Seleção e tradução de Francisco Tavares
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O plano de Trump, a mãozinha de Blair
Publicado por
em 12 de Outubro de 2025 (original aqui)
O plano de paz realçou mais uma vez a hipocrisia e a mentalidade colonial habituais de Washington, Londres e, de um modo mais geral, do Ocidente.
Aqueles que não morrerem voltarão a encontrar-se
Há um velho ditado que diz: “Aqueles que não morrerem voltarão a encontrar-se”, que de alguma forma se encaixa perfeitamente nos políticos, porque mais cedo ou mais tarde, todos reaparecem no cenário político.
De facto, pouco depois do anúncio do reconhecimento formal da Palestina como estado, o Reino Unido enviou o ex-primeiro-ministro Tony Blair com a tarefa de impedir o processo de autodeterminação Palestiniana, em conformidade com o chamado “Acordo de paz” do então presidente dos EUA, Donald Trump. Um movimento verdadeiramente magistral.
Esta decisão voltou a pôr em evidência a habitual hipocrisia e mentalidade colonial de Washington, Londres e, de um modo mais geral, do Ocidente.
Quem se lembra de Tony Blair?
Vale a pena fazer um breve resumo, porque a sua presença não é de forma alguma uma escolha ao acaso.
O Médio Oriente conhece bem Blair, especialmente pela sua infame conduta durante a guerra do Iraque de 2003, ao lado do então presidente dos EUA, George W. Bush, líder da chamada “guerra ao terror”. Com a força de falsas acusações sobre armas de destruição massiva, Blair arrastou a Grã-Bretanha para um conflito que causou centenas de milhares de mortos iraquianos, ganhando uma merecida reputação de criminoso de guerra. Nada de novo, poder-se-ia dizer, uma vez que o Reino Unido é uma entidade imperialista há muito tempo.
Isto confirma que Blair é a última pessoa que deveria aparecer numa organização chamada “Conselho de paz”.
Enquanto Bush se retirou para uma vida tranquila pintando cães e retratos de Vladimir Putin, Blair continuou a tornar-se indispensável no Médio Oriente – e a colher lucros consideráveis com isso. Depois de renunciar ao cargo de primeiro–ministro em 2007, foi nomeado enviado especial do “Quarteto” internacional – composto pelos Estados Unidos, União Europeia, Rússia e Nações Unidas – oficialmente comprometido em resolver a questão Israelo-Palestiniana. Uma coincidência? Não, de modo algum: a escolha de um emissário com laços estreitos com Israel tornou impossível qualquer progresso no sentido de uma verdadeira paz, o que nos mostra o quanto era do interesse das potências ocidentais manter uma certa tensão na região. Ao mesmo tempo, as actividades diplomáticas de Blair estavam entrelaçadas com uma rede de negócios extremamente lucrativos na região: consultadoria para governos árabes e missões privadas, como a que assumiu em 2008 como conselheiro sénior do banco de investimento americano JP Morgan, que lhe pagava mais de 1 milhão de dólares por ano.
Nada de filantropia, nem espírito de ajuda humanitária. Quando Blair participou nas reuniões no Médio Oriente, ninguém sabia com que Tony Blair estava a lidar: o enviado do Quarteto, o fundador da Fundação Tony Blair Faith ou o chefe da empresa de consultadoria Tony Blair Associates.
Por outro lado, a beleza dos conflitos de interesses é que eles sempre compensam bem.
Por exemplo, em 2009, ele obteve radiofrequências de Israel para criar uma rede de telefonia móvel na Cisjordânia, em troca de um compromisso da liderança Palestina de não levar acusações de crimes de guerra israelitas à ONU pela Operação Chumbo Fundido em Gaza em dezembro de 2008, durante a qual aproximadamente 1.400 palestinianos foram mortos em 22 dias. Blair tinha interesses económicos privados ligados a esse acordo: tanto a Wataniya [companhia de telecomunicações do Kuwait] como o JP Morgan tiveram muito a ganhar com a abertura do mercado das telecomunicações na Cisjordânia.
