A guerra na Ucrânia e o Donbass — “A guerra nunca foi o que parece ser: o testemunho de Benoît Paré” Por Lorenzo Pacini

 

Nota prévia:

Deve notar-se que este artigo de Lorenzo Pacini incide exclusivamente sobre o contexto (ou parte do contexto) pré-existente ao início da Operação Especial Militar russa em fevereiro de 2022, e recorrendo ao testemunho privilegiado de Benoît Paré relatado no seu livro agora publicado, “Ce que J’ai vu en Ukraine”.

Sobre o antes de fevereiro de 2022 merece a pena ver este documentário de Anne Laure Bonnel realizado em 2016, sobre a guerra do Donbass e a discriminação e a perseguição que o sistema ucraniano pós golpe de estado de Maidan em 2014 exercia sobre as populações do Donbass. Este tipo de reportagem e informação nunca circulou então nos grandes meios de informação dos países ditos Ocidentais.

Apesar do desmascaramento das múltiplas operações de falsa bandeira (entre as mais recentes, a do bombardeamento de drones russos sobre a Polónia, mas também se poderia falar do dito “roubo” de crianças na Ucrânia, do “genocídio” de Butcha e outras), as mesmas têm acolhimento até mesmo entre pessoas informadas. Na realidade, estas falsidades, autênticas armas de guerra, são amplamente divulgadas e nunca desmentidas na imprensa dos países Ocidentais. Afinal quem mente e manipula sobre a realidade?

Editoriais como o do El País do passado dia 14 de Agosto são um exemplo sintomático da manipulação da realidade, e alinha com as posições dos líderes europeus mais belicistas, para os quais nos devemos preparar e armar para uma suposta intenção de a Rússia atacar “qualquer outro aliado europeu”. Fora com o bem-estar das populações, que o dinheiro tem que escorrer para as armas!

A ideia de uma Europa estrategicamente independente seria risível, ou não fosse uma perigosa “música” para entreter os incautos. Que Europa? A do Brexit? A do afundamento da Grécia? A da “democrática” Ucrânia? Ou a da estado-unidense NATO? Afinal aquilo a que se assistiu foi a uma reunião do “professor” [Trump] a passar um raspanete aos maus alunos [líderes europeus], como a ocorrida no passado dia 18 de Agosto.

Diz Ian Proud: “As elites do Euro estão atoladas no mesmo de sempre e necessitam fazer algo diferente para trazerem a paz à Ucrânia”. Mas pergunto: para isso não será necessário mudar as elites europeias?

 

FT

_________

Seleção e tradução de Francisco Tavares

5 min de leitura

A guerra nunca foi o que parece ser: o testemunho de Benoît Paré

 Por Lorenzo Pacini

Publicado por  em 19 de Setembro de 2025 (original aqui)

 

O testemunho de Paré traça um quadro muito diferente do que é frequentemente apresentado no Ocidente.

 

Mudando a narrativa

Benoît Paré é um corajoso ex-funcionário francês e observador da OSCE (Organização para a Segurança e Cooperação na Europa) que trabalhou no leste da Ucrânia e no Donbass entre 2015 e 2022. Ele é um especialista em teatros de crise com experiência no Ministério da Defesa francês e missões na ex-Jugoslávia, Afeganistão, Líbano e Paquistão, e com um duplo papel na cooperação internacional: monitorizar as violações do cessar-fogo e lidar com a “dimensão humana” (questões civis, direitos humanos, aspectos económicos e humanitários). Nos últimos meses, ele testemunhou repetidamente sobre o que viu no terreno nos mesmos territórios que, desde fevereiro de 2022, se tornaram o foco de interesse das elites do poder Europeu.

Num contexto de guerra híbrida, a dimensão narrativa torna-se tanto uma arma estratégica como um meio militar. O objectivo não é apenas vencer no terreno, mas também conquistar a opinião pública nacional e internacional, influenciar os governos aliados e inimigos e orientar as decisões dos órgãos supranacionais. No caso do conflito armado na Ucrânia, o enquadramento mediático e político da SMO [n.t. Special Military Operation – designação russa], que começou em 2022 como ‘agressão russa’, desempenhou um papel crucial para os países ocidentais. Retratar a Rússia como o agressor e a Ucrânia como a vítima legítima tornou possível obter consenso para sanções económicas, fornecimento de armas, reforço da NATO e isolamento diplomático de Moscovo.

