Nota prévia: Este é o primeiro artigo de uma série em duas partes sobre a ameaça da perda de empregos e deslocamento de trabalhadores causada pela IA. O leitor pode ler a segunda parte amanhã.
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
14 min de leitura
Texto 31 – O deslocamento de trabalhadores impulsionado por IA é uma ameaça séria
Publicado por
em 14 de Julho de 2025 (original aqui)
De acordo com muitas estimativas, a utilização crescente da inteligência artificial deve provocar perdas significativas de empregos. A perspetiva de uma grave disrupção exige que comecemos a formular soluções políticas igualitárias desde já.

A ansiedade crescente sobre a perda de empregos causada pela inteligência artificial começou já a entrar na consciência pública.
Há uma década, conversava-se em festas de casa no Vale do Silício sobre o rendimento básico universal como solução para a onda iminente de automação. Um ano atrás, cientistas da computação começaram a divulgar as suas previsões não apenas no arquivo de acesso aberto arXiv, mas também em sites independentes e elegantemente formatados, como Situational Awareness (recomendado por Ivanka Trump) e Gradual Disempowerment, seguido por AI 2027 (lido por J. D. Vance).
No último mês, desde as postagens de Barack Obama na X até à revista Time e ao New York Times, a ansiedade sobre empregos e IA tornou-se um tema dominante. Diante da sensação de estar no topo de uma montanha-russa prestes a mergulhar no desconhecido, as respostas comuns incluem o distanciamento emocional — ou atribuir as grandes previsões ao exagero. Afinal, o modelo de negócios dessas empresas de tecnologia é prometer que os seus produtos podem levar a economizar dinheiro substituindo mão de obra; elas precisam que acreditemos nisso.
Também vimos surgir uma reação contrária à ansiedade. Um artigo de investigadores da Apple, indicando que modelos de linguagem de grande escala na verdade não raciocinam, tornou-se viral e foi usado como evidência de que o progresso está estagnado e que uma bolha de IA pode estar prestes a estourar. Outro estudo recente descobriu que desenvolvedores de código aberto trabalharam mais lentamente ao usar ferramentas de IA do que quando não as usavam, reforçando a ideia de que as previsões sobre o progresso da IA podem ser exageradas.
Acreditamos que a substituição de trabalhadores pela IA é um problema real. E é um problema que precisa da nossa atenção agora — não daqui a dez anos ou em algum futuro distante. Representa uma ameaça iminente, mas também uma oportunidade política. Provavelmente será uma questão relevante nos próximos ciclos eleitorais, e a esquerda precisa de estar preparada com propostas de políticas públicas para a enfrentar.
Aproveitando a Oportunidade
Seria muito fácil para a esquerda desperdiçar esta oportunidade política. Duas tendências, em particular, podem-nos impedir de desenvolver uma resposta adequada ao problema da perda de empregos causada pela inteligência artificial.
Uma das tendências é a resistência fragmentada aos impérios da IA. Não existe uma série de organizações progressistas e académicos a trabalhar com “IA”? Sim — mas os temas que eles abordam são variados e muitas vezes compartimentalizados. Muitos desses profissionais tratam de questões importantes como vigilância, segurança da IA, enviesamento algorítmico contra grupos marginalizados, impactos ambientais, degradação cultural causada por conteúdo de baixa qualidade e decadência das plataformas, criatividade, risco existencial, regulamentação e fiscalização, entre outros. Quem trabalha com políticas de IA está a lutar em várias frentes, e alguns são financiados — e em certa medida influenciados — pela própria indústria.
O número de pessoas centradas especificamente sobre a IA e o trabalho é bem menor. Fora do campo das políticas tecnológicas, os sindicatos têm-se envolvido com as implicações da IA, mas também estão ocupados com lutas mais imediatas por salários e condições de trabalho, organização de trabalhadores não sindicalizados e afins.
O segundo motivo pelo qual a esquerda pode perder a oportunidade de liderar o debate sobre a substituição de trabalhadores pela IA é a relação complicada que muitas pessoas de esquerda têm com tecnologias emergentes. Há uma tendência prevalecente de confundir a tecnologia com o sistema capitalista e com a matriz específica de relações de poder em que ela se desenvolve. Nesse sentido, a IA às vezes é analisada como um fenómeno totalmente negativo dentro das relações sociais capitalistas — um conjunto de tecnologias implantadas pela classe dominante no seu próprio interesse, com o objetivo de degradar e substituir o trabalho humano.
