As sílabas marginais/GNOMOS/Nelson Ferraz

 

GNOMOS

Os gnomos de laranja acompanharam o sol

quando o sol mergulhou no poente da água.

Ficou sombra de repente. Ficou solidão.

As gaivotas pintaram o silêncio com as suas asas exaustas de céu.

Os gnomos ficaram invisíveis como as palavras

e molhados de azul sonharam o lar das árvores.

Serenamente

Uma constelação de vozes estilhaçadas semeou hélices apagadas

nos pulsos da memória.

O chão ficou de pedra de areia de terra de água de papel

e de curvas sem alicerce.

O chão ficou feito de mim e das escarpas da infância.

Enquanto o vento bebia a escuridão triste do mar

a saudade calçou os seus chinelos brancos e acendeu feridas

nos olhos profundos das estrelas.

Um arrepio de ausência cercou todos os abrigos dos rochedos

e a praia ficou de mãos à escuta na velhice da noite.

Nunca compreendi qual a vantagem de escrever em sebentas de areia.

Vem o mar e varre todas as letras.

E os olhos os meus olhos

   (invisíveis como gnomos)

naufragam sozinhos no sal.

 

 

 

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