Inteligência Artificial — Texto 30 – O crescimento da IAG e a corrida para encontrar um modelo funcional gerador de receitas (1/3).  Por Brian Merchant

Nota de editor

Após a pausa efetuada, retomamos hoje a série “Inteligência Artificial”, com o texto “O crescimento da IAG e a corrida para encontrar um modelo funcional gerador de receitas”, da autoria de Brian Merchant.  Em virtude da extensão e conteúdo do texto, o mesmo é publicado em três partes. Hoje a primeira.

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

13 min de leitura

Texto 30 – O crescimento da IAG e a corrida para encontrar um modelo funcional gerador de receitas (1/3)

 Por Brian Merchant

Publicado por  em Dezembro de 2024 (original aqui)

 

 

Índice

Introdução

OpenAI e o Boom da IA generativa

Mitologia do Vale do Silício, destilada e acelerada

Da “IA segura” à IAG — e a génese do modelo de negócios liderada pelo marketing

Marketing da IAG, entregando a IA comercial

O sonho da IAG e a Organização Totalmente Automatizada

 


INTRODUÇÃO

Na primavera de 2019, durante um evento ao vivo do StrictlyVC, a jornalista de tecnologia Connie Loizos perguntou a Sam Altman como é que a empresa de estrutura incomum que ele dirigia planeava gerar receitas. “A OpenAI é tão amorfa”, disse ela. “Mas é um negócio”. Ela queria saber se o objetivo era licenciar a sua tecnologia ou personalizar algoritmos para clientes pagadores. “Como é que vai funcionar?” [1]

“A resposta honesta é que não temos ideia”, respondeu Altman. “Nunca obtivemos qualquer receita, não temos planos atuais de gerar receita e não sabemos como poderemos gerar receita algum dia. Fizemos uma promessa informal aos investidores de que, ‘quando tivéssemos construído este tipo de sistema geralmente inteligente, basicamente pediremos ao sistema que descubra uma maneira de gerar rendimentos sobre o investimento para vocês.’” [2]

A sala encheu-se de risos, mas Altman estava a falar a sério. “Parece um episódio de Silicon Valley, parece mesmo, eu entendo, podem rir — tudo bem”, disse ele. “Mas é isso que eu realmente acredito que vai acontecer.” [3]

O comentário de Altman é revelador. Este comentário contém pelo menos duas verdades essenciais sobre a OpenAI, a empresa que liderou o boom de IA generativa que hoje domina o Vale do Silício e o mundo dos negócios em geral. Primeiro, antes de a OpenAI lançar o DALL-E e o ChatGPT, os dois produtos sensação que a transformariam num nome muito conhecido, ela simplesmente não tinha um modelo de negócio. Segundo, a sua liderança executiva acreditava que o desenvolvimento do seu produto central definitivo, uma inteligência artificial geral (IAG), resolveria a questão; os lucros viriam em seguida.

Esta combinação — a ausência de um modelo de negócio premeditado e a insistência em apresentar para o público, parceiros e investidores a sua busca em conseguir a IAG, uma construção de tecnologia aspiracional, como a sua razão de ser no lugar de um modelo tradicional — moldou o caminho da OpenAI para se tornar o unicórnio definitivo do Vale do Silício na década de 2020.

Sam Altman (World Economic Forum / Flickr)

 

Este relatório teve como objetivo investigar e elucidar os modelos de negócio por trás das empresas de IA generativa que estão a atrair centenas de milhares de milhões de dólares em investimentos. Tais modelos impulsionaram empresas como a Nvidia — que fornece os chips necessários para a computação de IA — a duplicar e depois triplicar a sua valorização em bolsa de 418 mil milhões de dólares em 2022, alcançando uma capitalização de mercado histórica superior a 3 milhões de milhões de dólares em 2024 [4]. Rapidamente se tornou claro que compreender a composição desses modelos de negócio significava entender a implantação e a evolução do conceito de “AGI” (Inteligência Artificial Geral) como farol orientador para as empresas de IA generativa.

