SERÁ QUE ABRIL AINDA VIVE? por José de Almeida Serra

SERÁ QUE ABRIL AINDA VIVE?

por José de Almeida Serra

1 – Esta é uma grande interrogação. Abril é, ou virou religião de que muitos se aproveitam para explorar o bom do zé-povinho.

Hoje li a última página de um diário – não quero fazer publicidade – que faz uma análise aos últimos (des)acontecimentos e (des)acções (des)governativas. Um horror, uma vergonha, a manifestação da suprema incompetência e do total desleixo.

Um PM (interpretem o significado) que mal e tardiamente aparece uma M (idem) que fica no gabinete a desenhar soluções, uns serviços altamente dedicados, especializados e pagos que einsteineamente ficam a equacionar soluções e etc., etc.. Entretanto uma parte do País é desfeita como se tivesse sido profundamente bombardeada, barbaramente aniquilada. De facto estamos em guerra e pergunto: para que servem as forças armadas e toda a panóplia de socorristas que nos custa anualmente milhares de milhões?

2 – Nos tempos dos doutores Salazar e Caetano tínhamos uma máquina de planeamento que muito poucos países do planeta tiveram, graças a homens altamente competentes num sistema que não o era e que nele fizeram o melhor possível. Abril declarou formalmente que iria melhorá-la e cumpriu. Matou-a e enterrou-a. Paz à sua alma. Agora temos um sistema bem melhor com homens incompetentes.

3 – Este último Verão é – tal como vários anteriores (de costas, costinhas e “bidas”) – inesquecível, de montes negros, invariavelmente ou quase, e mais alguns defuntos enviados antecipadamente para o paraíso celestial, suprema delícia, eterna felicidade. Temos de agradecer tanta generosidade, tanta preocupação pela felicidade completa e sem fim.

Estupidamente um órgão chamado CES-Conselho Económico e Social reclamou, inúmeras vezes, que fosse equacionado o problema dos incêndios (por volta dos anos ao redor de 2000, com os presidentes Silva Peneda, Bruto da Costa, Silva Lopes) e apresentou várias propostas que, para gratidão nossa, não seriam certamente lidas pelos destinatários: PR, AR, PM&associados. Mas seria a felicidade dos posteriormente encaminhados na direção do bom Deus e da eterna bem-aventurança. Envoltos, principescamente, em labaredas fumegantes.

Estupidamente defendia-se que as florestas deveriam ser limpas em prazos pré-determinados e, se não o fossem, empresas intermunicipais ou privadas mas sob controlo municipal procederiam à limpeza do que sujo ficasse e debitaria o custo aos proprietários. Estes pagavam e acabava o processo, não pagavam eram expropriados.

Falei pessoalmente com presidentes de três câmaras – Pampilhosa da Serra, Pedrogão e outra cujo nome já não recordo – e todos se mostraram interessados. Um grande investidor privado mostrou-se interessado no projecto, o falecido Queiroz Pereira. Para felicidade dos chamados à corte celestial e infelicidade dos que tiveram tudo ardido, nada se fez.

 

4 – É fácil “falar de poleiro”, difícil é fazer, mas permitam-me algumas interrogações:

4.1 – Certamente a coisa mais fácil do Planeta é montar em 11 horas uma ponte aérea de Angola para Portugal (começou às 9 da manhã e os aviões estavam no ar às 20 horas) que traria 320.000 cidadãos (ainda existe lista), nem um ficaria acampado no aeroporto, nem a dormir debaixo de pontes ou na rua ou sem alimentação. Felizmente ainda estão vivos vários dos participantes na reunião que a montou no Ministério das Finanças e na TAP haverá os registos correspondentes. Essa ponte, posteriormente adicionada com vários apoios externos e outros meios complementares traria, calcula-se, cerca de 520 mil pessoas e o País esqueceria, devidamente como lhe competia, um grande militar que em Angola evitaria massacres em massa e a prematura ascensão aos Céus de largos milhares de santificados em carnificinas: o então Tenente Coronel Garcia Leandro, hoje Tenente General. Nunca os Albuquerques serão reconhecidos em vida.

4.2 – Há queixas generalizadas sobre o (não) funcionamento de empresas públicas depois das nacionalizações, dos enormes dispêndios para cobrir prejuízos, das sucessivas faltas de bens essenciais ao país devido a que os grandes cadáveres ambulantes – CTM e CNN – deambulavam. Foi decidido acabar com os cadáveres e criar empresas novas – Portline e Transinsular – que a maior parte das pessoas desconhece. Pudera: as criadas nunca mais precisaram de dinheiro do Estado e não mais houve falta de abastecimento.