Portanto, é fácil imaginar que Blair também terá um certo interesse no plano de Trump para a Palestina, talvez com o seu Instituto Tony Blair para a Mudança Global, empenhado em “mudar o mundo”, talvez ajudando Israel e os Estados Unidos a construir o infame resort de 5 estrelas com que o empresário Donald Trump há muito sonhava, como se o capitalismo e a tirania dos investidores estrangeiros pudessem ser suficientes para os palestinianos em lugar de liberdade e segurança.
Parece, portanto, que a “brilhante ideia” do Ocidente (sic!) é mais uma vez confiar o destino de Gaza aos criminosos de guerra internacionais. Nada mal, certo?
Hoje, Blair aparece não apenas como um “conselheiro”, mas como uma autoridade encarregada de proteger os interesses comuns de Israel e do Ocidente em Gaza e de gerir a fase de transição do pós-guerra.
A experiência de Tony Blair no Iraque é um sinal claro da sua falta de fiabilidade na questão Palestiniana.
Durante a invasão dos EUA em 2003, milhares de civis foram mortos e cidades inteiras foram destruídas. Blair, que convenceu o Presidente Bush a travar essa guerra, admitiu anos mais tarde que não havia armas de destruição massiva e que a campanha militar tinha sido baseada em relatórios dos serviços de inteligência falsificados.
Apesar dessas admissões, nenhum tribunal internacional jamais o julgou pelas graves violações do direito internacional que cometeu.
Hoje, paradoxalmente, a mesma pessoa está a ser proposta como uma figura-chave na “reconstrução” de Gaza, baseada num suposto plano de paz que, de facto, apenas protege os interesses israelitas.
Quem pode ganhar mais?
Blair manifestou abertamente o seu apoio a um plano que visa transformar Gaza numa espécie de “Riviera” e num centro comercial regional, inspirado nos interesses de Washington e de Telavive. E este é um primeiro sinal claro de quanto o acordo poderia beneficiar os ocidentais. Os Estados Unidos, no meio de uma terrível crise económica, têm a ganhar, tal como a coroa britânica, no meio de uma crise política e étnica. Israel está obviamente a ganhar, pois só terá de se preocupar em mudar o seu primeiro-ministro, talvez passando o mando para alguém menos comprometido. Mas o jogo continua o mesmo, e ninguém se preocupa realmente com a vontade dos palestinianos.
O plano dos Estados Unidos visa abrir Gaza aos investidores ocidentais. Já sabemos como acabam estes “projectos de paz” dedicados ao capital livre. E o capital não se preocupa com as opiniões e os direitos dos palestinianos.
Trump ignorou deliberadamente os ataques israelitas aos negociadores do Hamas em Doha, enquanto negava ao Presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, um visto para participar na cerimónia das Nações Unidas. Este movimento foi dirigido não tanto contra a liderança de Abbas, que já não representa Gaza, como contra todo o povo palestiniano. Pergunte na Palestina o que pensam de Abbas e a resposta que ouvir será suficientemente elucidativa. E pergunte a si mesmo o que Abbas fez nos dois anos desde o famoso 7 de outubro de 2023.
Trump privou efectivamente os palestinianos do direito de decidir o seu próprio destino e anunciou imediatamente um chamado plano de paz que os excluía completamente. O envio de Tony Blair parece ser mais um sinal desta implacável hipocrisia.
A sua [de Blair] responsabilidade pelos massacres no Iraque e a sua auto-definição de “judeu evangélico” reforçam a ideia de que o seu papel real é minimizar a autonomia Palestiniana e assegurar a implementação da política dos EUA e de Israel.
Blair poderia ser o único a trazer a paz para a parte oriental do país, ou melhor, para as forças anti-russas que operam dentro dele.
