Inteligência Artificial — Texto 4. Grandes livros sérios podem realmente ser seus amigos intelectuais. Por Brad DeLong

 

 

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

10 min de leitura

Texto 4 – Grandes livros sérios podem realmente ser seus amigos intelectuais

 Por Brad DeLong

Publicado por  em 2 de Julho de 2025 (original aqui)

 

O Sócrates de Platão estava errado: para alguém que realmente sabe ler, um livro não é nada parecido com uma pintura, pois enquanto uma pintura parece viva, mas não pode responder se o leitor a questiona, os seus livros podem e respondem-lhe — se o leitor tiver ganho o hábito de ler e assim terá criado em si-mesmo a capacidade de produzir à sua vontade o tipo certo de fantasias literárias e académicas alucinatórias dentro do seu próprio cérebro…

 

 

Há vozes humanas com um certo sentido de urgência por detrás dos livros que temos nas nossas  estantes. Deixe Nicolau Maquiavel lembrá-lo: a melhor companhia intelectual está sempre ao alcance da sua mão. Não pergunte “e se a sua biblioteca pudesse responder-lhe?” Reconheça que ela o pode fazer e já o fez , se o leitor tiver o tipo certo de mentalidade  para se envolver numa leitura profunda, atenta e ativa nos livros que lê. Deixe de se imaginar envolvido numa leitura académica apressada. Em vez disso, pegue nos rabiscos a preto na página que é o código da informação e, a partir deles, crie uma instanciação subjacente da mente do autor do livro e execute-a no seu processador cerebral. E discuta com ele.

Assim, os livros  transformam-se de textos áridos em interlocutores vivos — e ser capaz de perceber essa mudança pode salvar a sua sanidade intelectual. Trate os seus livros como pessoas, não como objetos.

Então entre nas antigas cortes de pensadores antigos e encontrar-se-á entre verdadeiros amigos.

E depois, o leitor sentir-se-á  como Dante afirmou ter-se sentido:

Eu vi o Mestre dos Homens que Sabem,

sentado em família filosófica….

Todos o admiram, todos o honram:

ali contemplei Sócrates e Platão,

mais próximo dele, na frente de todos os outros;

Demócrito, que atribui o mundo ao acaso,

Diógenes, Empédocles e Zenão,

e Tales, Anaxágoras, Heráclito;

Eu vi o bom colecionador de medicamentos,

Quero dizer Dioscórides; e eu vi Orfeu,

e Tully, Linus, Séneca moral;

e Euclides, a geómetra, e Ptolomeu,

Hipócrates e Galeno, Avicena,

Averrois, do grande Comentário.

Não posso descrevê-los todos aqui na íntegra;

o meu amplo tema impulsiona-me para a frente assim:

o que é contado muitas vezes é menos do que o acontecimento…

Mas, como Robert Reich e eu nos queixávamos no café da manhã no Saul’s Deli (que, agora que ele, como emérito, perdeu o seu escritório na Goldman Public-Policy School  parece estar a ser utilizado como o seu gabinete), há algumas semanas atrás, de que há cada vez menos alunos a terem uma educação que lhes proporcione a experiência de campo de formação necessária para que se possam acostumar a essa interação alucinatória entre fantasia literária e intelectual.  John Zysman diz que para ele isso realmente fez sentido  no segundo ano, com Barrington Moore a interpretar o papel de Louis Gossett Jr.: “Este ano, vocês vão aprender três coisas: a ler, a escrever e a pensar!”

No meu arquivo de recortes de vinte anos atrás, há um lamento-desabafo sobre a Noite escura da alma de um universitário escrito por um  Humanista:

Agora, estou a tentar descobrir uma maneira, seja como for, para conseguir escrever um artigo sobre a utilização de Kierkegaard por Žižek, para que eu possa enviá-lo e as pessoas o publiquem, para que eu possa escrever num pedaço de papel que ele foi publicado. Eu compreendo as regras do jogo universitário; a este nível trata-se sobretudo de construir um currículo suficiente para que as pessoas acreditem que sou bom neste domínio… [Mas] dissecar mais um texto para produzir um texto meu que esteja em conformidade com os cânones do profissionalismo do meio universitário em certos círculos do discurso “filosófico” e “teológico” não me parece ser nenhuma espécie de resposta — não me parece que ajudaria em nada, absolutamente nada, nem um pouquinho sequer. Nem  quando estou a tentar descobrir uma maneira de andar pela rua, de estar com as pessoas, de fazer o que é certo por elas, de sentir algum tipo de paz interior… Mesmo que eu “tivesse conseguido”, eu ainda sentiria que preciso constantemente de provar a mim mesmo… Porque eu não sentiria que mereço, porque não existe merecimento — não há maneira disponível de o determinar. E então, prove a si mesmo — para nada, para ninguém, para nenhum fim…

E naquela época eu escrevi uma resposta:

Parece que o Humanista está a passar por uma dessas tardes sombrias e nubladas da alma que acontecem quando cada um de nós se empenha ao máximo.