As dinâmicas atuais na esquerda e no cenário de políticas públicas sobre IA indicam que corremos o risco de reagir de forma meramente passiva à substituição de empregos pela IA, em vez de propor ideias de políticas de forma proativa.
Embora exista um movimento para moldar a tecnologia em prol do interesse público, ele tende a ficar restrito a círculos académicos ou voltados para políticas públicas — mesmo que, como escreve Leigh Phillips, a esquerda devesse ser otimista quanto ao uso da tecnologia para a libertação. O pessimismo tecnológico leva, na melhor das hipóteses, a uma tendência de focar em noções mal definidas de “governança” da IA, em vez de discutir como aproveitá-la, limitando as conversas sobre como a IA poderia democratizar a computação ou abrir novos modos de educação.
A IA apresenta um dilema especial porque é tão mal definida; sem uma definição clara do que é “inteligência artificial”, ela acaba por se tornar apenas um substituto para os oligarcas, o capitalismo de plataformas, o estado de vigilância — apenas uma pilha de maldades a ser rejeitada.
Em resumo, as dinâmicas atuais na esquerda e no cenário de políticas sobre IA significam que corremos o risco de reagir apenas à substituição de empregos pela IA, em vez de propor ideias políticas de forma proativa. Num ensaio de acompanhamento, vamos rever e propor algumas soluções políticas para esses problemas — desde regulamentar a IA como um serviço público até um programa de empregos públicos ao estilo do New Deal. Aqui, começamos a avaliar o debate dentro da esquerda sobre se a substituição de trabalhadores pela IA é realmente um problema.
Quão grande é a ameaça neste momento?
Até agora, o futuro do trabalho com a IA tem sido um “debate” de dois lados, conduzido principalmente por economistas do trabalho. Um lado acredita que a IA causará grandes perdas de empregos. O principal argumento dessa posição é que essa é, literalmente, a proposta de valor das empresas de IA — que as organizações usarão os seus produtos para economizar em mão-de-obra.
Bancos e empresas de consultoria têm divulgado números expressivos: a Goldman Sachs afirmou que 300 milhões de empregos em tempo integral no mundo todo — e um quarto do trabalho atual — poderiam ser inteiramente realizados por IA; analistas da McKinsey projetaram que 30% das horas atualmente trabalhadas nos Estados Unidos poderiam ser automatizadas. (Essas empresas de consultoria também estão vulneráveis à IA e correm para criar as suas próprias plataformas de IA, onde “agentes” de IA atuam de forma autónoma para realizar tarefas específicas em várias etapas.)
Mas a IA também criará novos empregos, argumentam economistas do trabalho do outro lado. Empregos são conjuntos de tarefas, e é improvável que as ferramentas de IA substituam todas essas tarefas. Mais de 60% dos empregos em 2018 estavam em cargos que não existiam em 1940, segundo um estudo do economista David Autor, do MIT, e seus colegas. O “novo trabalho” inclui cargos que envolvem novas tecnologias (operadores de drones, químicos têxteis), refletem mudanças demográficas (hipnoterapeutas, escanções) e incluem posições de trabalho na economia gig (compradores por aplicações e motoristas particulares). A IA produzirá coisas novas que ainda nem imaginamos, e vai ampliar o trabalho humano — não substituí-lo.
É verdade que, com as mudanças tecnológicas, empregos antigos foram substituídos por novos tipos de trabalho. Mas dois pontos são importantes ao considerar se a história é reconfortante nesse aspeto. Primeiro, não há dados suficientes para afirmar como as coisas “sempre acontecem”: sim, houve transições anteriores de economias agrárias para industriais e depois para economias de serviços, mas isso ainda representa apenas duas transições. Segundo, essas transições anteriores também não deveriam servir como fonte de tranquilidade, pois ainda estão em andamento e os seus impactos continuam ainda a reverberar. A política eleitoral dos EUA continua a ser moldada pelo fracasso do Estado em conduzir essas transições.
Alguns economistas adotam uma posição mais matizada, alertando que os empreendedores do setor tecnológico irão reivindicar “rendas de inovação”. Anton Korinek e Joseph Stiglitz escrevem: “Nós, economistas, estabelecemos uma meta demasiado fácil se apenas dissermos que o progresso tecnológico pode beneficiar a todos — também precisamos dizer como é que podemos fazer com que isso aconteça”. A desigualdade aumenta porque os inovadores obtêm um excedente, e, a menos que os mercados de inovação sejam totalmente contestáveis, esse excedente será superior aos custos da inovação, explicam eles. Além disso, as inovações afetam os preços de mercado e alteram a procura por fatores como trabalho e capital. “A IA pode reduzir uma ampla gama de salários humanos e gerar uma redistribuição para os empreendedores”, concluem.