Qualquer esforço para compreender o modelo de negócio da OpenAI e o das suas emuladoras, pares e concorrentes deve, portanto, começar com a compreensão de que como é que eles foram desenvolvidos rapidamente, até mesmo de forma caótica, e por necessidade — para capitalizar a popularidade dos produtos de IA generativa, financiar os crescentes custos de computação e pacificar um portfólio cada vez maior de investidores e partes interessadas. É igualmente fundamental entender como é que a “IAG” opera num contexto material e como é que ele funciona como impulsionador de investimentos contínuos e vendas empresariais, ferramenta de marketing e recrutamento, e estrutura para ampliar a influência e a pegada cultural da empresa.

O facto de a OpenAI não ter um modelo de negócios discernível na sua criação não significa que o potencial de lucro não tenha sido uma consideração desde o início. Embora as notícias nos media que anunciaram o lançamento da OpenAI retratassem consistentemente o projeto como um esforço humanitário de Elon Musk e Sam Altman para proteger o mundo de uma IA maligna e superpoderosa, desde o início foi um empreendimento densamente empresrial, apresentado num hotel fino no meio do Vale do Silício com capital inicial de bilionários de tecnologia, Amazon e dos principais capitalistas de risco — apesar de ser rotulada como “sem fins lucrativos”.

Não há motivo para duvidar que Altman estava a responder com sinceridade quando declarou a Loizos que a OpenAI não possuía um modelo de negócios definido. Essa não era uma questão urgente. Porque razão? Primeiro, estávamos no final dos anos 2010, uma década em que o setor de tecnologia aproveitou taxas de juros federais extremamente baixas, e nunca foi tão fácil para fundadores de empresas e empresas emergentes atrair financiamento; como resultado, grande parte da classe de investidores do Vale do Silício tinha-se habituado a fazer apostas que prometiam escala, grandiosidade e status de “unicórnio”, em vez de retornos marginais confiáveis e planos de negócios sólidos. Na verdade, podemos considerar a OpenAI o ponto mais alto de uma tendência que ganhou destaque com empresas emergentes como Uber e WeWork, formadas na era pós-Web 2.0, de grande euforia. Foi uma época em que produtos altamente vendáveis, como o iPhone e a pesquisa do Google baseada em anúncios, dominavam o setor de tecnologia, e presumia-se que o software “iria engolir o mundo” com tal ferocidade que poucas pessoas se preocupavam com despesas gerais ou custos operacionais.

Esse cenário mudou drasticamente na década de 2020. O Federal Reserve começou a aumentar as taxas de juros em dezembro de 2015 — coincidentemente, o mesmo mês em que Altman anunciou o lançamento da OpenAI — após sete anos de as ter mantido próximas de zero na sequência da Grande Recessão [5]. Os aumentos das taxas de juro puseram fim à era do dinheiro gratuito para o Vale do Silício, e o investimento em empresas emergentes começou a desacelerar. As taxas de crédito mais altas rapidamente deixaram claro que a tecnologia tinha outro problema em mãos: não havia uma categoria de produto verdadeiramente bem-sucedida há anos. Facebook, Google e iPhone tinham-se tornado proeminentes há mais de uma década; Uber, Lyft e outras empresas da economia gig ainda não eram lucrativas, e uma cascata de tendências tecnológicas amplamente promovidas — criptomoedas, Web3, metaverso — afundaram-se e queimaram-se em rápida sucessão. Ondas de demissões atingiram o setor em 2022 e 2023, e o Vale do Silício estava, pela primeira vez numa geração, em risco de entrar em recessão.

Eis as condições em que o boom da IA nasceu. E esse boom, lançado por uma empresa construída com base nas premissas e lógicas da era de juros zero – que presumia acesso a vastos recursos de investimento –, logo adquiriu uma necessidade urgente de um produto para vender a utilizadores e clientes empresariais. Na pressa para capitalizar o seu crescimento e notoriedade, as empresas de IA, especialmente a OpenAI, empregariam uma narrativa sobre uma tecnologia tão poderosa que em breve teria vida própria – tão poderosa que o leitor poderia simplesmente questionar como ganhar mais dinheiro, e ela seria a obrigada a dar a resposta. Tudo isso convergiu para dar origem à tendência moderna da IA generativa. 

