques a Pearl Harbour em 1941), era absolutamente vital para os Aliados. Aliás, os Estados Unidos viriam a assumir na ordem (ou desordem) internacional o papel anteriormente desempenhado essencialmente pelo Reino Unido. Desde logo foi anfitrião do encontro de Bretton Woods o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos.

Não obstante a situação internacional vivida, estados houve que resolveram não participar (dá-se como exemplo a URSS que, depois de um acordo com a Alemanha, fora traída e invadida por esta e se encontrava profundamente carenciada do apoio militar e económico dos Aliados); também outros, tendo embora participado, levariam imenso tempo a aderir ou não adeririam nunca. A URSS manobrou para que não houvesse adesão dos estados que vieram a ficar para além da Cortina de Ferro e integraram o Comecon/Pacto de Varsóvia.

Há que reconhecê-lo: no mundo das primeiras décadas do séc. XX emerge como potência, de facto dominante, os Estados Unidos que se tornam a potência económica e política mais importante no Planeta, não tendo qualquer país capacidade para ambicionar aproximar-se daquele, que até soubera manter-se fora das guerras intestina dos países europeus e só entraria na 1ª guerra mundial no fim da mesma (Abril de 1917) e na segunda só depois da provocação de Pearl Harbour. Há que saber manter-se fora da chacina, mas entrar aquando da distribuição dos despojos.

Os EUA eram os maiores produtores mundiais de muitas matérias-primas e de vários produtos industriais, ultrapassando 50% em diferentes casos e detendo ainda 80% das reservas mundiais de ouro.

Obviamente, como acontece em todos os tempos e com todas as potências, há muitos encontros e mesmo acordos secretos e não admira que, dadas as relações históricas entre EUA e RU, isso tenha acontecido (certamente muito continuamos a desconhecer), o que aconteceria com a Carta do Atlântico, de Agosto de 1941, num encontro secreto num navio no Atlântico entre Roosevelt e Churchil. Neste caso, dado o conteúdo em matéria de objectivos (liberdade dos mares e livre acesso a matérias-primas e comércio, estabelecimento de um sistema de segurança geral e desarmamento dos vencidos) possibilitaria que o encontro e o acordo fossem divulgados.

3 – Sistema adoptado em Bretton Woods e sua evolução

3.1 – Base fundamental

Podemos sintetizar Bretton Woods em três elementos: um conjunto de regras a seguir pelos participantes, designadamente em matéria cambial (artigos de entendimento de práticas cambiais a adoptar) e criação de duas organizações disciplinadoras e/ou de apoio, Fundo Monetário Internacional (FMI) e Banco Mundial, sendo estas entidades desde logo estabelecidas em Washington onde se mantiveram até hoje e nas quais os EUA têm tido uma influência dominante.

Os países que aderiram ao FMI decidiram adoptar um sistema de câmbios fixo, embora ajustável em determinadas circunstâncias, mas em caso de desequilíbrios fundamentais não ficou claramente definida a noção do conceito de balança de pagamentos, designadamente a noção de desequilíbrio fundamental em taxas de câmbio, mas em caso de alteração da mesma por qualquer país estava prevista a intervenção do FMI (sobretudo em caso de variações cambiais de 10% ou superiores).

Princípio importantíssimo consistiu na ligação ao ouro das taxas de câmbio dos diferentes países, ou directamente ou indirectamente por ligação ao dólar norte-americano, cuja taxa foi fixada em 35 US$ = 1 onça troy (cerca de 31,1 gramas).

A decisão sobre reserva cambial era dos países, que aliás poderiam usar as duas alternativas em simultâneo com aconteceria no caso português, mas que optando pelo dólar norte-americano ficariam de facto dependentes da evolução deste, como viria a verificar-se ulteriormente.

3.2 – Banco Mundial

O Banco Mundial surgiu inicialmente como o Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD), com o objectivo de financiar a reconstrução dos países devastados pela Segunda Guerra Mundial. Hoje apoia essencialmente projectos de investimento em países de baixo desenvolvimento, promovendo crescimento económico e redução da pobreza através de financiamento, concessão de empréstimos e fornecimento de assistência técnica.