Perspetivas Marxistas
Uma análise mais explicitamente marxista da tecnologia também é útil aqui. Karl Marx argumentava que a tecnologia não é desenvolvida sob o capitalismo para melhorar a sociedade ou “aliviar o esforço” do trabalho, mas sim para produzir mais-valia ou lucro para o capital. Assim, o capital não utilizará tecnologia a menos que ela possa realizar tarefas de forma mais barata do que o trabalho mais barato disponível (Marx chegou a dizer que o capital preferia usar mão de obra feminina de populações excedentes em vez de máquinas, quando o custo desse trabalho era “abaixo de qualquer cálculo”).
Sob essa perspetiva, deveria ser claro que o capital tem um forte interesse em automatizar o trabalho técnico e profissional de alto custo — ou seja, os tipos de trabalho aparentemente mais vulneráveis à disrupção causada pela IA. Dito isso, o cálculo do capital ainda depende de aceder a ferramentas de IA a um custo inferior ao da mão-de-obra. Atualmente, as empresas de IA procuram oferecer essas ferramentas a preços baixos para atrair utilizadores e, posteriormente, aumentar os custos. De facto, há sérias dúvidas sobre o lucro ou o “modelo de negócios” em termos gerais de geração de receita adequada, com alguns críticos a preverem uma crise de IA semelhante à dos ativos podres (subprime), que se poderia espalhar por toda a indústria de tecnologia, já que muitas empresas construíram os seus produtos com base em modelos não lucrativos.
O custo da inteligência artificial para os capitalistas que procuram substituir esse tipo de trabalho será um fator importante para determinar o quão disseminada essa automação se tornará. Ainda assim, dado o raciocínio de Marx, pode-se pensar que a esquerda estaria alarmada com o modo como os capitalistas usarão essa nova tecnologia para se enriquecer à custa dos trabalhadores. De que serve a nossa força de trabalho quando esta pode ser instantaneamente substituída?
Marx também argumentou de forma contundente que, sob o capitalismo, o principal produto da rápida mudança tecnológica é a produção de um “exército de reserva” de desempregados empobrecidos “libertados” pela tecnologia. A pobreza e a miséria sofridas por essas populações excedentes — mesmo que temporárias — também se podem tornar uma força política explosiva e um freio às exigências e ao poder da força de trabalho empregada.
A inteligência artificial pode atingir diretamente o coração de uma das principais fontes de estabilidade capitalista por mais de um século — trabalhadores relativamente estáveis da classe média que desfrutam de salários decentes e alguma autonomia no trabalho.
Marx e os marxistas já observaram como isso afetou diversos tipos de trabalho manual desde a Revolução Industrial, mas a perspetiva de uma automação generalizada do trabalho “mental” ou “cognitivo” pode iniciar um processo de “proletarização” da “classe profissional-especializada”, ou pelo menos de partes dela. Mesmo que esses trabalhadores eventualmente migrem para novas áreas de atuação, a transição nem sempre é tranquila e pode ser politicamente volátil (como vimos em regiões desindustrializadas do Rust Belt [nos EUA], atingidas por altos níveis de desemprego e que passaram a apoiar Donald Trump em grande número).
Na verdade, a persistência contínua de uma “classe média” entre o trabalho e o capital tem sido vista há muito tempo como uma refutação da previsão de Marx sobre uma polarização crescente entre um pequeno grupo de proprietários capitalistas e uma massa cada vez mais desqualificada de proletários. Independentemente do que Marx previu ou não, a inteligência artificial pode atingir diretamente o coração de uma das principais fontes de estabilidade do capitalismo por mais de um século — trabalhadores de classe média relativamente estáveis, que desfrutam de salários decentes e alguma autonomia no trabalho, e que (em sua maioria) veem os seus interesses como alinhados aos do capital.
Além disso, como argumentou Autor, se profissionais qualificados conseguiram conquistar vantagens no mercado de trabalho com base nas suas competências, a desqualificação provocada pela inteligência artificial poderia tornar essas capacidades mais amplamente acessíveis e, assim, reduzir a polarização entre esses trabalhadores e seus colegas de baixa remuneração em empregos manuais e de serviços mais precários.
