Inteligência Artificial – Introdução (1ª parte). O ensino e a inteligência artificial . Por Júlio Marques Mota

Inteligência Artificial – Introdução (1ª parte)

O ensino e a inteligência artificial – algumas notas de leitura

8 min de leitura

 Por Júlio Marques Mota

Coimbra, 4 de Julho de 2025

 

Diálogo entre um trabalhador diferenciado e um trabalhador indiferenciado

 – A inteligência artificial não pode tirar-lhe o seu emprego se o seu emprego nunca precisou de inteligência.

— Não entendo!

– Ah, está salvo

 

 

Ontem à laia de desabafo um amigo escreveu-me dizendo:

“Hoje assisti a um debate na CNN Tuga, sobre o uso de Tms por miúdos até ao sexto ano (segundo ano de liceu no nosso tempo), ou seja, em média até aos 12 anos.

Mas o que me espantou foi ver dois jornalistas, Anselmo Crespo (que considero dos poucos que se aproveitam nas TVs) e Mafalda Anjos, serem a favor da proibição e apoiando o ministro, o que eu concordo, e dois professores, um considerado especialista em estatística e outro professor de Físico-químicas, a defenderem o uso de Tms nas escolas por miúdos até aos doze anos. Fiquei espantado com os argumentos, que falavam genericamente sobre as vantagens das novas tecnologias, o progresso, e outros lugares-comuns e banalidades, esquecendo que estávamos a falar de miúdos, completamente imaturos, cujo uso de um Tm não lhes traz nada de novo, só os distrai e isola.

Costumo ser crítico dos jornalistas, mas desta vez concordo com eles, e mostraram conhecer melhor a realidade do que os ditos professores, dos quais não fiquei com boa impressão. (…)

Relembro que o uso e abuso de Tms contribui muitas vezes para a perda de autoridade dos professores.

O meu neto frequentou um colégio privado e não havia lugar a uso de Tms nas aulas. (…)

Desculpa o desabafo, mas ou eu estou muito errado ou isto com esta gente não vai lá”. Fim de citação.

Ontem à noite recebo na minha caixa do correio eletrónico dois textos sobre o tema do ensino e as novas tecnologias, um de Brad Delong e um outro publicado pelo jornal The New Yorker. Uma curiosa coincidência. Claramente fiquei furioso com a informação dada pelo meu amigo: ver professores de ciências a defenderem a utilização de telemóveis por crianças quando está mais que demonstrado os efeitos nefastos da sua utilização é grave, muito grave. Isso incomodou-me e muito.

Isto fez-me lembrar um anúncio que tinha visto no sítio da FEUC com um título que me chamou a atenção: Despertar Inteligências. Do programa destaco o título e o nome dos seus principais oradores. Tudo me leva a crer que para estes oradores, o futuro não é já amanhã, é já hoje, hoje com a utilização da Inteligência Artificial, com a companhia de Copilot , ChatGPT, DeepSeek e outros.

Título: Despertar inteligências – Jornadas Pedagógicas da FEUC | 2 DE JULHO

Dos oradores destaco os quadros de duas empresas ligadas à criação e difusão das novas tecnologias:

O título da sessão da FEUC e os oradores significam para mim que o que se terá defendido nessa sessão é a difusão das novas tecnologias no ensino e penso mesmo que na FEUC e noutras Faculdades da Universidade de Coimbra se poderá fazer como já fizeram algumas universidades americanas: parcerias com os gigantes da informática para um Ensino de Futuro.

Quanto a isso não quero fazer comentários, mas tendo em conta a degradação do ensino que se assiste em Portugal e no mundo, não é de esperar outra coisa com sessões deste tipo. Creio ter sido Michel Godet que em tempos idos terá dito que se um diploma vale pouco então menos vale quem o não tem. Aqui poderíamos dizer a mesma coisa, mas em jeito de absurdo: um diploma vale tanto menos quanto mais altas são as notas que se atribui aos seus alunos. Um exemplo podemos tê-lo na própria FEUC com as cadeiras imaginárias ditas de Projeto Integrador e a disciplina Responsabilidade Ética e Sustentabilidade, onde por defesa do que não é defensável terão de atribuir boas notas.

