Em jeito de carta aberta a Maria Irene Ramalho e uma dedicatória – por Júlio Marques Mota

Em jeito de carta aberta a Maria Irene Ramalho e uma dedicatória

por Júlio Marques Mota

Dedico o trabalho desta peça sobre A Troca Desigual, feita na urgência de um tempo que me ultrapassa, a um casal que desde há alguma tempo vive numa situação de enorme isolamento sob a pressão de um terrível cancelamento e correspondente confinamento, que só por razões muito obscuras, e tão obscuras que ninguém racionalmente as conhece, se poderá justificar. Seriam então razões tão obscuras que só a falta de razão as poderá explicar ou, então, talvez justificável por razões que a Razão sobre o caso desconhece. E aí entramos no plano político, uma vez que é impensável que as pessoas que o acusam tenham força para gerar um cancelamento a nível mundial seja de quem for.

Dedico este texto a Boaventura de Sousa Santos e à sua mulher, Maria Irene Ramalho, e faço deste texto uma espécie de carta aberta à Maria Irene Ramalho.

A Maria Irene escrevia hoje de forma tensa em cada letra e em cada palavra um texto com o título: Alguém tem de retratar-se e de pedir desculpa

Se colocarmos esta frase em forma de interrogação:

Haverá alguém que tenha a coragem de pedir desculpa?

Eu respondo, não há, simplesmente assim, não haverá ninguém com coragem para ser capaz de o fazer. Vivemos tempos estranhos, muitos estranhos, onde a verdade dos factos não importa, o que importa é que se diga que os factos existiram ou existem. Visíveis ou invisíveis, tanto faz: o que conta é que haja alguém mais que o confirme, e que o confirme com calor.

A acusação, no caso em presença, é espantosa porque, nos termos em que é posta, é agora utilizada em muitos lugares, porque na linha da acusação feita só houve assédio, não se passou disso. E isso não deixa marcas objectivas. A acusação fica por aqui, não passa de pura acusação sem prova de nada. E como não é possível ser provada, também não é possível ser provado o seu contrário. Este é o círculo brutal em que a Maria Irene e o Boaventura ficam dramaticamente encurralados. Para lá disso, e paralelamente a isso, há o que é ainda mais lamentável: o cancelamento, e esse não é feito pelas acusantes.

No meu tempo de criança, ouvi sempre dizer: é-se como S. Tomé, ver para crer. Mas Deus perdeu-se do mundo da nossa descrença e com ele muitos dos ditados que lhe estavam ligados. Hoje diz-se, ouve-se e crê-se, e tanto mais assim se empenhadamente o ouvirmos muitas vezes e de um grupo de gente.

Mas se não pode ser provada a acusação, mesmo se fosse verdadeira, e também não pode ser provado o seu contrário, então o que é que nos resta para tomar posição sobre o caso? Fica-nos a leitura atenta dos emails e esta leitura deve ser confrontada logicamente com o que se diz na acusação sobre todos os seus itens, tais como extrativismo[i], exploração laboral   ou assédio sexual. E a conclusão lógica a que cheguei com essa leitura é a de que ou os emails são verdadeiros e tudo o que essas mulheres dizem não bate certo, ou é verdade tudo o que elas dizem, mas tudo, e são os emails que são falsos. Entre uma hipótese e outra, eu considero os emails como verdadeiros, fisicamente existem, logo são provas objectivas. Esta é a minha posição e sugiro a quem leia este texto e queira tomar posição sobre o caso, em vez do diz-que-diz e com o mínimo de lógica, que leia os documentos publicados e pense no que lá está escrito.

Tudo isto me faz lembrar um texto que li sobre Estupidologia.

Parafraseando o seu autor, William Davies, diremos que as ferramentas do saber liberal pareciam impotentes diante de tanta situação descarada como a que hoje se assiste. Uma referência para este tipo de situação é descrita por Hannah Arendt, que observou em As Origens do Totalitarismo que “o sujeito ideal do regime totalitário não é o nazi convicto ou o comunista dedicado, mas pessoas para as quais a distinção entre facto e ficção… já não existe.”

Em 2025, as denúncias têm um sabor diferente, um sabor estranho. Para muitos de nós, o problema central é que vivemos não só numa época de mentiras, mas também numa época de estupidez. Esse diagnóstico tem credibilidade em todo o espectro político. Em Abril, o escritor e intelectual marxista, Richard Seymour, publicou um ensaio sobre “A Estupidez como Força Histórica.” Em vez de Arendt, Seymour citou Trotsky: “Quando o nível da política é baixo, a estupidez domina o pensamento social.” Ao nível da estupidez à Kant, o que é preciso é que as afirmações sejam vividas, comunicadas, partilhadas e repetidas sucessivamente para se tornaram verdades indiscutíveis. Empenhamento — e rendimento — é tudo o que é preciso, e as acusantes foi até agora o que tiveram, tiveram tudo.

Na linha de Trotsky, a tomada de posição sem reflexão sobre o que está de um lado e do outro significa que houve ao nível de muita gente que tomou posição na base do diz-que-diz, uma enorme deficiência na faculdade de discernir, e a isso chama Kant estupidez.[ii] É isso o que nos diz Kant, numa nota de rodapé peculiar na Crítica da Razão Pura. A “faculdade” à qual Kant se referia é a capacidade mental da qual, segundo a sua filosofia, dependem tanto o conhecimento como a moralidade. Kant argumentou que existem várias maneiras de evitar o exercício individual do raciocínio, e diríamos nós que uma forma de evitar o raciocínio é a aceitação de verdade expressa pelo diz-que-diz dos outros, escondendo-se assim a situação de estupidez. É o que toda a gente diz, desculpam-se.