O modelo de negócios, podia-se presumir com segurança, viria depois.

 

OPEN AI E O BOOM DA IA GENERATIVA 

Para compreender a propulsão e a estrutura dos modelos de negócios que se estão a formar no espaço da IA generativa, precisamos de entender a OpenAI, a força motriz à qual a maioria — senão todas — as novas empresas está a reagir, emulando ou da qual se alimenta. A OpenAI está no centro de quase todas as conversas sobre a tecnologia, tanto dentro como fora do setor. Com uma receita anualizada autodeclarada de 3,4 mil milhões de dólares projetada para este ano [6], ela é a maior empresa que atua no segmento, com a maior avaliação: 157 mil milhões de dólares, com base na sua ronda de financiamento mais recente [7].

Entretanto, o principal concorrente de constituição similar da OpenAI, a Anthropic (que afirma estar a caminho de faturar 850 milhões de dólares este ano [8]), foi fundada por ex-funcionários da OpenAI, assim como a aclamada “máquina de respostas” Perplexity. A Microsoft é a parceira mais próxima da OpenAI, fornecendo 10 mil milhões de dólares em financiamento e capacidade de computação em nuvem, e obtendo o Copilot alimentado pelo ChatGPT neste acordo, enquanto Google e Facebook lançaram apressadamente os seus próprios ciclos de desenvolvimento de produtos em resposta ao impacto causado pelo ChatGPT no final de 2022 e início de 2023.

Iniciamos com o estudo de caso da OpenAI e questionamos como é que ela é um produto imaculado do seu tempo e lugar: o Vale do Silício na era da caça aos unicórnios e na década das taxas de juros zero.

 

MITOLOGIA DO VALE DO SILÍCIO, DESTILADA E ACELERADA

“Se você pensar nas coisas mais importantes para o futuro do mundo, acredito que uma boa IA provavelmente está no topo dessa lista. Por isso, estamos a criar a OpenAI”, declarou Sam Altman ao veterano jornalista de tecnologia Steven Levy em 2015, numa entrevista que anunciava a empresa. “A organização procura desenvolver uma IA benéfica para a humanidade. E, por ser uma organização sem fins lucrativos, será de posse livre do mundo” [9].

Para quem não está familiarizado com o contexto histórico da missão fundadora da OpenAI, a noção de que a empresa de 157 mil milhões de dólares – que obteve o maior volume de capital de risco na história [10] e tem a sua receita proveniente da venda de software empresarial e de acesso ao Interface de Programação de Aplicações [API] para empresas como a PwC – seja uma “organização sem fins lucrativos” que será “livremente possuída pelo mundo” pode parecer dissonante. Portanto, vale a pena mapear a sua evolução de entidade sem fins lucrativos para uma entidade claramente com fins lucrativos – uma peça crucial do quebra-cabeça, pois essa evolução é o que efetivamente dissolveu a fronteira entre mitologia e modelo de negócios.

A OpenAI começou como um empreendimento grandioso, próximo da ficção científica e de alto conceito, cujo objetivo era explícito nas suas ambições: garantir que uma IAG superpoderosa fosse desenvolvida com segurança, de forma a beneficiar toda a humanidade. A suposta seriedade dessa missão era tal que, durante anos, a empresa evitou completamente um modelo de negócios (uma abordagem também subsidiada pelos beneficiários da era dos unicórnios, com pesados investimentos de capital de risco). Dessa forma, a valorização eventual de 157 mil milhões de dólares da OpenAI representa um marco: é o primeiro gigante tecnológico moderno nascido com a promessa de que o seu trabalho era tão importante que não precisava de considerar receita alguma – seria uma organização sem fins lucrativos.

