As sílabas marginais/NA GUERRA, TODAS AS ALMAS SÃO PARDAS/Nelson Ferraz

 

NA GUERRA, TODAS AS ALMAS SÃO PARDAS

 

 

vista de uma estrela qualquer

ou de uma galáxia distante

pelos olhos da mais estranha criatura

ou coisa,

esta nossa história, com milhões de anos,

cabe hoje, inteira, num só frasco.

daqueles frascos que albergam

[por exemplo]

os pickles de cebola

ou a compota de pêssego.

frascos que se agitam neste planeta

entre rótulos de cimento,

de fumo

e do aço que veste os mísseis da moda.

 

na guerra, todas as almas são pardas.

sim, há homens que buscam ser lembrados como bolores

sem escrúpulos e sem compaixão.

homens que defecam miolos.

homens que almejam conquistar todas as bandeiras possíveis.

e, claro, o prémio nobel da guerra.

 

na guerra, todas as almas são pardas

e, algumas, morrem antes do corpo.

 

visto de uma estrela qualquer

ou de uma galáxia distante

pelos olhos da mais estranha criatura

ou coisa,

tudo isto pode parecer um inacreditável

suicídio da inteligência, mas

aos nossos olhos

é, apenas, tristemente humano.

 

 

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