Reflexões sobre o texto de Boaventura de Sousa Santos: “Porque é que Trump não é Napoleão”
por Júlio Marques Mota
Há coincidências curiosas. Tinha preparado uma série de textos sobre a guerra USA-Israel contra o Irão e faltava dar-lhe o título. Depois, o título que lhe dei foi:
“Do banditismo sanguinário de Trump e Netanyahu ao servilismo da Europa”
e onde claramente se mostra que vivemos um tempo de monstros e de barbárie.
Até aqui nada de especial. Depois fui ler um texto de Boaventura de Sousa Santos – o escritor maldito em Portugal e cancelado de forma absoluta pelo Jornal Público, que ainda muito recentemente recusa um texto seu sobre a morte de uma colega sua, a cientista social, Paula Meneses, que durante muitos anos foi sua colega de trabalho, mas aceita publicar um artigo de outro escritor sobre a mesma cientista, sob o mesmo tema e no mesmo dia. O Público julgou-o, condenou-o e excluiu-o de modo absoluto do grupo de autores independentes que poderão encher com qualidade as páginas do Público, escreva ele o que escrever. Sentenciado. Cancelado, pela direção do jornal Público antes de qualquer julgamento, é esta a situação, o que nos levanta a questão: cancelado em nome de quê e ao serviço de quem é que se mantém este cancelamento?
O texto de Boaventura de Sousa Santos tem como título. “Porque é que Trump não é Napoleão” e nele lemos:
Excerto 1.
Mas o verdadeiro objectivo de Napoleão era exercer o poder a partir da compreensão da cultura egípcia que era muito mais ampla e antiga que o Islão, tal como no Irão a cultura persa é muito mais ampla e antiga que o Islão. Para atingir os seus objectivos, Napoleão trouxe consigo na expedição 500 civis que na maioria eram cientistas, incluindo 150 biólogos, mineralogistas, linguistas, químicos, matemáticos, etc. (…) Apesar da derrota que sofreu logo a seguir à vitória na Batalha das Pirâmides – a destruição da sua armada por parte do Almirante inglês Horatio Nelson –, Napoleão instruiu os seus cientistas (em geral, tão jovens como ele ou mesmo mais jovens) para continuarem o seu trabalho e reconstruir o material perdido com os recursos locais. Foi assim que o artista e engenheiro Nicholas-Jacques Conté inventou o lápis moderno, feito de grafite, o crayon Conté.
Os cientistas instalaram-se no palácio de Hassan Kashef no Cairo, e o cronista egípcio Abd al-Rahman al-Jabarti, que fez uma crítica arrasadora à declaração de Napoleão,[ii] não pôde deixar de expressar a sua admiração pela imensa biblioteca e pelo ambiente científico que Napoleão tinha criado:
“Os administradores, astrónomos e médicos viviam nesta casa, onde guardavam um grande número dos seus livros, com um guardião a cuidar deles e a organizá-los. E os estudantes entre eles reuniam-se todos os dias, duas horas antes do meio-dia, num espaço aberto em frente às prateleiras de livros, sentados em cadeiras dispostas em filas paralelas diante de uma mesa larga e comprida. Quem desejasse consultar algo num livro pedia os volumes que quisesse e o bibliotecário trazia-lhos. Depois, folheava as páginas, examinava o livro e escrevia. (…) Durante todo esse tempo, mantinham-se em silêncio e ninguém perturbava o seu vizinho.
Menos de dois meses depois de desembarcar, Napoleão criava o Institut de l’Égypte (22 de Agosto de 1798), seguindo o modelo do Institut de France, ao qual ele pertencia, e na sessão do dia seguinte propôs os seguintes tópicos de investigação: 1) Como podem ser melhorados os fornos de pão? 2) Como pode ser purificada a água do Nilo? 3) Os moinhos de vento são práticos para o Cairo? 4) É possível fabricar cerveja no Egipto sem lúpulo? 5) As matérias-primas para a pólvora estão disponíveis no Egipto? 6) Qual é o sistema jurídico no Egipto e que melhorias desejam os cidadãos? Assim nascia uma nova área de conhecimento imperial: a egiptologia. Centenas de livros com milhares de ilustrações se foram publicando nas décadas seguintes.
Excerto 2.
