GNOMOS
Os gnomos de laranja acompanharam o sol
quando o sol mergulhou no poente da água.
Ficou sombra de repente. Ficou solidão.
As gaivotas pintaram o silêncio com as suas asas exaustas de céu.
Os gnomos ficaram invisíveis como as palavras
e molhados de azul sonharam o lar das árvores.
Serenamente
Uma constelação de vozes estilhaçadas semeou hélices apagadas
nos pulsos da memória.
O chão ficou de pedra de areia de terra de água de papel
e de curvas sem alicerce.
O chão ficou feito de mim e das escarpas da infância.
Enquanto o vento bebia a escuridão triste do mar
a saudade calçou os seus chinelos brancos e acendeu feridas
nos olhos profundos das estrelas.
Um arrepio de ausência cercou todos os abrigos dos rochedos
e a praia ficou de mãos à escuta na velhice da noite.
Nunca compreendi qual a vantagem de escrever em sebentas de areia.
Vem o mar e varre todas as letras.
E os olhos os meus olhos
(invisíveis como gnomos)
naufragam sozinhos no sal.