Tecnicamente, como analista de avaliação de projectos, só posso elogiar o trabalho do Banco Mundial, que foi irrepreensível no caso português.

3.3 Fundo Monetário Internacional (FMI)

O FMI foi criado para garantir a estabilidade financeira internacional, ajudando países a manter as suas taxas de câmbio e oferecendo suporte económico em momentos de crise. Também apoia políticas económicas e fornece empréstimos a nações em dificuldades financeiras. As suas principais actividades incluem:

3.3 – 1 – Supervisão da Economia Global

A – Acompanhamento das economias dos países aderentes

Acompanha a economia mundial, analisando riscos e tendências financeiras para ajudar países a tomar decisões económicas mais seguras.

B – Assistência financeira

Concede empréstimos a países que enfrentam crises económicas, ajudando a estabilizar as suas moedas e evitar colapsos financeiros.

C – Consultoria e formação

Fornece orientação técnica sobre políticas económicas, ajudando os governos a implementar reformas para crescimento sustentável.

D – Cooperação Internacional

Promove a cooperação entre países, incentivando políticas que favoreçam o comércio e o desenvolvimento económico global.

E – Crescimento económico insuficiente

Alerta para o crescimento económico global se em desaceleração, especialmente nas economias desenvolvidas. A recuperação pós-pandemia e os impactos de guerras localizadas (Ucrânia, Palestina, diferentes países africanos) continuam afectando a estabilidade financeira.

F – Inflação persistente

Embora a inflação tenha diminuído em relação a picos anteriores, ainda há preocupações com o aumento dos preços, especialmente em economias avançadas. O FMI recomenda políticas monetárias rigorosas para conter a inflação sem prejudicar o crescimento.

G – Riscos geopolíticos

Conflitos internacionais e tensões comerciais aumentam a incerteza económica. O FMI destaca que guerras e disputas comerciais podem impactar negativamente o crescimento e a estabilidade financeira

H – Dívida pública elevada

Muitos países enfrentam altos níveis de endividamento, dificultando investimentos em infra-estrutura e serviços públicos. O FMI defende reformas fiscais para garantir sustentabilidade económica.

I – Mudanças Climáticas

A transição para uma economia mais sustentável exige investimentos significativos. O FMI incentiva políticas que promovam o crescimento económico sem comprometer o meio ambiente.

Em síntese: o FMI continua estudando esses e outros desafios e propõe soluções para garantir a estabilidade financeira global, sendo de reconhecer o papel fundamental que tem vindo a desenvolver.

NOTA PESSOAL

Nos EUA, no seguimento de posições que vinham do antecedente, instalou-se, aliás democraticamente, um certo Trump na Presidência, que tem feito declarações e tomado decisões completamente à revelia do que cabe ao FMI defender. Pergunta-se: o FMI já tomou alguma posição pública? Desconheço.

A propósito, é evidente que o FMI se tem acantonado nos aspectos financeiros e não tem tido em conta as consequências sociais de certas políticas que têm sido seguidas em alguns casos (recorda-se aqui o que aconteceu com a Grécia e em menor medida com Portugal). Ora, não obstante a primordial importância dos equilíbrios das balanças de pagamentos, há múltiplos aspectos que é necessário também ter em conta para se conseguir atingir condições de vida aceitáveis. Nessa perspectiva há que consagrar soluções e apoios semelhantes aos que os EUA propiciaram às nações, europeias e outras, com o Plano Marshall no seguimento da última guerra mundial. Recuperou a Europa e ganharam – e muito – os EUA, mas as boas práticas parecem difíceis de aprender pela generalidade das classes dirigentes.

4 – Actualidade: um mar de problemas: o que pode esperar-nos?

Segundo a geração Y – trata-se da primeira geração que cresceu já com tecnologias modernas, designadamente Internet, portanto a primeira geração planetária global, ou seja, indivíduos que nasceram entre 1981 e 1996 – os grandes problemas do mundo de hoje são complexos e interligados, e alguns destacam-se pela sua urgência e impacto: as mudanças climáticas, a pobreza extrema e a desigualdade, a crise alimentar global, as ameaças à saúde e a fragilidade dos sistemas políticos. Em 2016, segundo a Internet, realizou a geração Y para o Forum Económico Mundial, a solicitação deste, uma pesquisa para identificar os 15 maiores problemas do mundo, tendo sido consultados mais de 26 mil “millenials” (indivíduos pertencentes à geração Y) de 181 países falando sobre economia, política, valores, tecnologia e negócios. Pelo segundo ano consecutivo, a destruição dos recursos naturais foi o problema mais citado entre as principais preocupações dos jovens ao redor do mundo.

