“EU SOU BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS”
por Jorge Castro Guedes
Porque não me admiro eu com as inomináveis acusações não provadas a BSS (Boaventura de Sousa Santos)?
Porque desde a primeira hora achei que a manobra visa a alta qualidade científica de BSS e a procura de decepar um pensamento crítico independente, livre, fundamentado. BSS representa tudo o que o neofascismo, cobrindo-se com a capa neoliberal, odeia e teme.
Após a queda da negativa interpretação do marxismo pelo autodenominado socialismo real, apressaram-se os gurus de Friedmann & pandilha adjacente a prever um outro Reich para 1000 anos. Esperavam um Mundo sem oposição e sem alternativa. Findo o “comunismo soviético”, prenhe de contradições e de utopia desfeita em distopia, restaria à Humanidade aceitar um capitalismo desenfreado e sem regras de reequilíbrio social. De uma só rajada matariam passado e futuro, Marx e Keynes e tudo o que pudesse sair de diferente da sua canónica de “moto-serra” enfrentaria o pelotão de fuzilamento da ideologia destes novos gangsters de Chicago, Al Capones da sócio-economia.
Ora, se esse comunismo morreu às suas próprias mãos, achavam eles que a capacidade de gerar alternativas ao pensamento soviético não podia existir fora da cartilha da citada pandilha. Mas enganaram-se e o aparecimento de pensamento crítico, distanciado de um passado de erros e mesmo de crimes sociais, passou a ser o que mais medo causaria aos anunciadores do fim da História. A simples constatação que a História não tem fim – e surpreende – tornou os dissidentes do neoliberalismo em inimigos iguais ao que os anteriores anunciadores desse fim outro temiam. Havia que os enviar para os gulags demoliberais. Mas não o podiam fazer do mesmo modo, dada a natureza da proclamação ideológica em que se baseavam. Outros métodos, mais sofisticados, teriam de ser os usados.
Ao dar conta de que, afinal, havia quem gerasse pensamento sem se enfeudar nem a uma, nem à outra cartilha, era isso o que os verdadeiramente punha em causa. E esse isso passou a ser o alvo principal a abater. Por isso, BSS estava na mira prioritária dos chacais. O seu pensamento crítico – e livre e lúcido – tornou-se de expressão minoritária “fechada” na pertença a uma real alternativa para a sociologia da ausência, com que denuncia a exclusão, e fez-se presente na criação de um corpo teórico sustentável e em crescente disseminação.
Como o abater? Pensaram na homeopatia ideo-moralista de fachada.
Que melhor arma do que a do wokismo (1) de pacotilha de indigentes e oportunistas? Com a invejas da mediocridade atrelada, a receita estava pronta. É só isto (ou todo este horror) o que está verdadeiramente em causa. Não é rigorosamente mais nada: desacreditá-lo no próprio espaço de pensamento. Aproveitando estes outros tempos de um neopuritanismo e das neotrevas, aí estava um bom modelo para escurecer a lucidez, a integridade, a inteligência e o brilho intelectual de BSS.
Ao assassinato de carácter tentado há que resistir na própria alma dos que querem privar o uso dela pela razão e pelo coração. O ódio que todos estes chacais respingam só tem de ser encarado de um modo simples: representa a honra de quem não cedeu, é a medalha maior de quem não se vendeu. Por isso, BSS será sempre uma referência que não apagam.
Podem esfregar a borracha do esterco mental, a tinta da verdade é indelével. Como com Dreyfuss. É uma questão de tempo. BSS permanece e permanecerá na construção de alternativas.
A História, de facto, não tem fim por mais histórias sem fim que inventem. O ‘stalinismo’ de pólo oposto sucumbirá: pela capacidade humana de se reinventar e percorrer o ciclo espiralado da própria História. Não por via de qualquer determinismo mecanicista (o deles ou do leninismo), mas pela acção de contrários em movimento livre e imprevisto. Isso, que está contido no pensamento aberto de BSS, é o que mais os assusta. No fundo sabem que só não será assim se o Mundo apocalíptico que preparam chegar antes de chegar o momento de pôr cobro à insanidade que assola a Humanidade.
Contra o obscurantismo de novo tipo, contra, no plural, os obscurantismos de novo tipo, “Eu sou Boaventura de Sousa Santos”.
(1) Ulteriormente volto a este tema do wokismo extremado como um fascismo vestido pela mão esquerda de um ilusionista que serve a hipocrisia puritana da extrema mão direita…