E um aumento repentino da precariedade para grandes parcelas de trabalhadores qualificados e instruídos pode, na verdade, fortalecer a solidariedade entre esses profissionais e a classe trabalhadora em geral. Mesmo que um salário alto pareça proteger alguém das depredações do capitalismo, a maioria dos trabalhadores profissionais depende, em última instância, do seu salário para sobreviver — como qualquer outro membro da classe trabalhadora. Por outras palavras, eles são trabalhadores e deveriam ver-se como tal.
Nada com que se preocupar?
Mas a esquerda frequentemente tende ao ceticismo quanto à possibilidade de a IA causar uma perda massiva de empregos — e, com isso, corre o risco de perder a oportunidade de construir uma solidariedade ampla entre os trabalhadores. Parte dessa rejeição vem de uma tendência compreensível de desconfiar do que soa como exagero empresarial. Um dos críticos mais contundentes da IA é o sociólogo Antonio Casilli, cujo livro recentemente traduzido Waiting for Robots: The Hired Hands of Automation aponta que,
apesar da visão grandiosa das grandes empresas de tecnologia e das empresas emergentes, a realidade da IA está constantemente a ser reduzida: aos utilizadores são prometidos veículos autónomos, e recebem direção assistida; a eles são prometidos softwares de tomada de decisão, e recebem um menu suspenso de opções; são-lhes prometidos médicos robôs, e recebem um motor de busca médico.
Casilli argumenta que devemos focar no trabalho digital, especificamente no trabalho envolvido no treino de IA e na rotulagem de dados, o que ilustra que os trabalhadores humanos estão, na verdade, a serem substituídos por outros humanos. “O nosso trabalho não está destinado à obsolescência; está a ser deslocado e ocultado, retirado da vista de cidadãos, analistas e formuladores de políticas, que estão demasiadamente dispostos a aceitar a narrativa dos capitalistas de plataforma”, escreve ele. (A sua argumentação é complementada por Code Dependent, de Madhumita Murgia, e Feeding the Machine, de James Muldoon e colegas, que também se concentram em trabalhadores digitais vulneráveis e de baixa remuneração.) Em alguns casos, o trabalho está apenas a ser transferido por essas plataformas digitais da maneira que Casilli descreve. Mas a perda de empregos também ocorre; não é uma questão de “ou isto ou aquilo”.
Outra crítica séria da esquerda à ameaça de deslocamento de empregos pela IA vem de Aaron Benanav, cujo livro de 2020, Automation and the Future of Work, explica que as taxas de criação de empregos diminuem à medida que o crescimento económico desacelera, e que isso — e não a destruição de empregos induzida pela tecnologia — é o que tem deprimido a procura global por trabalho nas últimas cinco décadas. A principal narrativa, segundo ele, é a estagnação económica causada pela desindustrialização. Num artigo recente de opinião no New York Times, Benanav observa que os ganhos de produtividade com a IA generativa têm sido limitados, que é difícil ver como ela poderia gerar melhorias abrangentes nos serviços essenciais, e que os seus avanços já parecem estar a desacelerar.
Embora concordemos com parte disso — a estagnação económica precisa ser abordada como uma questão subjacente mais ampla — seria um erro negar o progresso da IA apenas porque os capitalistas sempre promovem exageradamente os seus produtos, ou porque ainda não conseguiram monetizar as suas conquistas. Além disso, apesar da estagnação geral (particularmente para a classe trabalhadora), a lucratividade capitalista foi substancialmente restaurada desde a crise económica dos anos 1970, e algumas das empresas mais lucrativas atualmente estão a investir pesadamente em IA.
Estudos revistos por pares estão a surgir e demonstram que a IA pode superar os humanos em diversas tarefas médicas, oferecer psicoterapia eficaz e escrever poemas que são mais populares do que os compostos por humanos. É possível que a atual onda de IA seja realmente diferente das experiências e ciclos de alvoroço anteriores. Além disso, o impulso histórico implacável do capital para automatizar todo o trabalho — especialmente o trabalho agrícola e industrial — não sugere que o trabalho “de serviços” e/ou “mental” estará para sempre imune.
Então, quando se trata da pergunta “A perda de empregos causada pela IA é uma catástrofe iminente ou um exagero?”, a tendência das redes sociais de polarizar discussões em debates binários está a desviar-nos do caminho. A verdade provavelmente está em algum lugar no meio — a disrupção causada pela IA não vai destruir a maioria dos empregos, mas ainda será significativa — e, como acontece com as mudanças climáticas, o cenário intermediário ainda é extremamente perturbador, especialmente quando combinado com outras tendências sociais e ecológicas.