Os resultados foram:

A – Mudanças climáticas/destruição dos recursos naturais (45,2%)

B – Conflitos de grande escala/Guerras (38,5%)

C – Conflitos religiosos (33,8%)

D – Pobreza (31,1%)

E – Transparência governamental/corrupção (21,7%)

F – Segurança/bem-estar (18,1%)

G – Educação (16,5%)

H – Falta de liberdade política/instabilidade política (15,5%)

I – Fornecimento de alimentação/água (15,1%)

J – Falta de oportunidades económicas e empregabilidade (14,2%)

K – Assistência social/saúde (10,9%)

L – Desigualdade de género/falta de inclusão (9,9%)

M – Falta de privacidade/segurança devido à tecnologia (6,7%)

N – Privacidade electrónica/crimes informáticos/”trolls” via redes sociais (6,3%)

O – Falta de infra-estruturas (3,4%)

5 – Pobreza e riqueza (QUE PODER?)

Segundo a ONU a pobreza representa uma privação do direito básico de cada indivíduo participar plenamente na vida social, económica, cultural e política da comunidade em que se insere,

Recentemente pelo menos 1,1 bilião de pessoas em 112 países são consideradas multidimensionalmente pobres em outro relatório apoiado pelas Nações Unidas (18/10/2024).

A população mundial atingiu 8 mil milhões de habitantes em 15 de Novembro de 2022. A ONU

prevê que a população mundial continue a aumentar nos próximos anos, atingindo 8,5 mil milhões em 2030, 9,7 mil milhões em 2050 e 10,4 mil milhões em 2100.

A Índia já ultrapassou a China como o país mais populoso do mundo na presente década. A população mundial também está a mudar devido a factores como o aumento da esperança de vida, a diminuição da taxa de fecundidade e a migração.

As grandes potências mundiais actuais, com foco nos maiores PIBs do mundo em 2025, que são, em ordem decrescente: Estados Unidos, China, Alemanha, Japão, Índia, Reino Unido, França, Itália, Brasil e Canadá. Acontece que esta listagem era completamente diferente em 1950 e continuou a evoluir, com a China pós-Mao a progredir a passos largos, os EUA a perder posição e sendo de prever que a Índia venha a seguir uma evolução semelhante à da China

As grandes potências militares do mundo, em geral, são os mesmos países das grandes potências mundiais e é de esperar que venham a acompanhar o que acontece nessa área, ou seja grandes mudanças relativas e o aparecimento de outras grandes potências.

O mundo europeu-americano ou americano-europeu deixará certamente de prevalecer sendo de admitir que, dentro de alguns anos, um mundo centrado na China, EUA, Índia (que certamente copiará, para melhor, a China), Japão, Brasil e Rússia abordem os grandes problemas como parceiros iguais.

Mais uma vez recorremos à Oxfam (ligeiros ajustamentos meramente redaccionais): apenas oito homens possuem a mesma riqueza que os 3,6 biliões de pessoas que compõem a metade mais pobre da humanidade, de acordo com um relatório publicado pela Oxfam, apresentado na reunião anual de líderes políticos e empresariais em Davos. O documento Uma economia humana para os 99% mostra que a diferença entre ricos e pobres aumenta a cada edição do estudo, numa velocidade muito maior do que a prevista. Os 50% mais pobres da população mundial detêm menos de 0,25% da riqueza global líquida. Nesse grupo, cerca de 3 biliões de pessoas vivem abaixo da “linha ética de pobreza” definida pela riqueza que permitiria que as pessoas tivessem uma expectativa de vida normal de pouco mais de 70 anos.

O relatório detalha como os grandes negócios e os indivíduos que mais detêm a riqueza mundial estão se alimentando da crise económica, pagando menos impostos, reduzindo salários e usando seu poder para influenciar a política nos seus países, afirma Katia Maia, directora executiva da Oxfam no Brasil.