Então deixem-me ser um tio holandês chato e dizer-lhe o que ele já sabe:

Dê um passo atrás. Veja bem, quando pensa no que está a fazer com o “dissecar mais um texto para produzir um texto que se ajuste aos cânones do profissionalismo dentro de certos círculos do discurso ‘filosófico’ e ‘teológico'”, então você fica vítima da escrita que mata, enquanto é o espírito que vivifica.

Deixem-me pegar nos quatro primeiros “textos” da prateleira da minha estante mais próxima: Nixon Agonistes de Garry Wills (um livro incrivelmente denso e incrivelmente reflexivo que preciso muito de reler, pois sempre que o leio, sinto que estou a receber detalhes maravilhosos que me estavam a escapar); A Term at the Fed de Laurence Meyer (as suas memórias dos seus dias como governador do Federal Reserve; nós escolhemo-lo para o cargo como alguém que poderia ser uma ponte entre os altos formuladores de políticas e os analistas e construtores de modelos; eu acho — e o livro di-lo — que ele fez esse trabalho muito bem); o excelente Selling Women Short: The Landmark Battle for Workers’ Rights at Wal-Mart, de Liza Featherstone; e Innovation and Its Discontents , de Adam Jaffe e Josh Lerner (nem quero acreditar que ainda não tenha lido isto! Preciso de o ler, e urgentemente).

Sempre que penso neles como “textos”, eles são para mim textos áridos e chatos.

Mas há um segredo para torná-los interessantes: lembrar que eles não são textos: são pessoas — pessoas a tentarem falar comigo com urgência, para me dizerem algo muito importante que elas acham que eu preciso desesperadamente de  saber.

Liza Featherstone acha que eu preciso muito de conhecer a luta do Wal-Mart para manter os seus funcionários sob pressão  — e a resistência deles — se eu quiser ser um bom economista, um bom cidadão. Ela atrai-me e  prega-me um longo sermão, com gestos excitados e animados. Não importa que eu nunca a tenha conhecido (eu conheço um pouco o seu marido, Doug Henwood). Ela está ali, à minha frente na página, e seria rude interrompê-la — e não virar para a página seguinte.

Acho que Nicolau Maquiavel expressa isso melhor do que eu. Permitam-me citar da sua carta enviada ao amigo e desejado patrono Francesco Vettori, escrita na época em que vivia num exílio rural nos arredores de Florença.

Estou a morar na minha fazenda… Levanto-me de manhã com o sol ainda a nascer e vou até um bosque que estou a desbastar, onde permaneço duas horas para rever o trabalho do dia anterior e matar o tempo com os cortadores… Ao sair do bosque, vou até uma fonte e de lá para o meu aviário. Tenho um livro no bolso, seja de Dante ou Petrarca, ou de um dos poetas menores, como Tibulo, Ovídio e outros. Leio sobre as suas ternas paixões e amores, lembro-me de como foi comigo, divirto-me um pouco com esse tipo de devaneio. Depois,  vou pelo caminho até à pousada; falo com os que passam, pergunto notícias das suas aldeias, aprendo várias coisas e observo os vários gostos e as diferentes fantasias dos homens. No decorrer dessas coisas, chega a hora do jantar, onde como com a  minha família, como a comida que esta minha pobre fazenda e a minha pequena propriedade permitem que eu coma. Depois de comer, volto para a pousada… Mergulho na vulgaridade o dia todo, jogando cricca e trich-trach… Então, envolvido nessas ninharias, evito que o meu cérebro fique com mofo e satisfaço a maldade desse meu destino, ficando feliz por ele me levar por esta estrada, para ver se eu me envergonho  disso.