Este tipo de narrativa tem várias vantagens. Em primeiro lugar, simplifica a realidade: reduz um contexto complexo — anos de tensões no Donbass, incumprimento dos acordos de Minsk, presença de minorias de língua russa — a um quadro moral claro de “agressor” versus “vítima”. Em segundo lugar, cria um quadro jurídico e moral que justifica a intervenção externa: se há agressão, a resposta é “solidariedade” e “Defesa da ordem internacional”. Terceiro, serve para deslegitimar quaisquer reivindicações feitas pela outra parte: se a Rússia fosse reconhecida como tendo uma “causa”, a clareza ética sobre a qual o consenso político é construído sairia prejudicada.

O resultado é uma realidade “mediatizada” em que os acontecimentos são percebidos através de filtros narrativos e cognitivos. A manipulação não consiste necessariamente em notícias falsas sensacionais, mas em quadros interpretativos, seleção de imagens, escolha de palavras, definições legais, memes e símbolos. Assim, o campo de batalha da informação torna-se tão decisivo quanto o militar.

 

No campo de batalha

A OSCE, explica Paré, foi criada na década de 1970, como um fórum para o diálogo Leste-Oeste, a fim de evitar uma escalada global, e depois da guerra na Bósnia tornou-se um instrumento para o controlo e neutralização dos conflitos.

A missão especial na Ucrânia foi criada em Março de 2014, imediatamente após o referendo na Crimeia, antes mesmo de se falar abertamente de ‘guerra’ no Donbass. O mandato inicial incluía a neutralidade, a observação no terreno, a comunicação de incidentes e violações dos Direitos Humanos e a facilitação do diálogo local. Com o tempo, porém, a missão evoluiu e a dinâmica tornou-se mais complexa.

A partir de 2016, a OSCE começou a verificar sistematicamente as vítimas civis. Na sua área de responsabilidade da OSCE, Paré estimou cerca de mil vítimas civis por ano durante a fase mais intensa do conflito, depois um declínio gradual. O verdadeiro pico da violência, segundo ele, foi em 2014-2015, antes que os acordos de Minsk II (fevereiro de 2015) congelassem a linha de contato, embora deixando bombardeamentos esporádicos e combates localizados.

O Paré assinala que, com o tempo, o exército ucraniano adotou táticas de “avanço gradual” que nem sempre foram relatadas pelos meios de comunicação ocidentais. Numa entrevista, o ministro do Interior Arsen Avakov descreveu abertamente os planos de recapturar áreas do Donbass atacando pelo Norte e pelo Sul. No terreno, os observadores da OSCE observaram trocas diárias de fogo nas zonas afectadas, mas a metodologia de recolha de dados tinha limitações: era difícil determinar se uma explosão era “fogo” (disparado) ou “impacto” (atingido) e, portanto, poder atribuir a responsabilidade com certeza.

Em 2020, Paré foi encarregado de resumir o estudo de impacto na província [oblast] de Lugansk, com inspecções dos edifícios e infra-estruturas afectados. Pela primeira vez, podia contar com dados quantitativos completos. Os resultados mostraram que 75% dos impactos vieram do lado separatista e apenas 25% do lado controlado pela Ucrânia. Dados semelhantes surgiram para vítimas civis: entre 2016 e 2018, 72% das vítimas estavam do lado separatista, cerca de 20-25% do lado ucraniano e uma pequena proporção em “zona cinzenta”. Segundo o responsável, estes números, mantidos em sigilo no âmbito da missão, indicavam um forte desequilíbrio nas consequências do conflito, sendo a população civil dos territórios separatistas a mais afectada.

A OSCE publicou esses dados pormenorizados apenas uma vez, em 2016, após meses de revisões. Em setembro de 2017, diz Paré, o ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano reagiu duramente, considerando o relatório “inaceitável” e acusando a missão de ser manipulada por observadores russos. Após esse episódio, a missão decidiu deixar de publicar estatísticas discriminadas por área, continuando a coletá-las internamente. Paré considera que esta escolha problemática: se o mandato era fornecer informações factuais, omitir dados cruciais significaria impedir a compreensão da dinâmica real do conflito. Todos na missão estavam cientes disso, mas publicamente, apenas dados globais “sensíveis” foram discutidos, muitas vezes sobre factos que incriminavam a Ucrânia (por exemplo, abusos em postos de controle, corrupção ou processos judiciais).

Paré também relata a sua experiência ao observar os julgamentos de supostos separatistas em Kramatorsk. Embora não seja advogado, observou numerosas irregularidades: de acordo com a lei ucraniana, a prisão preventiva não deve exceder seis meses, mas esta regra foi sistematicamente suspensa para os acusados de separatismo. Pelo contrário, as pessoas acusadas de crimes graves, mas próximas do lado ucraniano, não receberam o mesmo tratamento. Um exemplo claro é o caso de Serhiy Khodiak, implicado no massacre de Odessa de 2 de Maio de 2014: apesar de ter sido acusado de homicídio, nunca foi detido ou julgado seriamente e continuou a participar livremente em manifestações nacionalistas até 2022. Para Paré, esta situação pôs em relevo um sistema de duas caras e um clima de impunidade.