Apple Retail Store, NYC (Mark Sebastian / Flickr)

 

O Vale do Silhício  há muito tempo que tem uma propensão para a grandiosidade, mas se estivermos a mapear a proporção entre o seu discurso de mudar o mundo e a viabilidade empresarial demonstrável, desde, digamos, a Apple, que ajudou a consolidar a prática de lançamentos de vendas cósmicos, mas ainda assim vendia hardware em lojas físicas; até à Uber, cujo discurso de disrupção era omnipresente, cujo aplicativo era popular, mas cuja matemática financeira sempre foi nebulosa; até à OpenAI, então talvez possamos ver o momento em que o carro é colocado totalmente à frente dos bois: quando a história de um empreendimento, a história de uma nova tecnologia com potencial comercial, ofuscou completamente a necessidade de um modelo de negócios.

Mas a história começa de verdade antes mesmo da fundação da OpenAI, quando a “IA superinteligente” era uma área de interesse e preocupação entre as elites do Vale do Silício [11] e, como veremos, indiscutivelmente uma forma de recém-chegados nesse campo ganharem vantagem competitiva. Na década de 2010, o espaço comercial da IA era dominado pela Google e pelo Facebook, que investiam cada um em tecnologias de aprendizagem de máquina e competiam para adquirir empresas emergentes promissoras como a DeepMind e contratar talentos de topo como Geoffrey Hinton

Analistas como a biógrafa de Musk, a repórter da Bloomberg Ashlee Vance, argumentaram que isso deixou Musk profissionalmente com ciúmes. Publicamente, Musk pode ter-se preocupado com a segurança da IA; em privado, as suas preocupações podem ter sido mais sobre perder uma grande tendência tecnológica e oportunidade de negócios em desenvolvimento [12]. Uma discussão amplamente documentada entre Musk e o ex-CEO do Google, Sergey Brin, sobre se a IA beneficiaria ou ameaçaria a humanidade, às vezes é citada como o ponto de partida para a OpenAI [13]. No entanto, é importante observar que Musk tinha razões pessoais e financeiras para se opor ao desenvolvimento comercial da IA pela Google ou outras gigantes de tecnologia.

Para compreender a génese da OpenAI, consideramos a probabilidade de que a empresa nunca foi o empreendimento altruísta que retratou aos media  — apesar de ter sido formada como uma organização sem fins lucrativos —, mas sim um veículo por meio do qual Musk e Altman poderiam alcançar vários objetivos pessoais e empresariais, incluindo travar  o progresso do Google em IA e posicionar a OpenAI como uma alternativa mais atraente aos olhos dos principais talentos em pesquisa, consumidores e, mais ainda, aos olhos dos  investidores.

Uma Linha do Tempo de Eventos Cruciais Sobre a Formação da OpenAI, e a Influência de Musk e o Espectro da “IAG” no seu DNA Organizacional

2012: Elon Musk conhece o fundador da DeepMind, Demis Hassabis, que, de acordo com vários relatos, desperta o seu interesse em IA ao detalhar os riscos que ela representa para a humanidade [14]. Musk investe 5 milhões de dólares na empresa. Musk encontra Sam Altman, então sócio da influente incubadora de empresas emergentes Y Combinator.

George Gillams / Flickr

2013: A Google demonstra interesse em adquirir a DeepMind. Musk discute IA na sua festa de aniversário em Napa com o cofundador da Google, Larry Page [15].  Relatos indicam que Musk tem inveja da dominância da Google na IA, e a sua relação outrora próxima com Page está a desgastar-se. Segundo os relatos, ele argumenta que Page não é suficientemente cauteloso com a IA; os dois têm um desentendimento. Musk tenta dissuadir Hassabis de vender à Google [16].

2014: A Google anuncia a aquisição da DeepMind por 500 milhões de dólares [17]. Musk gera grandes manchetes nos media ao declarar, durante uma entrevista no MIT, que a IA é “a nossa maior ameaça existencial”, uma das suas primeiras declarações documentadas sobre o poder de uma IA maligna [18]. Altman, então presidente da Y Combinator, começa a trocar e-mails com Musk sobre a IA.