Ao cair da noite, retorno à minha casa e entro no meu escritório; e na porta tiro as roupas do dia, cobertas de lama e poeira, e visto roupas régias e cortesãs; e, vestido apropriadamente, entro nas antigas cortes dos homens antigos, onde, recebido por eles com afeição, alimento-me daquele alimento que é somente meu e para o qual nasci, onde não tenho vergonha de falar com eles e de lhes perguntar sobre a  razão de  ser das  suas ações; e eles, na sua gentileza,  respondem-me; e, durante  r quatro horas não sinto tédio, esqueço todos os problemas, não temo a pobreza, não tenho medo da morte; entrego-me inteiramente a eles.

Ao cair da noite, Nicolau Maquiavel entra na sua biblioteca pessoal. Aí, Maquiavel  conversa com os  seus amigos — os seus livros, ou melhor, com aqueles que escreveram os livros e que tem na sua biblioteca, ou melhor, com aquelas componentes das suas mentes que são representadas  nas combinações de hardware e software de linho, tinta e símbolos da Tecnologia da Informação de Gutenberg. São “homens antigos” que o recebem “com carinho”, e por quatro horas ele “pergunta-lhes a razão de ser das suas ações; e eles, na sua gentileza, respondem-me; e… não sinto tédio, esqueço todos os problemas, não temo a pobreza, não tenho medo da morte…”

Lembrem-se: Maquiavel viveu apenas duas gerações depois de Gutenberg. Ele é, portanto, uma das primeiras pessoas no mundo a ter uma biblioteca pessoal. Antes da imprensa, as bibliotecas eram posse exclusiva de reis, príncipes soberanos, abades e senhores do Império Romano (como César e Cícero). A ideia de que um simples mortal — um semi-desgraçado ex-Assistente Especial para Assuntos Confidenciais da República de Florença — pudesse ter uma biblioteca pessoal teria sido absurda mesmo apenas meio século antes. Para ele, portanto, a sua biblioteca pessoal não é algo que ele toma como  garantido, mas é algo novo, é algo que ele possui e que os seus predecessores não possuíam.

E assim ele pode ver claramente — mais claramente do que nós — o que a sua biblioteca pessoal faz por ele, o que seus livros são .

Num semi-exílio desonrado — quando muitos com quem ele conversava temiam ser vistos na sua companhia, e onde ele temia ser visto na companhia de quase todos os outros — a capacidade de ler (e reler) os seus exemplares pessoais de Públio Ovídio Naso, Petrarca, Dante Alighieri, Tito Lívio, Plutarco e os demais os torna seus amigos: pessoas que o receberão com afeição e responderão honestamente às suas perguntas sobre política e história. É importante ter tais amigos e tratá-los com o devido respeito. Por isso, Maquiavel não irá até estar com eles vestido com as suas roupas do dia a dia — aquelas com as quais administrara a sua fazenda, pechinchara o preço da lenha, apostara e nas quais derramara cerveja. Em vez disso, entrará na sua biblioteca apenas com “vestes régias e cortesãs”.

Além disso, as arestas das pessoas são arquivadas nos seus livros. Adam Smith achou Jean-Jacques Rousseau impossível pessoalmente, mas aquele pedaço da mente de Rousseau que é materializado  na combinação de hardware e software da Tecnologia da Informação de Gutenberg é uma companhia muito agradável.

Ninguém fora da sua família (exceto Friedrich Engels) jamais suportaria Karl Marx por muito tempo. Mas aquela parte da mente de Marx que é materializada nos seus livros não se enfurece irracionalmente, não acusa ninguém de ser espião da polícia, não implora por dinheiro, não exige que alguém aceite que ele é o mais inteligente da sala. Marx-no-livro fala apaixonadamente das suas esperanças e medos para o futuro — esperança vinda do destino progressivo da humanidade e do extraordinário progresso da tecnologia, e medo vindo de nossa constante tendência a f***r os nossos problemas de engenharia social — e (exceto quando ele começa a delirar com termos hegelianos, ou quando se vê que enormes, enormes pedaços da sua argumentação desaparecem porque ele confundiu a relação capital-produto físico com a relação capital-produto de valor) pode ser muito  boa companhia.

E há aqueles que realmente gostaríamos de conhecer pessoalmente.

Pois quem é que não gostaria de ser um bom amigo (se alguém fosse rápido e espirituoso o suficiente para evitar tornar-se um dos seus alvos) de John Maynard Keynes, ou de David Hume, ou de John Stuart Mill, ou de Adam Smith?

