Espuma dos dias — A maioria dos eleitores americanos afirma que os gastos ilimitados nas eleições constituem uma ameaça à democracia. Por Dave Levinthal

Nota de editor:

Nunca é demais falar sobre esta questão dos milhões derramados pelos mais ricos nas eleições estado-unidenses, corrompendo assim o sistema democrático, corrupção esta tornada possível pelo acórdão do Supremo Tribunal de 2010 no caso Citizens United v. Federal Election Commission. Sobre este tema dos donativos ilimitados nas eleições nos EUA, via os Super PACs relembramos o texto “As contribuições nas campanhas eleitorais nos Estados Unidos: dois pesos e duas medidasde Sam Pizzigati de 27/10/2022 (ver aqui). Ainda sobre os comités Super Pac ver “The Era of the Super Pac in American Politics” por Tom Murse.

Sobre a propalada vantagem nos EUA de poderem os cidadãos remover um líder cada quatro anos diz Tom Murse sobre os super PAC (comités de ação política): estão autorizados a “recolher e gastar quantidades de dinheiro sem limite proveniente de empresas, sindicatos, indivíduos e associações com vista a influenciar o resultado das eleições nos estados federados e a nível nacional“. Diz ele que os críticos afirmam que “… os acórdãos do tribunal e a criação dos super PACs abriram as comportas à corrupção generalizada” e que em 2012 o senador dos Estados Unidos John McCain avisou: “Tenho a certeza que haverá escândalo, existe demasiado dinheiro lavando-se à volta da política, tornando as campanhas irrelevantes.”. Sobre a decisão do Supremo Tribunal dos EUA de considerar inconstitucionais os limites às despesas de empresas e sindicatos para influenciarem o voto, declarou, em voto minoritário, o juiz John Paul Stevens: “No fundo, a opinião do Tribunal é assim uma negação do senso comum do povo americano, que reconheceu a necessidade, desde a fundação do país, de impedir que as empresas minassem a independência da governação, e que lutou desde Theodore Roosevelt contra o característico potencial corruptor da propaganda eleitoral pelas empresas“. (Cf. nota de pé página no texto “A guerra EUA-China terá de esperar” de Jacob L.Shapiro, publicado na Viagem dos Argonautas em 25/05/2019 – ver aqui – e vd. também A Era dos Super PAC na Política Americana in https://www.thoughtco.com/what-is-a-super-pac-3367928)

FT


Seleção e tradução de Francisco Tavares

5 min de leitura

A maioria dos eleitores americanos afirma que os gastos ilimitados nas eleições constituem uma ameaça à democracia.

 Por Dave Levinthal

Publicado por  em 28 de Outubro de 2025 (original aqui)

 

                               Foto por DNY59 via Getty Images

 

Uma nova sondagem nacional indica que a grande maioria dos americanos — independentemente da sua filiação partidária — afirma que os gastos políticos ilimitados enfraquecem a democracia e que os doadores ricos têm demasiado poder sobre as eleições.

E eles gostariam que o governo fizesse algo a respeito disso.

Quase 8 em cada 10 entrevistados concordaram com a afirmação de que “as regras anticorrupção fortalecem a nossa democracia e os direitos constitucionais, garantindo que todos tenham representação política igualitária, independentemente de sua condição financeira”, de acordo com a pesquisa YouGov encomendada pelo grupo de fiscalização política Issue One, que defende regulamentações mais rigorosas sobre a influência do dinheiro na política.

Apenas 1 em cada 10 entrevistados na pesquisa realizada entre 7 e 15 de outubro concordou com a afirmação de que “as regras anticorrupção enfraquecem a nossa democracia e os nossos direitos constitucionais ao infringirem a liberdade de expressão protegida pela Primeira Emenda”.

Quase 8 em cada 10 pessoas também disseram que “concordam totalmente” ou “concordam parcialmente” que grandes gastos independentes por doadores ricos e corporações em eleições dão origem à corrupção, ou à aparência de corrupção. Pouco mais de 1 em cada 10 pessoas disse que “discorda parcialmente” ou “discorda totalmente” da afirmação.

 

A maioria dos americanos vê os donativos ilimitados como abrindo caminho para a corrupção

Os entrevistados receberam uma série de perguntas para avaliar se vêem a corrupção potencial como resultado de grandes contribuições políticas de doadores ricos e corporações.

Fonte: https://issueone.org/wp-content/uploads/2025/10/YouGov-Issue-One-Oct-2025-Campaign-Finance-National-Poll-Toplines.pdf

“Estas percepções de corrupção corroem os alicerces da nossa democracia. Onosso sistema político não pode funcionar se o público presume que o governo está à venda para o maior licitador”, disse Michael Beckel, diretor sénior de pesquisa da Issue One. (Beckel trabalhou anteriormente na OpenSecrets.)

A decisão do Suprema Tribunal de 2010 no caso Citizens United contra a Comissão Eleitoral Federal, que permitiu que corporações, sindicatos e organizações políticas sem fins lucrativos gastassem quantias ilimitadas de dinheiro para defender ou se opor a candidatos políticos, recebeu um apoio relativamente maior entre os entrevistados.