A farsa do regime change revela-se agora com extrema crueldade. Não conhecemos nenhum caso de êxito da política do regime change. Êxito em termos do aumento do bem-estar das populações, o proclamado propósito do regime change. Em vez de aumento do bem-estar, temos visto destruição, fragmentação territorial e pilhagem de recursos naturais. Afinal, que regime change houve na Venezuela, se a “ditadura chavista” foi mantida no poder? O regime change foi apenas o disfarce para confiscar a política petrolífera da Venezuela. Uma vez obtido o confisco mediante a prisão do Presidente Nicolas Maduro e da sua esposa, mantidos como reféns, a “ditadura chavista” desapareceu.
Mas o Irão não é a Venezuela. Porque a guerra foi concebida por Israel como guerra religiosa com vista à criação do Grande Israel, não faria sentido prender o aiatola Ali Khamenei e levá-lo preso para Nova Iorque. Era preciso assassiná-lo e aos líderes religiosos que estavam com ele. O confisco dos recursos naturais e o bloqueio da China estarão sempre no horizonte, mas os caminhos para lá chegar terão de ser muito mais destrutivos.” Fim de citação
Lidos estes excertos, vejamos agora a sua ligação com o nosso título da série e não apenas com isso, mas lá iremos.
O excerto 1 assinala-nos a importância da ciência e do saber na lógica de Napoleão. Desse ponto de vista, os franceses estar-lhe-ão gratos pois é a partir de Napoleão que foram criadas as Grandes Écoles que são ainda hoje a grande glória da França no que se refere ao ensino e percebe-se assim a importância que o saber e a ciência ocupam no esquema napoleónico.
Hoje, o equivalente deste sistema do tipo Napoleónico está bem vivo na China e inversamente nos USA, onde as estruturas de ensino estão em destruição rápida, que agora esconde a sua subalternização científica e técnica pela força das bombas, procurando cercar a China no que diz respeito à sua cadeia de abastecimento global, mas deixemos a questão da cadeia global que analisaremos no ponto seguinte e fixemo-nos no ensino. Numa série que estamos a criar sobre a crise da civilização e do ensino em geral podemos ler quanto a estes dois países, China e USA, num dos textos que nos vais servir de pano de fundo sobre toda esta futura série, um texto de Noah McCormack, editor da revista crítica The Baffler, onde lemos o seguinte (original aqui):
“Em 2007, eu estava em Xangai num jantar organizado por um familiar. Muitos dos convidados eram os chefes americanos das operações chinesas das suas empresas norte-americanas. Era um momento de otimismo quase eufórico. Um enorme novo mercado tinha-se aberto, o dinheiro fluía em torrente, e não havia necessidade de se preocupar com a concorrência chinesa. Os executivos eram unânimes: o sistema de educação mecânica da China produzia trabalhadores extremamente competentes do ponto de vista técnico, mas a criatividade intelectual e científica cultivada pelo nosso sistema educativo de livre investigação significava que sempre dominaríamos os investigadores locais. Hoje, a China abriga oito das dez principais instituições no ranking de universidades de pesquisa da revista Nature (os Estados Unidos acabaram de cortar o financiamento da primeira da lista, Harvard) e ultrapassou a América em todos os setores, dos carros elétricos às máquinas agrícolas. Em dez setores industriais estratégicos, a China lidera em sete e a América em três. O que é que aconteceu?
Muitos fatores estão além do objetivo deste ensaio, desde mudanças populacionais até a bem-sucedida aposta chinesa no “produtivismo” em contraposição à nossa economia financeirizada, mas um deles é que a China acredita na educação e na literacia mais do que nós. Isso fica claro já na literacia de base, onde o país atingiu uma taxa de 97%; recentemente, o equivalente nos EUA foi estimado em apenas 79%. Enquanto o ensino superior americano foi sendo lentamente sufocado pela redução dos subsídios estatais e pela crescente dependência de empréstimos estudantis, a China investiu pesado em educação. A suposição racista de que os chineses não poderiam ser criativos revelou-se muito, muito errada.