Deixemos por agora a Oxfam e viremo-nos para a ONU

A pobreza envolve mais do que a falta de recursos e de rendimento que garantam meios de subsistência sustentáveis. A pobreza manifesta-se através da fome e da malnutrição, do acesso limitado à educação e a outros serviços básicos, à discriminação e à exclusão social, bem como à falta de participação na tomada de decisões.

Hoje, mais de 780 milhões de pessoas vivem abaixo do limiar internacional da pobreza (com menos de 1,90 dólar por dia). Mais de 11% da população mundial vive na pobreza extrema e luta para satisfazer as necessidades mais básicas na esfera da saúde, educação e do acesso à água e ao saneamento. Por cada 100 homens dos 25 aos 34 anos, há 122 mulheres da mesma faixa etária a viver na pobreza, e mais de 160 milhões de crianças correm o risco de continuar na pobreza extrema até 2030.

Pelo menos 1,1 bilião de pessoas em 112 países são consideradas multidimensionalmente pobres em novo relatório apoiado pelas Nações Unidas (18/10/2024).

Nota: os dados constantes dos dois quadros seguintes são retirados de ONU/Oxfam e os do terceiro da Internet.

Países mais ricos

PIB per capita

Luxemburgo

US$ 141,08 mil

Suíça

US$ 111,72 mil

Irlanda

US$ 107,24 mil

Singapura

US$ 93,96 mil

E quanto aos mais pobres (dados de 16/5/2024).

Países mais pobres

PIB per capita

Sudão do Sul (África):

US$ 455,1

Burundi (África)

US$ 915,8

República Centro-Africana (África)

US$ 1,1 mil

República Democrática do Congo (África)

US$ 1,5 mil

Moçambique (África)

US$ 1,65 mil

Níger (África)

US$ 1,67 mil

Malawi (África)

US$ 1,7 mil

Não pode deixar de anotar-se a extrema pobreza da África subsariana, sendo de interesse analisar as respectivas causas e comparar se algo substantivamente diferente se passou comparativamente com a colonização asiática e sul-americana.

Evidentemente é difícil compreender a evolução de Moçambique e Angola, que tinham todas as condições para se transformarem em novos brasis (de acordo com um relatório da agência das Nações Unidas, Angola e Moçambique possuem mais de metade da população em cenário de vulnerabilidade e a Associação Portuguesa de Psicogerontologia afirma que cerca de 300 mil pessoas passam fome em Portugal).

Anos

PIB pc Irlanda

PIB pc Portugal

Irlanda/Portugal

1950

186 USD

81 USD

2,3

1975

1682 €

266 €

6,3

2000

25422 USD

17230 USD

1,5

2024

93385 €

28920 €

3,2

Comentários? Grandes e magníficos governantes têm governado Portugal e o panorama seria ainda mais claro se dispuséssemos de dados per-capita em matéria de corrupção.

Segundo um documento Credit Suisse Wealth Report uma em cada dez pessoas no mundo sobrevive com menos de US$ 2 por dia.

“A desigualdade está mantendo milhões de pessoas na pobreza, fragmentando nossas sociedades e minando nossas democracias. É ultrajante que tão poucas pessoas detenham tanto enquanto tantas outras sofrem com a falta de acesso a serviços básicos, como saúde e educação” (cita-se a brasileira Katia Maia, também da Oxfam).

A situação das mulheres continua a ser muito inferior à dos homens. O relatório do Fórum Económico Mundial (2016) sobre as disparidades de género estima que serão necessários 170 anos para que as mulheres recebam salários equivalentes aos dos homens. Segundo o texto, as mulheres ganham de 31% a 75% menos do que os homens no mundo.

A sonegação de impostos, o uso de paraísos fiscais e a influência política dos super-ricos para assegurar benefícios aos sectores onde mantêm os seus investimentos (ou dinheiros oriundos de corrupção) são outros destaques do documento da Oxfam.

Desçamos um pouco com exemplos concretos: a fortuna pessoal do Sr. Musk ascende a 390 biliões de US$, enquanto os PNBs da Alemanha e de Portugal se elevaram em 2023 a 4525 e 289 biliões de US$ respectivamente. Ou seja: a fortuna do Sr. Musk é de 8,6% da produção anual da Alemanha e ultrapassa largamente (134,9%) a produção anual em Portugal.