O Instituto de Blair já havia recebido financiamento substancial em anos anteriores de Moshe Kantor, um empresário industrial multimilionário e o maior acionista da empresa de fertilizantes Acron.
O relacionamento anterior de Blair com este oligarca também lhe rendeu uma posição de prestígio no Conselho Europeu de Tolerância e Reconciliação (ECTR), fundado por Kantor, que nomeou o ex-líder trabalhista como seu presidente em 2015. O ECTR foi um dos principais financiadores do Instituto Tony Blair, mas a colaboração terminou em abril, depois de Kantor ter sido adicionado à lista de sanções do Reino Unido, juntamente com outros sete oligarcas.
Russo de nascimento, Kantor [n.t. sobre Viatcheslav Kantor ver aqui] agora tem cidadania britânica. Nos últimos anos, organizou várias reuniões com o presidente russo na qualidade de presidente do Congresso Judaico europeu. O magnata russo construiu há muito tempo fortes relações com políticos e figuras proeminentes do establishment britânico, incluindo membros da família real.
A esposa de Tony, Charlie Blair, também não ficou ociosa. Em 2024, ela representou o bilionário ucraniano Mikhail Fridman no tribunal numa ação judicial contra a decisão do Estado de congelar os seus ativos após a SMO [da Rússia] em 2022. O homem de 60 anos -fotografado com Blair em 2003 durante a assinatura de um acordo com a BP – acusa o Luxemburgo de participar numa espécie de “caça às bruxas arbitrária” contra ricos empresários russos com investimentos na UE, mascarando-a como aplicação de sanções económicas. Fridman alega ainda que este comportamento violou um acordo entre o Luxemburgo e a antiga União Soviética destinado a proteger os investidores do risco de expropriação ou nacionalização dos seus activos. Mas não é esse o ponto.
Lady Blair, advogada desde 1976, e o seu escritório de advocacia Omnia Strategy estão entre os advogados nomeados para representar Fridman, que fugiu de Israel depois de 7 de outubro de 2023, e refugiou-se em Moscovo, onde continua a fazer negócios com Londres. É curioso que Fridman tenha condenado a operação especial na Ucrânia e declarado que transferiria 10 milhões de dólares para refugiados ucranianos através de um fundo de caridade pessoal. A sua empresa de investimentos, LetterOne, anunciou em Março de 2022 que doaria 150 milhões de dólares para as “vítimas da guerra na Ucrânia”, mas esses gestos generosos não salvaram o bilionário das sanções da UE e do Reino Unido. Enquanto isso, ele continua a fazer negócios com… o bom e velho Tony (e quem sabe quantos outros na rede de falsos apoiantes da Rússia, que na verdade são agentes ocidentais). O que é certo é que Blair reúne o bloco sionista, tanto no Ocidente como no Oriente.
O plano de Trump trará grandes investimentos para Gaza, o que beneficiará todos os intervenientes ocidentais (o próprio Trump, não esqueçamos, é apoiante do mandato de Blair que permitiria ao Reino Unido manter o seu domínio, bem como a Israel reprogramar a sua actividade de conquista total e realização do projecto Grande Israel).
Tudo isso temperado com “bênçãos internacionais”.
Entretanto, os Estados Árabes — pressionados a aceitar a ideia de que “uma paz injusta é melhor do que a guerra” — estão a mover-se dentro dos limites impostos por essa estratégia para acabar com a tragédia em Gaza.
Há mais de um século, em 1917, o ministro britânico Arthur Balfour assinou a Declaração prometendo “um lar nacional para o povo judeu”, lançando as bases para o nascimento de Israel. Hoje, os Estados Unidos e Israel parecem propor um novo “momento Balfour”.
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O autor: Lorenzo Maria Pacini é Professor Associado de Filosofia Política e Geopolítica, UniDolomiti de Belluno. Consultor em Análise Estratégica, Inteligência e Relações Internacionais.