E porque a China é governada por uma cúpula ostensivamente marxista, o país tem uma capacidade de restringir os opiáceos eletrónicos muito além do que qualquer americano poderia imaginar. Em 2019, a China limitou os menores de dezoito anos a noventa minutos de videojogos por dia. Em 2021, esse limite foi reduzido a uma hora às sextas-feiras, fins de semana e feriados, entre 20h e 21h. Restrições semelhantes limitam os jovens a passar mais de 2h48 por dia a visionarem vídeos. Embora a evasão seja generalizada, os efeitos positivos da restrição em comparação com o sistema americano descontrolado são incalculáveis. A natureza viciante dos smartphones é um problema muito sério que contribui para o declínio da literacia, mas os telefones existem num contexto social, e não o contrário. (…), enquanto as escolas chinesas ensinam os alunos sobre o impacto da IA na sociedade — riscos e enviesamentos, além da aprendizagem de base —, as escolas americanas correm de cabeça para servir conteúdo gerado por IA como a única versão de educação que as crianças recebem. Surpreendentemente, em 2022, o Conselho Nacional de Professores de Inglês declarou: “Chegou a hora de descentralizar a leitura de livros e a redação de ensaios como os elementos fundamentais do ensino de língua inglesa.” O charlatão-cum-revolucionário de IA e porta-voz do ChatGPT, Sam Altman, diz: “Uma criança nascida hoje nunca será mais inteligente do que a IA, nunca.” A sua intenção é atrair mais investimentos para a sua empresa com a promessa ilusória de uma IA de “nível de doutorado”, mas de uma coisa ele deveria ficar certo, apesar de tudo o que diz, é de que não é que a IA esteja a alcançar a “inteligência geral” como ele diz, mas são sim as crianças que não estão agora a alcançar o nível de inteligência que deles e para a sua idade seria de esperar.
Pois é a IA que dá à classe dominante americana o impulso final para abolir, em maior ou menor grau, a educação. Enquanto as escolas de ensino primário e secundário se preparam para impor a IA aos alunos, o financiamento do ensino superior está a ser basicamente eliminado. Pela primeira vez em séculos, a elite americana deixou de sentir que precisa de trabalhadores e soldados instruídos para sustentar e reproduzir o sistema. As estratégias de segurança nacional, de Biden a Trump, baseiam-se cada vez mais na ideia de que podemos alcançar o objetivo (inatingível) de uma “inteligência artificial geral” em poucos anos e, assim, dominar a China daqui para a frente. Para as elites militares ingénuas quanto à tecnologia (e para as empresas do Vale do Silício que lucram com elas), não importará se a classe de oficiais subalternos não conseguir entender Clausewitz; a IA no campo de batalha dir-lhes-á quais ordens dar a um pelotão. Quanto à economia, nas palavras do magnata Elijah Clark: “Como CEO, posso dizer que estou extremamente animado com isso. Eu mesmo despedi funcionários por causa da IA. A IA não entra em greve. Não pede aumento de salário.” Como dizem os painéis publicitários recentemente avistados em São Francisco e Nova York: deixem de contratar humanos.
A sociedade americana é dominada por charlatães ricos e políticos literalmente dementes, que estão felizes em assumir todos os riscos da IA porque ela promete criar trabalhadores que sequer conseguem conceber a ideia de sair da empresa, muito menos de fazer greve. As elites estão extasiadas a imaginarem uma vasta população sem instrução e improdutiva, forçada a pagar a empresas como a OpenAI para ter acesso à palavra escrita e a uma aproximação do pensamento; com os desempregados iletrados e viciados em ecrãs, é pouco provável que se politizem e se juntem a uma campanha socialista[i]. Theodor Adorno observou nos anos 1940 que, quando o liberalismo burguês é substituído pelo fascismo, a cultura letrada também o é. Parte da elite americana está ela própria a defender a idiotice. (…)
Da elite americana que ainda vê valor contínuo no pensamento letrado, a maioria dela contenta-se em criar uma sociedade onde uma pequena “elite cognitiva” domina o restante. Crianças pobres passam duas horas extras por dia diante de ecrãs, enquanto os ricos mandam os seus filhos para escolas privadas onde nenhum dispositivo eletrónico é permitido, como Mary Harrington explicou recentemente no New York Times. Controlar o efeito dos media é possível mesmo nos Estados Unidos; simplesmente o reduzimos a um privilégio de classe. Gosto muito da Primeira Emenda e abomino a censura, e ainda assim cheguei, com relutância, à conclusão de que a Grande Muralha da China será, a longo prazo, um benefício para aquele país. O que a China nos mostra é que, ao contrário de toda a linha de estudos tecnocentristas que seguem McLuhan, o que importa é o sistema social no qual a tecnologia está inserida. A China não é uma utopia, mas os seus cidadãos têm um futuro mais promissor do que os cidadãos do nosso país, e poderão ler a respeito dele — graças a um sistema sociopolítico que ainda considera a literacia necessária e mantém a sua primazia sobre o capital privado.