Disse-o muito antes do novo curso começar a funcionar, disse-o ao diretor da FEUC de então, responsável por esta vergonha de reforma em dezembro de 2023, o professor Álvaro Garrido, informei também o atual diretor, José Manuel Mendes, e disse-o agora numa série de textos sob o título de “Autópsia de uma morte de há muito tempo anunciada, a da Universidade”. Quem quiser que confirme se a minha previsão de então saiu errada ou se está certa, mas de uma outra coisa eu estou certo: não preciso de perguntar nada a ninguém, para descrever o que é o futuro próximo da FEUC. Para tal, basta-me perceber o que é aquela casa onde morei mais de 35 anos, basta lembrar-me do que motiva muita daquela gente naquilo que faz, a carreira, basta-me entender que o poder democrático é uma coisa, o mando advindo de um título que se tem e que nada tem a ver com o que deve e é necessário fazer, é uma outra bem diferente. Com isto refiro-me ao mundo dos catedráticos de aviário que enchem os corredores das Faculdades de agora em Portugal.

Um exemplo simples, muito simples: há dias cruzo-me com um casal de antigos alunos meus de há mais de trinta anos, ambos bons alunos e com a particularidade de ele ter tido a nota de 17-18 valores, o máximo que dei na vida, e foi em Economia Internacional o melhor aluno daquele ano. Falámos dos velhos tempos. Depois, repostos os pés fora do espaço da memória, isto é, com os pés assentes na terra, falámos do agora. Este casal tem um filho que conclui agora a sua licenciatura na FEUC e em Gestão. E em forma de desabafo diz-me: nada é como no meu tempo: o meu filho praticamente não precisou de estudar para passar a tudo. É tudo terrivelmente fácil. Não quis entrar em linha de crítica seja com quem for, despedi-me e fui fazer as minhas compras.

Curiosamente, o programa da FEUC acima reproduzido fala em Despertar Inteligências, possivelmente através dos programas de Inteligência Artificial, dado que nos falam da

Inteligência Artificial para o ensino: o futuro é agora!

Eu nunca falaria em despertar inteligências, eu falaria em criar inteligências, pois a função do professor no ensino é exatamente a de contribuir para a criação de inteligência, mas isso é todo um outro mundo que não tem nada a ver com o que se está a fazer hoje, na FEUC, em Portugal, no mundo. É o seu oposto.

Pois bem, são estes mesmos senhores, os senhores dos cursos fáceis, das matemáticas pelos mínimos nunca pensáveis, que pensam em despertar inteligência e para isso vêm falar aos estudantes e docentes sobre Inteligência Artificial, como se não bastasse a utilização em excesso das tecnologias digitais, o que é equivalente ao uso intensivo do telemóvel nas escolas até ao secundário.

Não quero escrever nenhum artigo sobre o tema: Deixem-me transcrever o que disse a OCDE em 2023 sobre a crise do ensino:

“Apesar dos esforços significativos de governos e parceiros sociais para fortalecer os sistemas de educação e formação de adultos na última década, a pesquisa revela um cenário de competências extremamente desigual, com um número crescente de pessoas mal preparadas para o futuro. Nos últimos dez anos, apenas Finlândia e Dinamarca apresentaram melhorias significativas nas habilidades de alfabetização de adultos, enquanto os demais países e economias participantes experimentaram estagnação ou declínio.

A situação é menos sombria quando se trata de proficiência em matemática: oito países viram as suas médias melhorarem, com Finlândia e Singapura registando os maiores avanços. Por detrás da queda nos níveis médios de habilidades, as desigualdades dentro dos países estão a ampliar-se. Em todos os países participantes, um quinto dos adultos consegue apenas entender textos simples ou resolver operações aritméticas básicas. A incidência disso varia amplamente entre os países.

Isso é particularmente preocupante no contexto de rápidas mudanças tecnológicas e económicas, que recompensam cada vez mais aqueles com habilidades avançadas de leitura, matemática e resolução de problemas, enquanto deixam os outros para trás.

É necessário melhorar o acesso à educação e à formação, fortalecer os sistemas de aprendizagem de adultos e investir em esforços para capacitar todos os indivíduos com as habilidades de que precisam para prosperar”. Fim de citação.

 

Em 14 de Março de 2025, o Financial Times publicou um notável artigo sobre o tema com a assinatura de John Burn-Murdoc

Have humans passed peak brain power? Data across countries and ages reveal a growing struggle to concentrate, and declining verbal and numerical reasoning

que deu origem a uma longa série de artigos sobre o tema. O primeiro texto da série que agora iniciamos é um texto de síntese, um texto intitulado: Já atingimos o ‘pico da nossa capacidade cognitiva? de Harriet Marsden, publicado em março deste ano.

Aqui entram as coincidências daquela noite. Lembrei-me, tinha-os bem presentes, de dois textos que tinha lido e que foram publicados por James Bradford Delong e pelo New Yorker, textos que se seguirão ao de Harriet Marsden nesta série.