Anthony Quintano / Flickr

2015: “O desenvolvimento de uma inteligência artificial sobre-humana”, escreve Altman no seu blog pessoal em fevereiro, “provavelmente representa a maior ameaça à existência contínua da humanidade” [19]. Em maio, Altman envia um e-mail a Musk propondo que iniciem um laboratório de IA juntos. “Tenho refletido muito sobre se é possível impedir a humanidade de desenvolver a IA. Penso que a resposta é quase certamente não. Se isso vai acontecer, penso ser bom que seja alguém que não a Google o primeiro a fazê-lo” [20]. Musk e Altman organizam um jantar no ponto de encontro do Vale do Silício, o Rosewood Hotel, com os principais pesquisadores e fundadores de IA para discutir a criação desse laboratório. Musk encabeça uma carta aberta pedindo a proibição de armas feitas a partir da IA [21]. Altman e Musk recrutam o CTO da Stripe, Greg Brockman, e o notável investigador de IA Ilya Sutskever, entre outros, e começam a formar a OpenAI.

Nov. 2015: Num e-mail que discute o anúncio da OpenAI, Elon Musk escreve: “Eu seria a favor de posicionar o blog para atrair um pouco mais o público em geral — há muito valor em fazer com que o público esteja do nosso lado — e depois ter uma versão mais longa, detalhada e técnica para recrutamento, com um link para esta versão no final da versão para o público geral“ [22].

TED Conference / Flickr

 

Dez. 2015: A OpenAI é lançada publicamente com uma missão declarada de desenvolver a IA “da maneira mais provável para beneficiar o conjunto da humanidade”, despertando amplo interesse dos media [23].

                              Wikimedia Commons

 

Desde o início, embora publicamente posicionada como uma organização sem fins lucrativos, a OpenAI foi estruturada e antecipada pelos seus fundadores como tendo potencial para gerar lucros, ou pelo menos potencial para exercer influências. Embora não tivesse um modelo de negócios, a OpenAI cumpria um propósito comercial distinto: suprimir os concorrentes de Musk e oferecer ao ambicioso Altman uma ponte para Musk — uma das figuras mais ricas e influentes do Vale do Silício — e para o seu círculo de aliados.

Uma perspectiva pela qual podemos ver o surgimento de “IAG” ou “IA de nível humano” ou “IA superinteligente” como um ponto de discussão generalizado é, portanto, como o resultado de uma tática comercial e de retaliação utilizada por Musk e defendida por Altman, como um esforço para atacar ou mesmo tentar suprimir o desenvolvimento e/ou implantação de produtos de IA comercial pela Google em particular. Esse posicionamento também beneficia a instituição ou empresa cujo objetivo público é desenvolver e implantar IA com “segurança” — que, por acaso, é a missão fundadora da OpenAI.

Essa tática pode ter-se mostrado bem-sucedida. Afinal, a Google havia desenvolvido muitas estruturas e tecnologias-chave, como o TensorFlow, uma biblioteca de software de aprendizagem de máquina de código aberto; e o “transformador” que dá nome ao “General Pre-Trained Transformer” do ChatGPT. A Google tinha uma vantagem de anos sobre a OpenAI em tecnologia de “Large Language Models” (LLMs): em 2013, Hinton trouxe a sua experiência em aprendizagem de máquina para a Google, que adquiriu a DeepMind no ano seguinte, introduziu o LaMDA em 2020 e desenvolveu o Bard e Gemini em 2023. Em 2016, poucos meses após se ter tornado o CEO, Sundar Pichai anunciou que a Google se tornaria uma empresa “orientada pela IA” (AI-first) [24]. No entanto, a OpenAI tomou-lhe a dianteira.