Razoável? Admissível sobretudo num mundo de esfomeados? Aceitável num quadro de muitas centenas de mortos em cada dia por carências várias? Compatível com os princípios humanos de solidariedade? E não seria de averiguar como o Senhor obteve a sua fortuna, tudo limpo, explicável, legal?

6 – Catástrofe ambiental

A degradação ambiental refere-se à deterioração do ambiente natural, resultando em impactos negativos para a saúde dos ecossistemas e dos seres vivos, designadamente a espécie humana.

O efeito estufa é um fenómeno natural responsável pela manutenção das temperaturas médias da superfície terrestre.

Contudo, esse processo vem sofrendo grande desequilíbrio, particularmente por intervenção humana, sendo evidentes – e nefastas – as consequências que aliás continuam, como é lógico, a agravar-se, sendo de esperar que muitas zonas hoje habitadas se tornem em breve inabitáveis. Mais um problema em matéria de distribuição de riqueza, com o alastramento da pobreza mais miserável?

A adequada limpeza e gestão dos mares tem de ser assumida imediatamente e regras drásticas terão de ser adoptadas, porque os mares, sobretudo em determinadas áreas, já ultrapassaram o que é suportável, pondo em causa a sobrevivência de muitas espécies e tendo-se transformado no vazadouro de lixo dos actuais “sapiens” que têm revelado muito pouca sapiência e uma grande inércia. Interrogação: como ficaria o Mundo enrolado num mar-pocilga (já existente em muitas áreas)?

7 – Algumas soluções

São imensos e graves os problemas que os humanos estão já suportando e que muito provavelmente ainda se agravarão substancialmente. Podemos até pretender não ver o que em cada dia nos entra pelos olhos adentro, mas não poderemos escapar às consequências de incompetência, incultura, não tomada de decisões urgentes e de uma cultura e prática de “deixar andar”.

Porventura os actuais humanos, com 70 ou mais anos, já não assistirão às grandes catástrofes, ao desabar do humano e dos humanos. Mas o que sucederá aos netos, crianças ou infantes de hoje? É moral o nosso comportamento?

Tem havido muitos estudos e muitas propostas de diferentes entidades de âmbito planetário, que são normalmente objecto de imediato esquecimento.

Relembrem-se algumas em matéria de sustentabilidade e equilíbrio financeiro.

A Oxfam propôs, em relatório lançado (16/1/2023) no Fórum Económico Mundial em Davos, o aumento na taxação de super-ricos para arrecadar recursos suficientes para tirar 2 biliões de pessoas da pobreza em todo o mundo.

Esta organização tem repetidamente defendido um imposto sobre a riqueza dos mais ricos como forma de combater a desigualdade e financiar programas de desenvolvimento e combate à pobreza. A organização argumenta que a riqueza dos super-ricos tem crescido desproporcionalmente, enquanto a maioria da população mundial lida com dificuldades económicas.

A Oxfam insta agora os governos a introduzirem impostos permanentes sobre o rendimento e a riqueza dos 1% mais ricos e a proibirem ou tributarem de forma punitiva os consumos de luxo intensivos em carbono – a começar pelos jactos privados e super-iates (10 Jan 2025).

Também já propusera que se acabasse com as offshores (cancro do Planeta a que nem o Reino Unido, com as suas Ilhas Virgens (ingrata virgindade), o Luxemburgo notável especialista e a Suíça, grande criador offshoriano, escapam).

Outras entidades têm apresentado múltiplas propostas em diferentes áreas; porque não elabora a ONU uma listagem mundial de trabalhos científicos sérios produzidos e de propostas de simples bom senso para ao menos consolidar o conhecimento da situação actual?

Temos óptimas propostas, mas certamente caídas em “saco roto”. Custo das alternativas? Destruição do Planeta?

Seria lamentável que o esforço e trabalho do sapiens para chegar aqui acabasse por este passar a estar a mais neste Planeta que gratuitamente herdou e perdulariamente está destruindo.

Pobres netos a quem estamos matando o futuro.

Lisboa, 9 de Junho de 2025

 

 

Leave a Reply