Enfim, por aqui se confirma a argumentação de Boaventura a partir de um outro ponto de vista, o da literacia dos povos, das políticas para o seu desenvolvimento (caso da China) ou do seu subdesenvolvimento (caso dos Estados Unidos) desde a última década, e com particular realce sob a direção de Trump II. Não vale a pena mais desenvolvimentos sobre esta matéria uma vez que teremos na série assinalada muito tempo para a discutir.
Olhemos para o segundo excerto do texto de Boaventura de Sousa Santos.
Neste excerto sublinha-se a problema das commodities não reproduzíveis, quando nos diz:
“Afinal, que regime change houve na Venezuela, se a “ditadura chavista” foi mantida no poder? O regime change foi apenas o disfarce para confiscar a política petrolífera da Venezuela. Uma vez obtido o confisco mediante a prisão do Presidente Nicolas Maduro e da sua esposa, mantidos como reféns, a “ditadura chavista” desapareceu.
Mas o Irão não é a Venezuela. Porque a guerra foi concebida por Israel como guerra religiosa com vista à criação do Grande Israel, não faria sentido prender o aiatola Ali Khamenei e levá-lo preso para Nova Iorque. Era preciso assassiná-lo e aos líderes religiosos que estavam com ele. O confisco dos recursos naturais e o bloqueio da China estarão sempre no horizonte, mas os caminhos para lá chegar terão de ser muito mais destrutivos.” Fim de citação
Mas a confiscação dos recursos de que fala Boaventura de Sousa Santos remete-nos de imediato para Marx e a sua acumulação primitiva, e remete-nos para um outro texto seu já anteriormente citado, “É o colonialismo, estúpido!” (ver aqui), onde se afirma:
“E como bloquear a China em África e no Médio Oriente? É difícil dizer se Israel é, à semelhança da Europa, o vassalo leal dos EUA, porque, neste caso, não se sabe quem é vassalo e quem é senhor. O Irão é o grande quebra-cabeças no Médio Oriente; em África, é a Nigéria. A estratégia está bem definida. De uma ou de outra forma, ambos os países estão na mira da neutralização. O elefante dentro da sala da NSS é o que acontecerá no interior dos EUA, uma sociedade empobrecida, dividida, ignorante sobre o que é hoje e iludida sobre o que foi ontem, em suma, uma sociedade onde uma guerra civil a conta-gotas já está a ocorrer com massacres nas escolas, supermercados e igrejas. O que nos vale é que a história não é determinista e que o acaso e a resistência dos povos têm razões que a razão imperial desconhece.”
e remete-nos de igual modo para um texto meu onde escrevi:
“É evidentemente possível, numa interpretação dinâmica, supor que a escassez de trigo modifica a relação de forças de modo a levar a favor da classe detentora dos bens não reproduzíveis a renda a um nível que permite uma mudança de técnica. É o que Sraffa faz (§ 88). Mas deixa assim para trás a problemática estática comparativa do seu modelo, e então… com a autonomização do valor da renda e a ser este imposto pelo poder da classe dos proprietários desses recursos, terras agrícolas (veja-se o Donbass), minas, petróleo, terras raras ou outros, tudo pode acontecer (redução ou ampliação de fronteiras, revolução tecnológica, etc. captação intensiva de recursos, veja-se o Coltran ou o petróleo entre muitos exemplos possíveis, ocupação de Estados, guerras, assassinatos, etc.) Lembro aqui uma frase do CEO de uma grande multinacional de matérias-primas: esta é a atividade onde se ganha ou onde se morre. E acrescentaríamos: e onde também se mata. Relembro aqui as mortes de Lumumba do Congo, de Thomas Sankara do Alto Volta, de Allende, entre tantos outros e por detrás destas mortes esteve sempre a maldição das matérias-primas. De passagem, o economista Arghiri Emmanuel foi conselheiro de Lumumba e teve de fugir, ou ficava lá!
Tudo isto pode parecer um exagero da minha parte, mas Donald Trump via o seu embaixador na ONU, Mike Waltz, mostrou que esta é a realidade dos nossos dias quando afirmou:
“Não podemos deixar as maiores reservas energéticas do mundo sob o controlo de adversários dos Estados Unidos” — Mike Waltz, embaixador dos Estados Unidos na ONU, em 5 de janeiro de 2026. (ver original aqui) Fim de citação
Toda a matéria que se possa escrever a partir dos textos citados anteriores neste ponto 2 aparecem sintetizados num trabalho por nós escolhido para a série de agora, um trabalho do professor Timothy Burke, intitulado: O Retorno dos Impérios? Ou o Início do Banditismo (original aqui).