Com esta gente não vamos longe, dizia-me o meu amigo de ontem conforme reproduzi acima e dou-lhe toda a razão. A prová-lo aqui vos deixo a indicação dos 10 primeiros textos da série. Sublinho que se trata de um tema polémico e muito recente, portanto um tema em aberto e que em termos da série já vai em cerca de 40 textos e a lista não está ainda fechada.

  1. Já atingimos o ‘pico da nossa capacidade cognitiva? de Harriet Marsden,
  2. O que acontece depois da I.A. destruir a escrita nas Universidades?, de Hua HSU
  3. Bem-vindo ao Campus. Aqui está o Seu ChatGPT, por Natasha Singer.
  4. Grandes livros sérios podem realmente ser seus amigos intelectuais, por Brad DeLong
  5. Os Sete Trabalhos do Macaco Académico, por Brad DeLong
  6. As 85 Coisas que aprendi sobre a IA, por Alberto Romero
  7. Notas sobre a tentativa da Google de auto-disrupção, por Brad DeLong
  8. Como é que os nossos estudantes estão realmente a utilizar a IA? Por Derek O’Connell.
  9. GPT-4 já é capaz de passar no primeiro ano de Harvard, por Maya Bodnick
  10. Incerteza política – não a automação da “IA” – está quase certamente por trás da maior parte do descontentamento dos recém-formados com o emprego, por Brad DeLong

Sublinho aqui o que nos diz um relatório publicado em 18 de Julho de 2024 pela Wharton School da Universidade da Pensilvânia sobre o problema da utilização da Inteligência Artificial:

“De forma consistente com trabalhos anteriores, os nossos resultados mostram que o acesso ao GPT-4 melhora significativamente o desempenho (melhora de 48% para o GPT Base e 127% para o GPT Tutor). No entanto, também descobrimos que, quando o acesso é posteriormente retirado, os estudantes apresentam desempenho pior do que aqueles que nunca tiveram acesso (redução de 17% para o GPT Base).  Dito de outro modo,  o acesso ao GPT-4 pode prejudicar os resultados educacionais. Esses efeitos negativos na aprendizagem são em grande parte mitigados pelas salvaguardas incluídas no GPT Tutor. Os nossos resultados sugerem que os estudantes tendem a usar o GPT-4 como uma “muleta” durante sessões de resolução de problemas práticos e, quando têm sucesso com isso, acabam tendo um desempenho pior do que responder por conta própria, por si sós. Assim, para manter a produtividade a longo prazo, é necessário ter cautela ao implementar a IA, a fim de garantir  que os seres humanos continuem a desenvolver as suas capacidades  críticas.” (Em Generative AI Can Harm Learning – original aqui) Fim de citação

Tudo aponta para que o meu amigo de ontem tenha razão: por este caminho e com esta gente não vamos a lado nenhum, mas relembrando um livro que os nossos filhos ou netos terão lido, Alice no país das maravilhas de Lewis Carrol, o seu autor diz-nos e com razão: não ir para lado nenhum é, porém, ir para algum lado. No caso presente damos mais um passo na degradação das Universidades, mais um passo a anunciar a sua morte de há muito anunciada. Tudo leva a crer que a Inteligência Artificial – e não esqueçamos que os professores têm mais que fazer do que estar a ensinar, foi o que disse o patrão das Economias da FEUC na Assembleia da República – à medida que continuamos a integrá-la nas nossas vidas de professores, tem um enorme potencial de corroer as ainda frágeis competências cognitivas dos estudantes ainda em formação.

A ser assim, isto é meio caminho andado para que à saída das Universidades em vez de técnicos e cidadãos de primeira de que a sociedade tanto precisa, tenhamos antes gente servil que não adquiriu a capacidade de pensar, de raciocinar, de decidir de forma independente, qualidades estas que caracterizam os seres humanos, e que por isso mesmo se torna  lenha para alimentar partidos como o Chega ou outros semelhantes. Não esqueçamos uma outra lição da vida, e a de que não fazer nada é deixar que os outros façam por nós e, neste caso, o que tudo anuncia é que a Inteligência Artificial ocupará os interstícios das nossas vidas e fará da maioria dos nossos filhos e netos ignorantes encartados, verdadeiros mentecaptos e dispostos a servir os homens de Sillicon Valley, os homens que financiam Trump e que estiveram na primeira fila na sua tomada de posse. Estes não são burros, mas querem que nós o sejamos. E para os servir como mediadores haverá sempre quadros disponíveis, como se tem visto e como se verá ainda mais com o avançar da utilização da IA no ensino e a destruir os muros da criação do saber, um fenómeno que é já visível na América de Trump.

 

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