“Das esquerdas”: Um desvio de linguagem ou um desvio ideológico? – por Carlos Pereira Martins

“Das esquerdas”: Um desvio de linguagem ou um desvio ideológico?

por Carlos Pereira Martins

A expressão “das esquerdas” tem-se tornado cada vez mais frequente no discurso político e mediático contemporâneo. Mas quem a emprega fá-lo por ser de esquerda ou, pelo contrário, está a sinalizar uma transição — subtil, mas significativa — em direcção à direita?

Historicamente, a distinção entre esquerda e direita é clara, com raízes profundas no contexto pós-Revolução Francesa e que se foi consolidando ao longo dos séculos XIX e XX. A esquerda tem representado, em termos gerais, os ideais de justiça social, igualdade, solidariedade, intervenção do Estado na economia e defesa dos direitos das classes trabalhadoras. É um campo ideológico vasto e plural, com múltiplas correntes — do socialismo democrático ao comunismo, do ecossocialismo à social-democracia. No entanto, apesar da diversidade interna, há um fio condutor que une estas correntes: a busca de uma sociedade mais justa e igualitária.

Nesse contexto, sempre foi prática comum, entre pessoas politicamente conscientes, culturalmente atentas e com alguma formação ideológica, referir-se à “esquerda” e à “direita” como categorias políticas reconhecíveis, com conteúdo e história. Essa divisão, apesar de não explicar tudo, continua a ser útil para compreender o posicionamento ideológico dos actores sociais e políticos.

O que parece novo — e inquietante — é a emergência de uma linguagem que procura contornar estas categorias tradicionais. O uso de “as esquerdas” no plural, com uma entoação vagamente crítica ou irónica, tende a apresentar a esquerda como um mosaico fragmentado, disperso e, por vezes, inconsequente. Ao mesmo tempo, esse plural parece implicar uma distância: quem fala “das esquerdas” raramente se inclui nelas. A expressão soa menos como um reconhecimento e mais como um comentário vindo de fora — e frequentemente de cima.

Este tipo de discurso, que se quer moderno, desempoeirado e supostamente “equidistante” entre esquerda e direita, é frequentemente usado por quem quer marcar posição como independente, acima das ideologias ou “não alinhado”. Contudo, para quem tem raízes firmes na esquerda, esta linguagem é muitas vezes interpretada como um indício de deslizamento para a direita. Não necessariamente uma conversão explícita, mas um abandono progressivo dos compromissos ideológicos que definem a tradição de esquerda.

A escolha das palavras não é neutra — e muito menos inocente. Dizer “as esquerdas” em vez de “a esquerda” pode parecer uma nuance linguística, mas encerra uma intenção política. Pode ser uma tentativa de relativizar, de esvaziar o conteúdo ideológico, de apresentar a esquerda como um conjunto de caprichos ou facções, ao invés de uma corrente histórica com substância, pensamento crítico e propostas transformadoras.

Neste sentido, quem fala hoje “das esquerdas” talvez não esteja apenas a usar um novo vocabulário: pode estar, consciente ou inconscientemente, a preparar terreno para uma inflexão ideológica. Uma inflexão que, à luz da história e da coerência política, deve ser lida como um movimento — mesmo que disfarçado — em direcção à direita.

 

 

1 Comment

  1. Meu caro Carlos Pereira Martins,
    Compreendo o raciocínio e creio que estará certo. É um pouco como aqueles que dizem “eu não sou político”, e que logo se percebe que são de direita. Mas acontece que eu venho dizendo desde 1974, após o 25 de abril, que “sou um socialista das esquerdas”. E disse-o à pergunta de um jornalista em Bissau: -como é que o sr. capitão de define politicamente? E acontece que desde as eleições de 69 que me situo por essa faixa que na altura era representada pelo MDP/CDE. Mais tarde andei perto do MES, e mesmo quando este se deixou diluir no PS, sempre andei perto do Jorge Sampaio e do Ferro Rodrigues. E hoje, decorridos mais de 50 anos continuo a dizer que sou um socialista das esquerdas. E, pronto, Amigo, deixe-me continuar a dizer isto sem receio de estar a descair para a direita. Grande abraço de abril,
    JG84

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