Também ninguém se apercebeu que para a viabilização da operação foram publicados três decretos-lei e teve de se proceder à transição, em hasta pública, de cerca de cinquenta navios, diversos imóveis e muitos outros bens. Tempo total para tudo: menos de dez meses, tempo para a tramitação em hasta pública, dois meses, recursos efectuados relativamente à hasta pública, zero.

Mas, graças ao Altíssimo, um processo judicial – de lana caprina – que movi contra o Banco de Portugal, dorme há mais de 10 anos num tribunal dito administrativo (em Lisboa). É esta a nossa (in)justiça! Temos, obviamente, o que merecemos

4.3 – Quem se der ao luxo de visitar a imprensa da Primavera-Verão de 1982 deparará com um megaprojecto, quase de salvação nacional, o PEPLS-Plano de Expansão de Produtos Longos do Seixal que custaria cerca de 300 milhões de contos (de facto muito mais porque esquecia simplesmente uma fábrica de concentração de minério em Moncorvo e uma via férrea dedicada Moncorvo-Seixal para transporte do dito). Haviam sido calculadas taxas internas de rentabilidade pelo Banco Mundial (8%) e pelo Banco de Portugal, que para o efeito – e dada a dimensão do projecto – criou um grupo especial (8,5%). Aceitei gostosamente ir tomar conta do projecto porque até ali só apreciara e criticara projectos de outros e agora iria “meter as mãos na massa”. E fui, tendo feito – com um grupo de três técnicos juniores e em menos de cinco semanas – uma reavaliação do projecto, em menos de 100 páginas e explorando 9 alternativas. Conclusão: TIRs entre -3% e +3%, situando-se a maior probabilidade à volta de zero. Conclusão: um projecto já pelo menos pré-aprovado em Conselho de Ministros foi morto e enterrado, eu “pirei-me” e inadvertidamente nem guardei cópia que depois procurei e não encontrei em sítio nenhum, nem na Ordem dos Engenheiros.

Nota adicional: regressaria em 1986 para fazer o PRSN, que era suposto custar 120 milhões (de contos) e custaria ou 104 ou 106, cumprindo prazos e ultrapassando objectivos e libertaria em cerca de 3 anos quase 4000 trabalhadores excedentários, para os quais foi criado um centro de criação de microempresas e todos melhoraram de vida. Tinha muitas cunhas, mas não era para ficar, era para os deixar sair. Um problema moral: ficavam os melhores, obviamente em situações mais vantajosas

 

5 – Nunca percebi porque não fizeram – nem governos nem historiadores económicos – o inventário rigoroso do que e como se passou com as nacionalizações e desnacionalizações, designadamente em dinheiros facultados às nacionalizadas e para quê. Quando e quanto previsto inicialmente e quanto foi entregue, bem como resultados obtidos. Não acredito no que muitos defendem, que algo se pretende esconder. O PAÍS TEM DIREITO A CONHECER E SABER!

 

6 – Tenho muito mais histórias, que contarei logo que tenha paciência e tenho também muitas mais que não poderei contar. Lamento o País que somos e tenho de reconhecer que tivemos no período constitucional muito poucos verdadeiros PMs e sobretudo no período inicial. Nas actuais circunstâncias, há que salvaguardar António José Seguro, não esquecendo que o seu próprio partido tudo fez para que não tivesse a oportunidade de ser primeiro-ministro, tratando-o vergonhosamente (brevemente poderemos fazer uma avaliação mais rigorosa desta personalidade). Alguns governantes que não posso deixar de mencionar: Rui Machete (várias razões), Ernâni Lopes (variadíssimas), Manuela Ferreira Leite (pelo seu rigoroso papel no desmantelamento do IPE, não obstante eu a tal me opor) e Luís Mira Amaral (autor de um PEDIP que o País não valorizou e que seria o único plano comunitário apreciado e louvado em Conselho de directores gerais da UE nos 7 anos que lá passei), bem como, exigindo informação, nunca se ter intrometido no desenvolvimento do PRSN que tive o prazer de realizar.

 

 

7 – Um apelo ao Divino (se existente): que Deus multiplique gente desta.

 

 

8 – Uma recomendação: senhores governantes e dirigentes aprendam a copiar o que bem se faz por esse mundo fora. APRENDAM A COPIAR, APRENDAM A COPIAR, APRENDAM A COPIAR.

 

Lisboa, 2 de Fevereiro de 2026

 

 

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