CARTA DE VENEZA – Veneza e os símbolos por Vanessa Castagna

 

São dias de grandes acontecimentos em Veneza, desde o encerramento de mais um excelente Festival Internacional de Cinema até à tradicional “regata histórica”, com o seu sugestivo desfile de barcos pelo Grande Canal. Se alguns eventos parecem elementos inabaláveis da vida cultural veneziana, há um artefacto carregado de valor identitário que acaba de ser posto em causa na sua autenticidade.

Se há uma imagem que facilmente se associa a Veneza é a estátua de bronze que representa o leão alado de São Marcos, colocada no topo de uma das duas colunas que dominam a Praça de São Marcos, símbolo da cidade desde o século XIII. Todavia, é notícia recente que a estátua poderá ter vindo da China, como parece apontar um estudo que detetou vestígios de chumbo, típicos da produção chinesa, e que faria recuar a realização da escultura há mais de mil anos.

Por outro lado, de facto a estátua mostra parecenças evidentes com os chamados “guardiões das tumbas” da dinastia Tang, que eram criaturas híbridas, com focinho e juba de leão, mas também asas, que deveriam proteger os túmulos imperiais. O seu estilo foge às convenções estéticas locais da época e supõe-se agora que possa ter tido asas diferentes, orelhas mais curtas e chifres a ornamentar a cabeça.

São muitas, no entanto, as informações em falta. A estátua do leão alado poderá ter chegado a Veneza graças aos mercadores Niccolò e Maffeo Polo (respetivamente pai e tio do célebre Marco), que poderiam tê-la adquirido durante as suas viagens pela Ásia. Já em Veneza, a escultura terá sido modificada para personificar o símbolo da República, ou seja, um leão alado com as patas dianteiras firmes sobre o evangelho aberto, congregando o poder político e religioso da Sereníssima.

(Créditos de imagem: Patrick Clenet, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons)

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