Google Building 43 (Robert Scoble / Flickr)

 

Isto deve-se em parte ao facto de a Google ter pisado uma série de armadilhas no seu desenvolvimento de IA comercial, ganhando uma reputação por lançar produtos “assustadores” e silenciar investigadores críticos da IA, tanto internamente como externamente. Em 2020, a empresa expulsou a famoso especialista em ética de IA, Timnit Gebru, depois de ter impedido a publicação do seu agora seminal artigo “Sobre os Perigos dos Papagaios Estocásticos: Os Modelos de Linguagem Podem Ser Grandes Demais?[25]. Em 2022, despediu o engenheiro de software Blake Lemoine, que tornou públicas as suas preocupações de que os robôs de conversação internos da Google se tinham tornado inteligentes [26]. Como resultado, a empresa não lançou um produto de robô de conversação semelhante ao da OpenAI, em parte por receio de que tal produto causasse ansiedade pública e má publicidade [27].

A Google emitiu um “alerta vermelho” internamente após o ChatGPT da OpenAI explodir em popularidade no final de 2022, e correu para recuperar o atraso lançando um produto concorrente.

Há também uma lição aqui sobre a importância de desenvolver uma narrativa empresarial: em meados da década de 2010, a Google, alvo da ira pública e de muita má publicidade por lançar o Google Glass e por revelações de que anaalisava as caixas de correio eletrónico, a caixa de entrada do utilizador, para melhorar as sugestões de anúncios (ambos os casos foram sentidos  pelo público como violações de privacidade), tinha uma reputação de ser invasiva; quando lançou um produto inicial de robô de conversação de IA com comando de voz chamado Duplex, isso causou controvérsia e reação negativa [28]. Após anos cultivando a sua imagem como guardiães preocupados com a IA segura, a OpenAI sofreu muito pouca dessa reação negativa.

Com este contexto, de que a missão fundadora da OpenAI foi guiada por objetivos empresariais distintos, podemos considerar a natureza dessa missão fundadora — construir uma IA segura, em nível humano, que beneficiaria a todos — e como é que ela evoluiu. Ou pelo menos, a história dessa missão fundadora. Elon Musk certamente conhecia bem o benefício de ter uma narrativa por detrás das suas empresas; a SpaceX catapultaria a humanidade para uma espécie multiplanetária, a Tesla estava a ajudar a salvar o mundo das mudanças climáticas. A OpenAI salvá-lo-ia de IAs superpoderosas. E numa época em que investidores financiavam empresas emergentes extremamente ambiciosas, mas financeiramente deficitárias, como Uber, Lyft, InstaCart e WeWork — empresas que perdiam dinheiro todos os anos, mas prometiam escala massiva e disrupção — a narrativa era crucial.

Como Musk disse num de seus e-mails para os outros fundadores da OpenAI: “Há muito valor em fazer com que o público deseje o nosso sucesso” [29].

A seguir, examinaremos o contexto histórico recente da missão fundadora da OpenAI – que hoje soa tão dissonante – e traçaremos a sua evolução de organização sem fins lucrativos para empresa decididamente orientada para o lucro. É uma transformação impulsionada pelas taxas de juros baixas que alimentaram o ecossistema do Vale do Silício com a sua mentalidade mais aventureira, desgastando a fronteira entre a mitologia e o modelo de negócios.

 

(continua)