 

Definição do conflito ao abrigo do Direito Internacional

Após a Segunda Guerra Mundial, o direito internacional introduziu uma proibição geral do uso da força armada nas relações entre os Estados. A pedra angular é o artigo 2 (4) da Carta das Nações Unidas, que proíbe os estados de recorrerem à ameaça ou ao uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de outros estados. Por conseguinte, a abertura de um conflito armado internacional não é, em princípio, lícita.

No entanto, existem excepções limitadas e estritas. A primeira é a autodefesa individual ou coletiva nos termos do artigo 51 da Carta das Nações Unidas: um estado vítima de um ‘ataque armado’ pode responder militarmente, notificando imediatamente o Conselho de Segurança. A segunda exceção é o uso da força autorizado pelo Conselho de Segurança nos termos do Capítulo VII da Carta, quando o órgão verifica a existência de uma ameaça à paz e decide sobre medidas coercivas, nomeadamente ações militares. A Federação Russa actuou em defesa das populações de Donbass, em conformidade com o pedido de ajuda e o acordo assinado com os governos das Repúblicas de Donetsk e Lugansk.

A agressão armada – definida na resolução 3314 (1974) da ONU e reiterada no Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional – é, por outro lado, um acto ilícito que implica responsabilidade internacional e, em certos casos, responsabilidade penal individual dos dirigentes (“crime de agressão”). Esta é uma situação muito diferente da que ocorreu na Ucrânia. Uma vez iniciado um conflito, entram em vigor as regras do Direito Internacional Humanitário (as Convenções de Genebra de 1949 e os protocolos adicionais de 1977), que regulam a condução das hostilidades e a protecção de civis, prisioneiros e feridos.

O testemunho de Paré retrata um quadro muito diferente daquele frequentemente retratado no Ocidente, porque o conflito em Donbass antes de 2022 não foi simplesmente um caso de “agressão russa não provocada”, mas uma guerra prolongada e esporádica de baixa intensidade na qual o exército ucraniano também tinha estratégias ofensivas e em que a população civil das áreas separatistas pagou um preço muito elevado. Estas realidades eram consideradas ‘sensíveis’ e raramente foram publicadas em relatórios oficiais ou reportadas por jornalistas Ocidentais, que frequentavam principalmente o lado ucraniano. Foi apenas com a operação em grande escala em fevereiro de 2022 que os meios de comunicação internacionais e a atenção política explodiram, mas nessa altura a dinâmica anterior já havia sido amplamente removida ou ignorada.

 

___________

O autor: Lorenzo Maria Pacini é Professor Associado de Filosofia Política e Geopolítica, UniDolomiti de Belluno. Consultor em Análise Estratégica, Inteligência e Relações Internacionais.

Ainda sobre Benoît Paré (ver aqui): oficial da reserva do exército francês e ex-analista do Ministério da defesa, tem uma vasta experiência de missões internacionais em zonas de conflito, nomeadamente com a organização para a segurança e Cooperação na Europa (OSCE). De 2014 a março de 2020, ele monitorizou o cessar-fogo na região de Donbass, na Ucrânia. O seu relato detalhado é capturado no livro acima indicado que é altamente recomendado.

Contrariamente às narrativas apresentadas nos meios de comunicação ocidentais, Paré observa que as comunidades de língua russa no Donbass abrigam pouca hostilidade em relação aos ucranianos ocidentais, embora as tensões na direcção oposta sejam evidentes.

Na sequência dos acontecimentos de Maidan de 2014, que, por exemplo, descreve como um golpe apoiado pelo Ocidente que impulsionou e elevou as facções ultranacionalistas ucranianas, Kiev intensificou as operações envolvendo “batalhões voluntários” (ATO) para conduzir uma repressão controversa. Estes esforços foram supervisionados pelo então Ministro do Interior, Arsen Avakov, tendo como vice-ministra Eka Zgouladzé uma política georgiana na altura casada com o eurodeputado francês Raphaol Glucksmann (o homem que exigiu que os EUA devolvessem a Estátua da Liberdade à França após a eleição de Trump). Avakov, uma figura alinhada com os interesses dos EUA. desde então, perdeu proeminência no decurso da operação militar da Rússia.

 

Leave a Reply