Apesar disso, a decisão continuou impopular em geral: quase dois terços dos americanos — incluindo 73% dos democratas, 53% dos republicanos e 61% dos independentes — disseram discordar da decisão do caso Citizens United, que deu origem a um fluxo ilimitado e difícil de rastrear de “dinheiro negro” na política e ajudou a impulsionar veículos políticos como os super PACs.

 

Ctizens United é impopular

YouGov perguntou: “você [concorda ou discorda] da decisão do Supremo Tribunal no caso Citizens United de que as corporações e os sindicatos têm o direito da Primeira Emenda de gastar dinheiro ilimitado para influenciar as eleições?”

Menos de 1 em cada 10 entrevistados disse “concordar totalmente” que empresas e sindicatos têm o direito, garantido pela Primeira Emenda, de gastar dinheiro ilimitado para influenciar eleições. Em contrapartida, quatro em cada 10 disseram “discordar totalmente” da decisão.

Ainda assim, a influência do dinheiro na política não figurou entre os cinco principais problemas citados como os mais importantes que os Estados Unidos enfrentam hoje, ficando atrás de “inflação e aumento dos custos”, “empregos e economia”, “poder excessivo nas mãos do presidente”, “polarização e extremismo”, “imigração e segurança nas fronteiras”, “habitação e pessoas sem-teto”, “política de saúde, incluindo Medicare e Medicaid” e “crime e segurança pública”.

Mas obteve uma votação superior a inúmeras outras questões nacionais, nomeadamente “mudanças climáticas e meio ambiente”, “educação”, “direitos LGBTQ”, “abuso de substâncias e a crise dos opioides”, “infraestrutura e transporte” e “desigualdade de rendimento”.

Os homens (31%) e as pessoas com ensino superior (28%) foram os que mais citaram a influência do dinheiro na política entre os cinco principais problemas, segundo a sondagem.

A pesquisa também consultou especificamente os eleitores de Montana sobre uma proposta de emenda constitucional para 2026, conhecida como “Plano Montana“, que visa restringir os gastos corporativos e de financiamento negro nas eleições do estado por meio de medidas inovadoras: a alteração das leis estaduais que regem as empresas.

Essa proposta também se mostrou popular entre os eleitores, com quase três em cada quatro eleitores de Montana afirmando que votariam a favor da medida.

“Estas novas descobertas mostram que pessoas em todos os cantos do estado — e independentemente das suas filiações partidárias — querem um governo que funcione para todos nós, não apenas para aqueles com mais recursos”, disse Liana Keesing, líder da área de políticas da Issue One.

Mas alguns especialistas em direito eleitoral e defensores da Primeira Emenda estão céticos quanto à legalidade do Plano Montana.

“O Estado não pode condicionar um benefício (neste caso, o direito de constituir uma empresa) à renúncia dos cidadãos aos seus direitos constitucionais”, afirmou Brad Smith, presidente do Instituto para a Liberdade de Expressão e ex-presidente da Comissão Eleitoral Federal.

 

Além do dinheiro

A pesquisa também indicou que uma grande maioria dos americanos tem dúvidas sobre o papel que as empresas de tecnologia e de media social desempenham na política.

Quase 7 em cada 10 entrevistados — incluindo 76% dos democratas, 61% dos republicanos e 64% dos independentes — disseram terem “demasiada” influência na política.

Os políticos e os partidos políticos não se saíram muito melhor, já que a maioria dos eleitores considerou o presidente Donald Trump (52%), o bilionário Elon Musk (53%), o Partido Republicano (54%) e o Partido Democrata (56%) como “muito desfavoráveis” ou “um tanto desfavoráveis”.

A pesquisa foi baseada em 1.036 entrevistas online realizadas pela YouGov com eleitores registados. A margem de erro é de 3,3%.

 

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O autor: Dave Levinthal é um jornalista líder nos EUA que investiga as ligações entre a governação, a política e o poder. Foi diretor editorial e de comunicação de Open Secrets de 2009 a 2011. Sedeado em Washington, D. C., Dave é editor colaborador da NOTUS, e os seus artigos aparecem em dezenas de publicações, incluindo a Rolling Stone, The Atlantic, TIME, Politico Magazine, Washingtonian, Fortune, Slate, Salon, Daily Beast, The Ankler e Columbia Journalism Review. Anteriormente, ele liderou a redação do Raw Story como editor-chefe e atuou como editor adjunto do Business Insider, onde supervisionou as investigações políticas e o jornalismo empresarial da publicação. Também trabalhou como editor ou repórter no Center for Public Integrity, Politico, OpenSecrets, Dallas Morning News e Eagle-Tribune. O trabalho de Dave como editor e repórter ganhou inúmeras honras, incluindo o Goldsmith Prize, o Edward R. Murrow Award, o National Headliner Award, o National Press Club Arthur E. Rowse Award, o Society of professional Journalists Sunshine Award, o SABEW Best in Business Award, o Fair Media Council Folio Award, o Editor & Publisher Eppy Award, o Excellence in Financial Journalism Award e o Radio Television Digital News Association Kaleidoscope Award. Dave é um convidado frequente na televisão, rádio e podcasts,.e também é Analista de notícias contribuinte para CenterClip e LBC Radio e publica na Substack. Natural de Buffalo, N. Y., Dave formou-se na Universidade de Syracuse, onde foi editor-chefe do Daily Orange e formou-se em Jornalismo jornalístico e Filosofia Política.

 

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