Nós defendemos que este é um problema do agora. Ainda não há evidências robustas de uma substituição em massa, mas há muitos sinais de alerta. Empresas como a Shopify estão a enviar comunicados sobre tornarem-se companhias “IA em primeiro lugar”, onde os funcionários terão que justificar porque a quantidade de pessoas em projetos não pode ser substituída por IA. E o CEO da Salesforce — o maior empregador privado de São Francisco — Marc Benioff, afirma que a IA já realiza de 30 a 50 por cento do trabalho da empresa. E não é só o Vale do Silício: o CEO da Ford Motor, Jim Farley, declarou recentemente que “A inteligência artificial vai substituir literalmente metade de todos os trabalhadores de escritório nos EUA.”
Há uma preocupação especial com os trabalhadores em início de carreira. O Financial Times relata que os recém-formados representam apenas 7% das contratações nas quinze maiores empresas de tecnologia, com o número de novos recrutamentos a cair de um quarto em comparação com 2023. O CEO da Anthropic, Dario Amodei, causou alvoroço ao prever que a IA poderia eliminar metade de todos os empregos administrativos de nível inicial e levar a uma taxa de desemprego de 10 a 20% nos próximos um a cinco anos.
Por outro lado, também existem argumentos contrários. A revista The Economist argumenta que o “apocalipse dos empregos” ainda está distante, pois a participação dos empregos administrativos aumentou ligeiramente, o desemprego continua baixo e o crescimento salarial permanece forte — o que sugere que as empresas ainda não incorporaram muito da IA nos seus fluxos de trabalho. A revista também relata a frustração de Diretores Executivos que investiram em IA sem ver resultados práticos, e como gigantes como Alphabet e Meta despejaram dinheiro na tecnologia sem obter retorno. As evidências de uma disrupção real ainda são esparsas.
Ainda assim, é um problema que exige a nossa atenção na formulação de uma resposta agora, antes que os efeitos se manifestem plenamente, por três razões.
Primeiro, as capacidades da IA já são suficientes para substituir empregos, mesmo que o progresso tecnológico nessa área não continue no mesmo ritmo. Se as empresas conseguirem incorporar IA própria nos seus fluxos de trabalho, a disrupção será ainda mais evidente.
Segundo, o sentimento popular, influenciado pelas redes sociais, sobre IA e empregos pode divergir da realidade empírica da “perda de empregos por IA” — mas ainda assim ser uma força política poderosa. Por exemplo, é importante distinguir o SARS-CoV-2, o patógeno, da “COVID”, as representações sociais divergentes da pandemia que se espalharam online tanto na esquerda como na direita. A “perda de empregos por IA” pode tornar-se um tema político que exige reação mesmo antes — e independentemente — dos impactos materiais.
Terceiro, leva tempo para desenvolver ideias sólidas e construir poder político capaz de enfrentar a disrupção. O planeamento precisa de começar agora, antes que haja um peso de evidências confirmando que isso já está a acontecer em larga escala.
As Armadilhas Políticas Que Temos Pela Frente
A preocupação pública com a inteligência artificial traz uma oportunidade única de reorientar a nossa política de forma mais ampla e até de revigorar a esquerda. Mas estão a surgir várias armadilhas. A primeira é o risco de descartarmos a ameaça da substituição de empregos pela IA como uma farsa — e, com isso, perdermos a possibilidade de liderar na procura de soluções.
Se empregos com salários mais altos forem substituídos, os efeitos espalhar-se-ão pela economia e também afetarão os trabalhadores do setor de serviços.
A segunda armadilha é que permitimos que a Direita use a substituição de empregos pela IA para exacerbar tensões de classe de maneiras que agradam à base de Trump e enfraquecem ainda mais as instituições públicas. A observação irónica do Secretário do Tesouro, Scott Bessent, de que os trabalhadores federais demitidos poderiam fornecer “a mão-de-obra que precisamos para a nova manufatura”, a que se deve juntar os ataques às universidades, inspiraram discussões sobre o chamado “MAGA Maoísmo” — um movimento que glorifica o sacrifício económico, a liderança autoritária, o poder económico centralizado e visões nostálgicas da produção industrial. Podemos imaginar como é que trabalhadores do conhecimento deslocados poderiam ser ridicularizados por terem ido à faculdade e “desperdiçado” dinheiro e tempo — a retórica será contra “salvar” esses trabalhadores por escolhas más que fizeram.