Conheço Larry Meyer, mas é um presente extra ter um pedaço dele na minha estante com o qual posso conversar em qualquer momento, na forma de Um Mandato no Fed . (Seria melhor poder chamá-lo para parecer que estou a falar quando quiser, mas Um Mandato no Fed é um substituto bem próximo).

Gostaria de conhecer Garry Wills pessoalmente, mas não se pode ter tudo, e partes da sua personalidade literária enchem pelo menos quatro prateleiras da nossa casa , para além dos que tenho no meu escritório.

Tentarei conhecer e conversar com Liza Featherstone na próxima vez que estiver em Nova York com tempo livre, mas enquanto isso tenho o livro dela.

E Adam Jaffe está (justificadamente) zangado comigo por um episódio de bloqueio de escritor, o que fez com que eu não revisse um artigo que ele estava para editar — mas o livro dele não está zangado comigo.

Portanto, penso que, enquanto um humanista se vir como alguém que está a dar à manivela de uma máquina (“escrever um artigo sobre a utilização de Kierkegaard por Žižek, para que eu possa enviá-lo e as pessoas o publiquem, para que eu possa escrever num  pedaço de papel que ele foi publicado”), então é porque ele está condenado.

Mas quando ele muda a sua estrutura mental e se lembra do que realmente está a  acontecer — que Kierkegaard está a tentar desesperadamente comunicar algo difícil e importante que ele só entende pela metade, e que Žižek esteja a refletir sobre isso e respondendo — ele ainda pode ser salvo.

É quando chega o momento em que o leitor fica tão animado e até excitado ao ver Žižek discutir com Kierkegaard que é levado a  pensar : “Tenho algo a acrescentar; tenho algo importante a dizer também” — então é chegado o  momento de escrever o que tem a dizer, não para construir e aumentar o seu currículo, mas porque o leitor em algo a dizer.

Na verdade, a única maneira eficaz de construir o seu currículo é deixar que isso aconteça como um subproduto de se ter algo a dizer.

Eu lembro-me… devia ser por volta de 1984, numa noite qualquer, quando eu estava sentado numa das poltronas confortáveis no meio dos escritórios do terceiro andar do NBER. Larry Summers estava a entrar enquanto Paul Krugman estava a sair. E eles pararam.

“Paul”, disse Larry.

“Sim?” disse Paul.

“No nosso modelo de base, os EUA estão com um défice comercial porque a procura é maior que a produção, e especialmente porque a procura por bens não negociáveis é alta, e assim os trabalhadores são desviados da produção de bens negociáveis para empregos na produção de bens não negociáveis. Deste modo, a produção nacional de bens negociáveis é insuficiente para satisfazer a procura , e é isto que nos obriga às  importações”, disse Larry.

“E então?”, perguntou Paul.

“Porque é que, então, os trabalhadores das indústrias de bens negociáveis no Centro-Oeste estão a viver esta situação não como sendo uma atração para empregos com salários mais altos no setor de bens não negociáveis, mas como sendo empurrados pela concorrência estrangeira para empregos com salários mais baixos no setor de bens não negociáveis?”, disse Larry.

E eles pareciam estar desligados.

Durante uma boa meia hora, eles discutiram as questões em todos os sentidos. Mais estudantes de pós-graduação juntaram-separa assistirem a um fascinante debate e discussão sobre que razão é que havia tantos perdedores com os défices comerciais da década de 1980, quando o primeiro modelo de pleno emprego sugeria que deveria ter sido vantajoso para todos.

É preciso estar no lugar certo na hora certa para se ter a experiência intelectual máxima de assistir a duas mentes de calibre tão extraordinário a discutirem entre si e sobre problemas importantes.

Mas, na verdade, não é preciso.

O leitor só precisa de escolher o livro certo [e no momento certo].

capacidade

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Referências:

 

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O autor: O autor: J. Bradford DeLong [1960- ] é Professor de Economia na Universidade da Califórnia em Berkeley e investigador associado no National Bureau of Economic Research. Foi Secretário Adjunto do Tesouro dos EUA durante a Administração Clinton, onde esteve fortemente envolvido em negociações orçamentais e comerciais. O seu papel na concepção do plano de salvamento do México durante a crise do peso de 1994 colocou-o na vanguarda da transformação da América Latina numa região de economias abertas, e cimentou a sua estatura como uma voz de liderança nos debates de política económica. É licenciado em Economia pela universidade de Harvard. É doutorado pela mesma universidade. (para mais info ver wikipedia aqui)

 

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