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Notas

  1. Sam Altman in Conversation with StrictlyVC,” interview by Connie Loizos, YouTube, 53:25, May 18, 2019. ↩︎
  2. Ibid. ↩︎
  3. Ibid. ↩︎
  4. Nvidia’s Stock Is Expensive. A Look at Why, and How That Should Change, by the Numbers,” Associated Press, June 3, 2024. ↩︎
  5. Jon Hilsenrath and Ben Leubsdorf, “Fed Raises Rates After Seven Years Near Zero, Expects ‘Gradual’ Tightening Path,” Wall Street Journal, December 16, 2015. ↩︎
  6. Stephanie Palazzolo and Erin Woo, “OpenAI’s Annualized Revenue Doubles to $3.4 Billion Since Late 2023,” The Information, June 12, 2024. ↩︎
  7. Cade Metz, “OpenAI Completes Deal That Values Company at $157 Billion,” New York Times, October 2, 2024. ↩︎
  8. Anthropic Forecasts More than $850 Mln in Annualized Revenue Rate by 2024-End – Report,” Reuters, December 26, 2023. ↩︎
  9. Steven Levy, “How Elon Musk and Y Combinator Plan to Stop Computers From Taking Over,” Medium, December 11, 2015. ↩︎
  10. Ina Fried, “OpenAI Raises $6.6 billion in largest VC round ever.” Axios, October 2, 2024. ↩︎
  11. Superintelligence on NYT Bestseller List,” Future of Humanity Institute, University of Oxford, August 18, 2024. ↩︎
  12. Ashlee Vance, Elon Musk: Tesla, SpaceX, and the Quest for a Fantastic Future (New York: Ecco Press, 2015). ↩︎
  13. See Cade Metz, Karen Weise, Nico Grant, and Mike Isaac, “Ego, Fear and Money: How the A.I. Fuse Was Lit,” New York Times, December 3, 2023. ↩︎
  14. See Walter Isaacson, “Inside Elon Musk’s Struggle for the Future of AI,” Time, September 6, 2023; and Metz, Weise, Grant, and Isaac, “Ego, Fear and Money.” ↩︎
  15. Isaacson, “Inside Elon Musk’s Struggle for the Future of AI.” ↩︎
  16. Kai Xiang Teo, “Musk Once Tried to Stop Google’s DeepMind Acquisition in 2014, Saying the Future of AI Shouldn’t Be Controlled by Larry Page,” Yahoo News, September 7, 2023. ↩︎
  17. Catherine Shu, “Google Acquires Artificial Intelligence Startup DeepMind for More than $500M,” TechCrunch, January 26, 2014. ↩︎
  18. Samuel Gibbs, “Elon Musk: Artificial Intelligence Is Our Biggest Existential Threat,” Guardian, October 27, 2014. ↩︎
  19. Sam Altman, “Machine Intelligence, Part 1,” February 25, 2015. ↩︎
  20. Nick Robins-Early, “The Feud Between Elon Musk and Sam Altman – Explained,” Guardian, March 9, 2024. ↩︎
  21. Samuel Gibbs, “Musk, Wozniak and Hawking Urge Ban on Warfare AI and Autonomous Weapons,” Guardian, July 27, 2015 ↩︎
  22. OpenAI and Elon Musk,” OpenAI, March 5, 2024. ↩︎
  23. Introducing OpenAI,” OpenAI, December 11, 2015. ↩︎
  24. Jillian D’Onfro, “Google’s CEO Is Looking to the Next Big Thing Beyond Smartphones,” Business Insider, April 21, 2016. ↩︎
  25. Karen Hao, “We Read the Paper That Forced Timnit Gebru out of Google. Here’s What It Says,” MIT Technology Review, December 4, 2020. ↩︎
  26. Jon Brodkin, “Google Fires Blake Lemoine, the Engineer Who Claimed AI Chatbot Is a Person,” Ars Technica, July 25, 2022. ↩︎
  27. Richard Nieva, Alex Konrad and Kenrick Cai, “‘AI First’ to Last: How Google Fell Behind in the AI Boom,” Forbes, February 9, 2023. ↩︎
  28. Nick Statt, “Google Now Says Controversial AI Voice Calling System Will Identify Itself to Humans,” Verge, May 10, 2108 ↩︎
  29. “Open AI and Elon Musk.” ↩︎

O autor: Brian Merchant é um jornalista e autor americano de tecnologia. É licenciado pela UC SantaBarbara. O seu trabalho centra-se frequentemente em questões sociais e ambientais relacionadas com a tecnologia e as empresas de tecnologia. Os seus textos apareceram em publicações como The New York Times, Wired, Slate, The Atlantic e The Guardian. Foi colunista de tecnologia no Los Angeles Times de 2023 ao início de 2024 (despedido numa onda de despedimentos do pessoal da redação). Escreveu dois livros, The one Device: The Secret History of the iPhone (2017) e Blood in the Machine: the Origins of the Rebellion against Big Tech (2023). Atualmente, trabalha em tempo integral para o seu boletim no Substack, Blood in the Machine, onde relata como a grande tecnologia e os desenvolvimentos na IA gerativa afetam os trabalhadores e os consumidores.

 

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