Esta ideia de que a substituição de empregos pela IA é apenas um problema da classe média alta é um equívoco. A IA também está prestes a substituir muitos empregos de baixa remuneração em diversos setores, inclusive entre trabalhadores sem ensino superior. E se empregos de maior rendimento forem afetados, os efeitos espalhar-se-ão pela economia e também terão impacto nos trabalhadores do setor de serviços. Mas é fundamental pensar em como uma proposta que inclua apoio público para os trabalhadores de colarinho branco será recebida por pessoas cujas comunidades foram devastadas por terceirizações e automação nas últimas décadas, e para quem os políticos pouco fizeram. Qualquer discussão sobre empregos públicos precisa incorporar essa história e garantir que o projeto e a mensagem promovam solidariedade entre todos os tipos de trabalhadores.
A terceira armadilha é que a Direita vai reivindicar a liderança em ser “dura com a IA” e canalizar o ressentimento populista para políticas e discursos focados nas suas dimensões sociais, enquanto ignora as dimensões económicas. As dimensões sociais são onde a colaboração política bipartidária é mais provável — e elas são importantes.
No entanto, o espaço de atenção será ocupado por discursos sobre proteger crianças de falsificações profundas ou preocupações com romances com “parceiros” de IA substituindo encontros sexuais e reduzindo as taxas de natalidade, em detrimento de debates sobre estruturas de poder ou economia. Quando Vance diz que “a principal preocupação que tenho com a IA não é a obsolescência, não é a perda de empregos em massa” e que está preocupado com “milhões de adolescentes americanos conversando com robôs de conversação que não têm os seus melhores interesses em mente”, isso vai-se tornar o modelo para o discurso da direita sobre o tema.
Mas se conseguirmos evitar estas armadilhas — e desenvolver uma linguagem e uma estratégia para discutir a questão da substituição de empregos pela IA com uma análise ousada e rigorosa de alguns dos tópicos mencionados acima — ainda há uma possibilidade de tomar as rédeas de um momento imprevisível e disruptivo.
Isto pode parecer esmagador. No seu novo livro, Empire of AI, Karen Hao descreve a OpenAI e outros grandes atores como impérios: durante o colonialismo, os impérios tomavam e extraíam recursos, exploravam trabalho subjugado e projetavam ideias racistas e desumanizantes da sua própria superioridade e modernidade para justificar a exploração e a imposição de sua ordem mundial. A metáfora é poderosa. Mas Hao sustenta que, neste momento decisivo, ainda é possível “retomar o controle sobre o futuro desta tecnologia”.
Fazer isso significa evitar a tendência da esquerda de se organizar e pensar em torno de “questões” ou “movimentos” isolados. A IA pode remodelar profundamente as relações entre trabalho e capital, e também a forma como vivemos, trabalhamos e pensamos. Essa luta pode definir o terreno do capitalismo pelas próximas décadas. Ela vai precisar de socialistas e sindicalistas tanto quanto de economistas, visionários da tecnologia ou especialistas em ciência da computação. Sem uma esquerda que pense seriamente em moldar ativamente o futuro da IA, seremos forçados a apenas reagir a um futuro sombrio criado por tecnocratas.
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Holly Buck é Professora Associada de meio ambiente e sustentabilidade na Universidade de Buffalo. É uma investigadora que explora a forma como as tecnologias emergentes podem ser desenvolvidas no interesse público, trabalho estew que cruza diferentes disciplinas, métodos e públicos. É autora do livro After geoengineering: Climate tragedy, repair, and restoration. Verso Books (2019) e co-autora de Has it come to this? The promise and peril of geoengineering on the brink, Rutgers University Press (2020). É doutorada em Sociologia do Desenvolvimento pela Universidade de Cornell.
Matt Huber [1970 – ] é Professor de Geografia na Maxwell School of Citizenship and Public Affairs na Universidade de Syracuse. As suas investigações concentram-se nas relações da economia e da geografia histórica com o capitalismo e as políticas climáticas, com ênfase especial no campo da justiça social. Destaque para o seu livro Lifeblood: Oil, Freedom and the Forces of Capital (2013). O seu último livro é Climate Change as Class War: Building Socialism on a Warming Planet (Verso, 2022). É doutorado em Geografia pela Universidade de Clark.




