EVA CRUZ – GOSTAVA DE SABER A RAZÃO

Há dias, quando atravessava a praça principal desta cidade, logo pela manhã, num ameno dia em que as flores sorriam não sei se para o sol se para mim, fui interpelada por uma simpática senhora, minha amiga, dona de uma das joalharias por ali conhecidas. Com o seu habitual sorriso aberto, confessou-me: ainda bem que a encontro, pois ando há que tempos para falar com a senhora. Até já pensei telefonar-lhe. Não sei se sabe que a minha mãe está com a doença de Alzheimer e tem muito poucas reacções. Não sei porquê, lembrei-me de lhe ler, de vez em quando, algumas crónicas do seu último livro. Curiosamente, e para meu espanto, ela reage de uma maneira surpreendente, com um sorriso calmo e um olhar atento, revelando um certo ar de alegria. Até chamei a minha irmã para o confirmar.

Estava comigo uma das minhas netas. Quando já vínhamos embora, a satisfação visível no meu rosto contagiou o dela. Sorriu e por marotice acrescentou: avó, afinal andas a escrever livros para pessoas com Alzheimer. Respondi-lhe que fiquei muito contente, mas que não pensasse que eu não tinha muito feed-back de outras pessoas com as capacidades mentais intactas.

Por mera coincidência, esperava eu participar, dentro de dois dias, num encontro em Santa Maria da Feira sobre um projecto, “Mosaico Social”, em que uma das peças era o envelhecimento e a reflexão sobre o sentido de cuidar do presente para preparar o futuro. Com alguma satisfação, pensei: já estou, antecipadamente, a fazer o meu papel.

Aproveito para dizer que ainda há livros à venda. Sem qualquer presunção ou interesse pessoal relembro-o, não por mim, mas porque é uma forma de agradecer ao Jornal Labor e estimular, eventualmente, a sua generosa atitude em relação a outros autores. Nunca fui pessoa de publicitar o que faço, mas acho que vale a pena comprar por uns magros tostões alguns momentos de fruição de uma certa serenidade proporcionada pelo lirismo e bucolismo do livro que, creio, poderá ser a razão do sorriso de paz e tranquilidade que a senhora minha amiga viu no rosto de sua mãe.

Eva Cruz

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