Vivemos tempos curiosos, se é que a curiosidade ainda nos poderá servir de algum consolo. Para alguns, esta é a fase da calma. Dizem: “O povo votou!”, soletram-na com um tom de quem acabou de resolver um teorema milenar. Outros, acrescentam: “Ficou claríssimo!”, asseguram, com a convicção de quem aponta para um nevoeiro e vê nele a bola de fogo do sol a nascer. Para outros, é apenas, como dizem de braços baixos: “É o tempo deles!”.
Como se o tempo se tivesse tornado um condomínio rotativo onde, de tempos a tempos, se entregam as chaves do elevador social aos síndicos alternados – mesmo que estejam embriagados de ideologia e de desleixo.
Mas vamos ao que dói – a saúde. Quem confia, quem? Quem confia ou pode confiar em quem?
O português, esse ser resiliente e paciente, tem aguentado muito. Mas confiar na ministra Ana Martins é como confiar num GPS avariado a caminho do hospital: indica a direcção oposta, com voz firme, e ainda nos ralha se hesitamos. Incompetência notória, de tal forma que se torna quase artística. E não falamos de um falhanço simpático, de um engano casual. Não. Falamos de decisões que custam vidas. Sim, vidas humanas. Um detalhe dramático, mas real.
E se desviamos os olhos para os céus – ou melhor, para quem se dá ares de ser o dono, mas sem usar a qualidade, de tudo o que anda pelos céus – encontramos Nuno Melo. Fala por entre linhas, num jogo de sombras e meias palavras, onde o objectivo é parecer sempre razoável, credível até, mesmo quando diz disparates. Verdade seja dita, ele não sabe mais. Melhor, não sabe mesmo, nada de nada. É como aquele colega que, em reuniões, nunca se compromete com nada, passa o tempo a abanar a cabeça de cima a baixo, mas no fim aparece na fotografia como se tivesse liderado tudo.
Depois há o Chefe. O homem do sorriso cínico e rançoso, espécie de actor de cartaz antigo, que aparece pontualmente como nos interlúdios publicitários do cinema dos anos 60, vendendo-nos banha de cobra com sotaque de marialva domesticado. A sua especialidade? Inspirar desconfiança, até quando está calado.
E porque se o bolo não está ainda completamente estragado, que se estrague, voltamos aos grandes negócios. Escolhem-se, com a persistência de um vício antigo, as mesmas figuras envoltas em episódios dúbios, insistindo em privatizar o que já provaram não saber gerir. E a Justiça? Um poço de náusea. Bastam duas ou três intervenções do Procurador-Geral da República para provocar azia até em estômagos treinados para a política. O senhor desconhecia a lei, que não podia excluir grávidas dos concursos. ou mulheres a pensar um dia engravidar. Não leu, não leu livros nem jornais, que a coisa foi tão falada… nem ouviu notícias. Onde terá andado o senhor todos estes anos de leis democráticas?! Aquilo é jurisprudência com aroma a mofo.
E se olhamos para a Europa, desenganem-se os esperançosos: lá fora, o céu também está encoberto. A senhora Van der Leyen, ou “Van der Laden”, como já lhe chamam os menos diplomáticos, trocou e-mails com farmacêuticas com mais calor que um romance de verão. Foram revelados, tornaram-se públicos, chegaram às polícias… e, no entanto, passou no Parlamento Europeu com distinção. Como? Porque os socialistas e social-democratas europeus, eles TODOS, acharam que “podia vir pior”. E então abstiveram-se. A nova coragem política: a abstenção com ar de responsabilidade.
Cá dentro, tudo se espelha. A oposição assobia para o lado, a esquerda institucionalizada senta-se confortavelmente nos seus lugares, os autarcas preparam-se para mais um ciclo de gestão de rotundas e festas da sardinha. Todos com medo de fazer ondas. Não vá o mar agitar-se e arrastar-lhes o tacho.
Herman José dizia, com graça, que o Presidente da Junta era ele. Hoje, temos centenas, talvez milhares, de presidentes da junta – reais ou simbólicos – que se comportam como o personagem do Herman: dizem que fazem, mas não fazem nada, com o aplauso do público que já se esqueceu de rir.
E o Povo? Ah, o Povo! Cantavam os “Homens da Luta” questionando com razão: “E o Povo, pá?!”. O Povo, hoje, parece viver sob efeito de uma anestesia mediática. Amolecido por comentadores de circunstância, muitos a soldo, outros a favor de obra, vai aceitando tudo com uma estranha dignidade bovina. Vivemos num país de Brotas, como diz o povo da rua: defecam-lhes em cima e eles ainda perguntam se precisam de mais papel higiénico.
Não há pachorra, de facto. E agora?
Agora, talvez seja altura de deixar de esperar que “eles” façam ou refaçam. Talvez seja a nossa vez. Mas para isso, era preciso que acordássemos do sono quente do conformismo. E que o cheiro a fritos deixasse de nos distrair do cheiro a podre.
Porque isto, meus caros… isto cheira mesmo muito mal.
Como dizia Fernando Lopes Graça: ACORDAI !