As condições únicas que tornaram o imperialismo europeu possível no final do século XIX acabaram. A assimetria de força avassaladora e abrangente também já deixou de existir. Os estados-nação europeus, repletos dos frutos do capitalismo monopolista e capazes de custear uma burocracia administrativa que abrangia grande parte do globo, desapareceram. As populações subjugadas que aceitavam, ainda que de forma limitada, a autoridade de impérios de dominação indireta — em parte porque não compreendiam plenamente o que havia além das terras que conheciam — não existem.
O império do ar que Trump e os seus aliados desencadearam contra a Venezuela e o Irão — e que sem dúvida desejam libertar também noutros lugares — não pode exercer nenhum tipo de poder administrativo direto dentro desses territórios. Não se trata de império em nenhum sentido antigo, ainda que alguns deles pensem que seja, ainda que os analistas de notícias o vejam dessa forma. É banditismo. É a exigência de tributo sem sequer a oferta de proteção futura.
Isso pode funcionar por pouco tempo onde o regime em questão é o que Frederick Cooper chamou de “Estado guardião”. Estados guardiões coletam rendas por permitir que outros atores nacionais e internacionais operem dentro da sua soberania nacional, e viram os seus braços torcidos para terem de abrir os seus portões pelo endividamento, por concessão de condições favoráveis de acesso às oportunidades e às riquezas no Norte Global, e da prestação de serviços essenciais às suas populações por meio de ONGs ou ajuda bilateral.
O que Trump está a fazer é inverter de alto a baixo a relação de guardião: ele exige que as rendas fluam para o império, e que o império forneça apenas um único benefício recíproco ao sujeito dominado: não o matar. “Que lugar é este em que está a viver, bom, seria uma pena se algo lhe acontecesse” é basicamente tudo o que a máfia oferece na realidade. A ideia de alguém a proteger os interesses dos seus aliados/clientes leais através da intimidação e de métodos coercivos, o que é típico da máfia, é uma ficção. Pague ou morra.
A forma de império de Trump é decapitacionista. Ou se lhe paga, e pode-se viver, o seu palácio ainda fica de pé, a sua grande cidade não recebe uma leve chuva de munições aleatórias, e talvez alguns pescadores possam voltar para casa com o seu pescado. A Venezuela era, sob Maduro, mais ou menos um Estado guardião, embora relativamente pouco passasse pelos seus portões em qualquer direção. É possível cobrar um tributo decapitando o regime da Venezuela porque a sua estrutura de poder é efetivamente personalista — o seu soberano relativamente pouco se importa com o seu povo. (…)
Ninguém pode administrar um império decapitacionista sobre uma hidra. Nem, paradoxalmente, consegue cobrar tributo facilmente de um alvo rico. O Irão tem muito petróleo, mas a produção petrolífera iraniana importa a muitos outros atores além do próprio Irão, e a maioria deles não toleraria um mafioso a dizer que tudo lhe pertence agora. Trump pode ficar com o petróleo da Venezuela se conseguir, ao caminhar por essa via, convencer alguém a reconstruir a capacidade produtiva, porque ninguém, exceto Cuba, depende tanto dela. A China tem outros fornecedores.
Uma máfia, um cartel, tem de estar extensamente dentro dos seus alvos para efetivamente cobrar o seu tributo, assim como um parasita tem de estar dentro do hospedeiro. O império decapitacionista de Trump está completamente fora dos seus alvos. Trump vai descobrir muito rapidamente que mesmo que a próxima cabeça da hidra grite nah bishtar!, nunca mais ! — a única coisa que não se consegue ver da órbita é dinheiro, e não se pode mandar um drone para receber subornos. Ele vai descobrir que não se consegue coreografar a performance de uma nação de milhões, ou mesmo de um regime de centenas, a partir do ar. O poder aéreo só serve para algumas coisas, e nenhuma delas é “controlar um território”.
E ficamo-nos por aqui, explicitando que a série de textos de agora, intitulada “Do banditismo sanguinário de Trump e Netanyahu ao servilismo da Europa” é apenas a tradução na prática do que resulta de sistemas sociais em ascensão num mundo global e de sistemas sociais em declínio e num caso e no outro os sistemas educativos de cada um destes dois grupos são peças centrais, na dinâmica social que lhe está associada e isso analisaremos na nova série sobre a crise social em geral e do ensino em especial.