Uma maneira de expressar os pontos de Kant e Arendt seria dizer que a estupidez é a incapacidade de comparar e julgar sobre coisas aparentemente iguais ou mesmo diferentes; em vez disso, a estupidez apenas repete lugares-comuns ou obedece a ordens. Mas quais são as condições sociais e políticas que normalizam isso? Uma delas é uma sociedade em que as pessoas esperam instruções de outrem sobre como pensar: esta é a condição de “menoridade”, como Kant a via, ou de “totalitarismo”, como Arendt o expressou.

Esse modelo social da estupidez significa a perda de uma dimensão crítica das sociedades liberais conforme elas tomaram forma no final do século XX. E é apenas a imaginação, escreveu Arendt, que nos permite ver as coisas na sua devida perspectiva, ser fortes o suficiente para colocar aquilo que está demasiado próximo a uma certa distância para que possamos vê-lo e compreendê-lo sem preconceito ou parcialidade, ser generosos o suficiente para transpor abismos de distância até que possamos ver e compreender tudo o que está longe de nós como se fosse um assunto nosso.

É nesse sentido que sugiro francamente uma leitura atenta ao conjunto dos emails[iii] onde se sentem os dilemas e as tensões pessoais e profissionais pelas quais as acusantes terão passado e de que algumas delas se terão querido aproveitar, enquanto outras talvez estejam no grupo por solidariedades ou cumplicidades, escolha-se o termo.

Abdica-se de pensar, de diferenciar, de julgar criticamente, este é o drama da sociedade que nós temos e da qual a Maria Irene espera que haja alguém desse grupo que tenha a coragem de dizer, “eu fui estúpida à Kant, já basta, o que se passou foi isto…” Fazê-lo, isso teria custos enormes, custos de amizades e de cumplicidades do ponto de vista directo e teria outros custos mais sérios, custos do sistema, porque desfaria a urdidura montada, por outros que as acusantes nem sequer conhecem, para eliminar um dos mais prestigiados intelectuais portugueses da actualidade. Não queira que uma qualquer das acusantes tenha a frontalidade que Alicia Hastey teve ao deixar na CBS News na quarta-feira, afirmando que o tipo de trabalho para o qual se dedicou estava ” a tornar-se cada vez mais impossível”, já que as reportagens agora eram avaliadas “não apenas por seu mérito jornalístico, mas também por sua conformidade com um conjunto mutável de expectativas ideológicas”. Ora o que a Maria Irene esperaria era um rebate de consciência, mas, como diz Hastley, isso significaria ter à perna as gentes do sistema que se tinham servido das acusantes. E isso tem outros custos, pessoais e profissionais, que não estarão dispostas a sofrer. Falta-lhes a tal consciência.

Parafraseando aqui um cineasta americano, eu diria, como um velho a gritar para as nuvens, que estamos a caminhar para uma sociedade com cada vez menor capacidade de discernimento, logo, uma sociedade a ficar cada vez pior. Sinto que esta é uma mudança para os “conteúdos ou comportamentos ” de baixo de gama e para o “lixo mental”, como se estivéssemos presos no mundo da Idiocracia. Esperar daí lucidez, dessa gente, minha amiga, nem pense nisso, mas tal como o velho a gritar para as nuvens não deixe de o fazer, não deixe de esclarecer aqueles que não se atolaram na mediocridade, e esses são ainda a maioria.

Maria Irene, deixo-lhe aqui um abraço. E continue, por imperativo moral, a protestar. Quanto ao resto, digo-lhe, quando se grita com razão alivia-se o peito, aquece-se o coração, anima-se a alma e há sempre alguém que resiste, que acredita no grito quando este é sincero. Ainda não estamos no domínio da Idiocracia.

Não há nada de errado no que diz, no que faz. Continue. Se reparar, no blog A Viagem dos Argonautas, nós estamos  a fazer exatamente o mesmo, não por amiguismo, deixemo-nos disso, mas pelos princípios e estes, para todos nós, argonautas, ainda continuam a ser a razão de ser da nossa existência enquanto blog.

 

NOTAS

[i] Admitir extrativismo praticado por Boaventura de Sousa Santos é hoje ridículo. Há várias décadas, não o excluiria, a ele, a mim, e a muitos outros, mas hoje! Leia-se qualquer dos seus artigos para perceber o ridículo desta acusação.
Quanto à exploração laboral, pressupondo a sua existência, o que também é muito duvidoso no contexto em que é apresentada, ela não pode ser considerada pessoal, mas sim institucional e remete para as condições de trabalho dos seus investigadores e dos timings em que os seus trabalhos têm de ser apresentados.
[ii] Sublinho: não queremos chamar estúpido a ninguém. O termo estupidez aqui assume tanto o sentido de incapacidade de julgar, os media encarregaram-se de realizar esse trabalho, como o abdicar da capacidade de diferenciar, de julgar.
[iii] Dado o volume de emails e na hipótese de falta de tempo para a sua leitura , recomendo uma síntese dos mesmos muito bem feita por Graça Carapinha (texto disponível aqui: https://aviagemdosargonautas.net/2025/11/17/contra-factos-ha-argumentos-ainda-o-caso-boaventura-de-sousa-santos-por-graca-capinha/)

 

 

Leave a Reply