Café, Cavalos e Golfinhos — ou como um simples café no Nilo, em Benfica, pode virar viagem mitológica
por Carlos Pereira Martins
(hoje, ao jeito de fábula, fabulosa!)
Há dias, parei em Benfica, na Pastelaria Nilo, à espera de um amigo que vive ali por perto. Íamos tomar um café e, como de costume, tentar pôr em dia conversas que nunca se esgotam, que se adensam com o tempo e se multiplicam a cada reencontro. Sentado à esplanada, com o sol a bater na chávena ainda por chegar, deixei-me ficar, entre pensamentos e recordações de fragmentos da cidade.
Numa mesa próxima, dois outros clientes de circunstância falavam entre si. Pela cumplicidade dos gestos e a liberdade das palavras, percebia-se que também a amizade os unia. No entanto, o tom da conversa era outro: menos brando, mais tenso, quase cortante. Falavam de um terceiro, ausente, que apelidavam de “cavalo de Tróia” — com uma insistência que me obrigou, involuntariamente, a escutar-lhes o discurso quase inteiro.
Ora, pensei para comigo, em Tróia — a nossa, não a da Ilíada — não me lembro de encontrar cavalos escondidos ou soldados disfarçados. O que se avista por lá, desde o momento em que se entra no ferry em Setúbal, são golfinhos. Belos, ágeis, donos de uma elegância líquida que faz inveja a qualquer criatura terrestre. Os cavalos e os golfinhos, aliás, têm isso em comum: a forma como o corpo parece dançar, seja em terra firme ou nas águas do Sado.
Chegado, enfim, o meu amigo, deixei os “cavalos” da mesa ao lado para trás. A conversa fluiu, como sempre, e a tarde passou sem pressas. Mas a ideia dos tais “cavalos de Tróia” ficou-me a ecoar. Dois dias depois, fiz-me ao caminho: rumei a Setúbal, almocei um choco frito como se manda, e apanhei o ferry para Tróia, ali mesmo ao lado da Avenida Luísa Todi.
Foi durante a travessia que se deu o inusitado. Uma golfinha — sim, era fêmea, e de uma graciosidade rara — aproximou-se do barco. Primeiro piscou-me um olho, depois o outro, e quase sorriu. Fiz-lhe sinal, com um gesto cúmplice, como quem marca encontro para dois dedos de conversa. Ela acenou com a barbatana e combinámos um momento a sós nas águas pouco profundas de Tróia, logo que o ferry atracasse.
Ali, entre espumas e conchas, contou-me a verdadeira história do Cavalo de Tróia. Não a dos gregos e troianos, mas a da má fama injusta que algumas criaturas carregam — nome dado a quem entra, não para destruir, mas para entender o outro lado da muralha. Disse-me a golfinha que, no seu mundo, os cavalos de Tróia são, na verdade, espiões do bem: observadores curiosos que se infiltram para descobrir belezas escondidas, para aprender, não para trair. Uma visão que me encantou e me esclareceu.
Grato pela partilha, convidei a minha nova amiga a vir conhecer outros mundos. Uns dias depois, navegámos juntos rio acima, do Sado ao Tejo, até às lezírias ribatejanas. Em Alter do Chão, visitámos uma coudelaria onde o tempo parece moldar os cavalos à imagem da nobreza antiga. Lá, conhecemos um casal de Cavalos Lusitanos de porte irrepreensível e movimentos de dança. Amizade à primeira vista.
Hoje, uma semana e meia passada sobre o tal café na Pastelaria Nilo, posso dizer com alegria — e até com alguma emoção — que conto entre os meus amigos mais belos e inspiradores uma golfinha sábia e um par de cavalos que parecem saídos de um sonho ibérico. São companhias improváveis, é certo. Mas é também por isso que a vida vale a pena: pelas fábulas que nos permitimos viver, e por aquelas que, mesmo inventadas, dizem verdades que só o coração entende.
E assim se fez a ponte entre dois mundos. E posso dizer que tenho como amigos uma golfinha diplomata e um casal de cavalos de Alter com mais estilo do que muito pavão que aparece nos comentários nas televisões.
Moral da história? Nunca subestimes o poder de um café, de um insulto ouvido ao acaso ou de um ferry apanhado para uma travessia por impulso. Às vezes, são essas pequenas coisas que nos levam a grandes histórias. E se pelo caminho ainda se junta um golfinho e uns cavalos de Tróia — ou de Alter — então é porque a vida está, de facto, de bem contigo. E tu, com ela.
2025 Agosto 29


Magnifico momento de inspiração! Grato pela partilha. JG84