A terminar este meu texto, em que procuro ligar a nossa série atual intitulada
“Do banditismo sanguinário de Trump e Netanyahu ao servilismo da Europa”
ao texto do Boaventura de Sousa Santos Porque é que Trump não é Napoleão
e ligar este último à futura série sobre Crise Social e Crise do Ensino em geral, fica-me uma questão bem amarga: uma das críticas de fundo feita a Boaventura de Sousa Santos é a de ter praticado extrativismo sobre os quadros do CES[ii]. Nunca lá trabalhei, não poderei afirmar se é verdade ou falsa esta acusação, mas permito-me pensar alto e pensar aqui é sobretudo não o ato de somar factos, de somar ideias, não, é antes o ato de ligar factos e ideias, de refletir sobre eles e elas e de chegar a conclusões obtidas a partir destas ligações, mesmo que as conclusões a que se chegue possam reduzir apenas uma pergunta incómoda colocada em texto, e esta atitude tem, como paralelo, uma diferença entre alfabetização e literacia pois esta última, contrariamente à primeira, não é apenas saber juntar letras; é a capacidade de manter uma ideia complexa na nossa cabeça até que a consigamos questionar.
E a pergunta que surge deste questionamento, e que aqui fica, é ela bem simples: como é que alguém que em pleno cancelamento, separado de todo e de todos, a morte mental desejada pelo sistema, escreve desta forma e com esta substância, à velocidade de um tempo que quer ser mais rápido que a própria sombra, precisaria de extrativismo sobre quem quer que fosse? Por absurdo, se isso fosse verdade, o CES estaria repleto de gente com o nível superior ao do Boaventura de Sousa Santos, daí então o extrativismo, e a ser assim eu acrescentaria: o CES estaria repleto de gente jovem com o nível então de Prémio Nobel. Mas não há cá nenhum laureado.
Nunca trabalhei no CES, reafirmo-o, mas isso não me impede de ligar (não apenas adicionar) factos e ideias e dizer: o extrativismo é uma acusação que não bate certo. Mas se uma acusação não é credível, automaticamente ninguém pode garantir que aquelas outras acusações que foram levantadas para o mesmo objetivo o sejam[iii]. E digo isto por analogia com o pensamento económico de matriz neoliberal em que no ótimo de Pareto, a referência da política neoliberal, quando uma condição necessária não se verifica então nada a seguir pode garantir que o ótimo venha a ser alcançado (a teoria do segundo ótimo, do second best) e dir-se-á então, no mínimo, que o ótimo de Pareto é uma ficção matemática irrelevante para mercados reais. E o second best é uma construção arbitrária para esses mesmos mercados. Mas no caso em questão não é apenas esta condição que não bate certa, como questionámos noutras ocasiões que não vale a pena aqui repetir, são várias as condições, e é isto que logicamente me coloca ao lado do Boaventura – não é uma questão de amizade, embora esta exista desde há muito e estabelecida ao longo de décadas e com várias fricções pelo meio, e que lhe deram substância. Não há pior inimigo do que o amigo que nos dá sempre razão, li eu algures, e eu nunca quis ser inimigo de ninguém, e não o sou.
NOTAS
[i] Este discurso em nada difere do de Boaventura de Sousa Santos quando num texto já publicado no blog A Viagem dos Argonautas e intitulado É o colonialismo, estúpido! (ver aqui) escreve, caracterizando a sociedade americana: “ os EUA, [é] uma sociedade empobrecida, dividida, ignorante sobre o que é hoje e iludida sobre o que foi ontem, em suma, uma sociedade onde uma guerra civil a conta-a-gotas já está a ocorrer com massacres nas escolas, supermercados e igrejas” O sublinhado é nosso
[ii] Curiosamente, se analisarmos os CV dos catedráticos de aviário, ou seja, da maioria dos catedráticos a terem obtido este grau com menos de 50 anos de idade, poderemos constatar os múltiplos trabalhos , os artigos, assinados com jovens na situação de mestrandos ou doutorandos. Não há aqui extrativismo!”
[iii] Curiosamente, a existir base material para esta acusação, esta seria a prova mais fácil de apresentar e de escrutinar. Até agora, ninguém apresentou nada e não será por acaso, como explico com a minha demonstração por redução ao absurdo: ninguém apresentou nada porque a prova não pode logicamente existir. Logicamente, emerge daqui uma outra questão: como é que se explica o silêncio da Universidade, dos universitários sobre esta matéria? Eu explico esse silêncio com uma análise feita pelo Professor Paul Musgrave face ao silêncio que atravessa as Universidade de hoje: não se pode ir contra a corrente porque há as contas de fim do mês a liquidar.

